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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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quinta-feira, 31 de julho de 2008

Espiritismo (Revista Super Interessante)

Revista Super Interessante – Edição 180 – setembro de 2002

Que religião é essa?
Criado por um pedagogo, o Espiritismo surgiu na França no século XIX. Hoje, o Brasil possui a maior comunidade espírita do mundo. Saiba tudo sobre a religião que considera a morte apenas uma etapa da evolução pessoal e que acredita na vida em outros planetas.

Espíritos (Revista Super Interessante)

Revista Super Interessante – Edição 237 – março de 2007

Eles vêem espíritos
Para a ciência, ver e ouvir fantasmas não tem nada de sobrenatural: tudo é criado pelo cérebro. Agora os cientistas tentam explicar por que tanta gente, em diferentes épocas e civilizações, afirma ver espíritos.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Pluralismo religioso contemporâneo: Diálogo inter-religioso na teologia de Claude Geffré

Pluralismo religioso contemporâneo: Diálogo inter-religioso na teologia de Claude Geffré
Roberlei Panasiewicz
Editora:
Paulinas
Sinopse: Surgida a partir de uma tese de doutorado em Ciências da Religião, esta obra pretende enfrentar o desafio do pluralismo religioso contemporâneo à luz das sugestões oferecidas pela teologia de Claude Geffré.
Na primeira parte, o leitor é introduzido à perspectiva hermenêutica de Geffré. A teologia desse pensador católico busca uma linguagem que fale humanamente de Deus; para isso, quer superar a teologia dogmática tradicional.
Na segunda parte, o autor expõe as conseqüências dessa mentalidade para a teologia das religiões: repropõe o pluralismo religioso como desígnio de Deus, esclarece a dimensão cristológica que vê Jesus como universal concreto e recoloca em novos parâmetros a perspectiva eclesiológica da missão e a concepção de verdade. Trata-se de um sério esforço por apresentar uma teologia do pluralismo religioso.

O Futuro da religião na sociedade global: Uma perspectiva multicultural

O Futuro da religião na sociedade global: Uma perspectiva multicultural
Alberto Moreira e Irene Dias de Oliveira
Editora:
Paulinas
Sinopse: O tema gerador deste livro é a necessidade de um olhar multicultural para o futuro que a sociedade global reserva à religião. O debate sobre o presente e as tendências que se prospectam para o fenômeno religioso, no acelerado processo de globalização em que vivemos, envolve pesquisadores do mundo inteiro que, desde as especificidades de cada ciência e de cada país ou região, procuram compreender um fenômeno de alcance global.
Com efeito, os processos de mudança no campo religioso, o surgimento de novas propostas religiosas, a perda da autoridade de diversas mediações institucionais tradicionais e o deslocamento da própria experiência subjetiva da religião ocupam hoje boa parte desses esforços. A mirada plural, interdisciplinar e internacional desta obra sem dúvida aporta novos dados e melhora a compreensão da própria religião. Os trabalhos dos pesquisadores reunidos neste livro pretendem estudar e debater o alcance e as conseqüências do processo de mudança sociocultural hodierno, visando a uma melhor compreensão do fenômeno religioso.
Sua intenção é pensar o surgimento de novas propostas religiosas e a reconfiguração, seja da experiência subjetiva da fé, seja do campo religioso brasileiro e mundial. Em todas elas, nota-se o pano de fundo da influência continuada, ainda que mitigada, da teologia da libertação e do neopentecostalismo.

Revista de Estudos sobre o Jesus Histórico e sua Recepção

terça-feira, 29 de julho de 2008

Evangelhos são obra de autores desconhecidos, dizem pesquisadores

Atribuição a Mateus, Marcos, Lucas e João provavelmente aconteceu de forma tardia. Com exceção do texto joanino, relatos parecem ter se baseado fortemente em Marcos.

Reinaldo José Lopes
Do G1, em São Paulo, em 28/07/2008.

Os Evangelhos do Novo Testamento, quatro relatos sobre a vida de Jesus aceitos por todas as igrejas cristãs, tradicionalmente são atribuídos a dois dos Doze Apóstolos (Mateus e João, filho de Zebedeu), a um companheiro do apóstolo Pedro (Marcos) e a um colaborador de São Paulo (Lucas). Para os atuais estudiosos da Bíblia, no entanto, o mais provável é que nenhuma dessas autorias tradicionais esteja totalmente correta. Embora muitos dos fatos contados pelos evangelistas possam realmente remontar à vida de Jesus, inconsistências e contradições deixam claro que nenhum de seus discípulos originais sentou-se pessoalmente para escrever uma biografia de Cristo.

"O que está claro é que os títulos que temos são um fenômeno editorial, que veio mais tarde", resume Luiz Felipe Ribeiro, professor de pós-graduação em história do cristianismo antigo da Universidade de Brasília (UnB), que está concluindo seu doutorado na Universidade de Toronto (Canadá). "Os títulos demoraram para aparecer no corpo do texto. Os primeiros papiros com a fórmula atual para os títulos -- 'Evangelho segundo Marcos' ou 'Evangelho segundo João', por exemplo -- são de meados do século 3 [mais de 150 anos depois da data em que os textos teriam sido escritos]."

De acordo com Ribeiro, os estudos sobre como os livros da época recebiam seus títulos e atribuições de autoria também revelam que essa fórmula (envolvendo uma estrutura gramatical do grego conhecida como acusativo) é curiosamente única dos Evangelhos; nenhum copista anterior teria pensado em falar da "Ilíada segundo Homero", por exemplo. "É muito improvável que essa mesma maneira de designar os textos surgisse de forma independente em quatro deles ao mesmo tempo. Por isso, tudo indica que se trata de uma mudança na maneira como os Evangelhos passaram a circular naquela época", diz ele.

Testemunho antigo -- ou não?
O fato é que, além dos títulos explícitos em papiros, a primeira referência a quatro Evangelhos escritos pelos autores que conhecemos tradicionalmente -- Mateus, Marcos, Lucas e João, nessa ordem -- vem do bispo Ireneu de Lyon, escrevendo por volta do 190. No começo do mesmo século, outro bispo, Papias (cuja obra original não sobreviveu, mas acabou sendo citada por escritores cristãos posteriores), menciona apenas Mateus e Marcos.

A poucas décadas de "distância" dos apóstolos originais, Papias até parece dispor de informações mais confiáveis, mas uma série de coisas em suas afirmações não batem. Primeiro, ele parece se referir a Mateus como uma simples coleção de ditos de Jesus (logia, em grego), escritos originalmente em aramaico, a língua do dia-a-dia na Palestina do século 1. No entanto, Mateus é na verdade uma narrativa, e o texto que temos parece ter sido composto diretamente em grego. Já Marcos seria o secretário ou intérprete de Pedro, o qual teria anotado ("de forma desordenada", diz Papias), as pregações do líder dos apóstolos em Roma.

Além do fato de, na verdade, o Evangelho de Marcos ser uma narrativa altamente estruturada, sem sinal de desordem, ele não parece o tipo de coisa que um ex-colaborador de Pedro escreveria, afirma Ribeiro. "Existe, na verdade, uma hostilidade grande em relação a Pedro no Evangelho de Marcos, e talvez até uma rejeição de todos os Doze, que são retratados como covardes", diz o pesquisador. Todos os Evangelhos mostram Pedro vacilando e até negando Jesus, mas enquanto Mateus atenua isso com a famosa cena em que Jesus promete a seu apóstolo "as chaves do Reino do Céu", Marcos não apenas omite qualquer menção a isso como é bem provável que, originalmente, nem mostrasse Jesus aparecendo aos apóstolos depois de ressuscitar.

É que os mais antigos manuscritos do Evangelho de Marcos terminam de forma meio abrupta, no versículo 8 do capítulo 16. O relato se encerra com Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé -- três seguidoras de Jesus -- indo ao sepulcro de Cristo. Lá, porém, encontram a tumba aberta e um misterioso rapaz de roupas brancas (talvez um anjo) dizendo que Jesus tinha ressuscitado. As mulheres, então, fogem assustadas, "e nada diziam a ninguém, porque temiam". O mais provável é que, mais tarde, foram adicionados os versículos de 9 a 20, que encerram o Evangelho que temos hoje e contêm as aparições do Jesus ressuscitado a seus seguidores.

Marcos, o primeiro
Na verdade, apesar de a ordem dos Evangelhos nas Bíblias atuais começar com Mateus, Marcos é quase certamente o mais antigo de todos os textos, talvez escrito um pouco antes do ano 70, quando o Templo de Jerusalém foi destruído pelos romanos. O consenso entre os estudiosos é que Mateus e Lucas usaram Marcos como a base de seus próprios Evangelhos.

"Ambos se baseiam na estrutura narrativa de Marcos; Mateus e Lucas foram aumentados acrescentando-se a Marcos extratos de uma coletânea de ditos de Jesus que hoje está perdida", escreve Geza Vermes, professor emérito de estudos judaicos da Universidade de Oxford, em seu livro "Quem é quem na época de Jesus" (Editora Record), recém-lançado no Brasil. "Quando Lucas e Mateus concordam entre si a respeito de algo, também concordam com Marcos; quando são diferentes de Marcos, também são diferentes entre si", diz Ribeiro.

Além disso, Marcos é o evangelista que mais coloca expressões aramaicas na boca de Jesus ou das pessoas que entram em contato com ele, como o uso de Éfata ("abre-te") para curar um surdo-mudo e Talitha cum ("menina, levanta-te") para ressuscitar uma menina. "É o único evangelista que permite ao leitor ouvir um eco eventual das palavras de Jesus em sua própria língua", diz Vermes.

Judeus ou pagãos?
Por essas e outras, a identificação do autor de Evangelho de Marcos como pagão de nascimento -- e mesmo de Lucas ou João, autores de narrativas que parecem muito influenciadas pela cultura grega -- não é tão confiável quanto alguns estudiosos costumavam imaginar. "Eu, por exemplo, acho que Marcos poderia muito bem ter uma origem na Galiléia", diz Ribeiro. "De modo geral, essa dicotomia cultural muito forte entre judeus e pagãos de origem grega que a gente costuma imaginar é relativa. O judaísmo estava sob forte influência helenística fazia tempo."

A influência judaica mais clara é a de Mateus, texto talvez escrito entre os anos 80 e 90 e repleto de referências à Lei de Moisés e às profecias do Antigo Testamento sobre a vinda do Messias. "Mas, mesmo no caso de Lucas, há um lado judaico bastante forte. A narrativa dele começa e termina no Templo de Jerusalém, por exemplo. Jesus nunca pisa fora do território de Israel na narrativa de Lucas. Isso não me parece à toa", diz Vilson Scholz, professor de teologia exegética da Universidade Luterana do Brasil (RS) e consultor de traduções da Sociedade Bíblica do Brasil.

Scholz diz acreditar que, embora figuras como os apóstolos João e Mateus não tenham escrito pessoalmente os Evangelhos, é possível que as narrativas sejam obra de pessoas de "escolas" ligadas a eles, que teriam transmitido a tradição oral relacionada aos primeiros discípulos em forma escrita. Para Scholz, o Evangelho de Lucas, escrito pelo mesmo autor dos Atos dos Apóstolos (em ambos os casos a obra é dedicada a um patrono conhecido como Teófilo, e há remissões entre um livro e outro), é o que tem associação mais plausível com o autor tradicional.

Explica-se: Lucas teria sido um médico de origem grega e, de fato, sua linguagem é uma das mais polidas e de estilo cuidadoso entre os Evangelhos, diz Scholz. Os Atos dos Apóstolos também usam o pronome "nós" em certas passagens, dando a entender que o narrador estava viajando junto com Paulo. "Eu já acho que Lucas é tão problemático [como autor verdadeiro do Evangelho] quanto os demais", afirma Ribeiro. Ele lembra que há diferenças consideráveis entre o relacionamento de Paulo com os demais membros da Igreja como é retratado em Atos e a maneira como Paulo fala de Pedro e dos demais apóstolos em suas cartas -- nesse caso, Paulo é bem mais agressivo e menos condescendente em suas críticas aos seguidores originais de Jesus.

Testemunhas oculares
Um detalhe que solapa, ao menos à primeira vista, a idéia de que alguns dos autores do Evangelho presenciaram as pregações de Jesus é a falta de uma identificação de quem escreve no próprio texto, ou mesmo de afirmações diretas de que o escritor viu tais e tais fatos acontecerem. "Isso pode ser apenas um detalhe de gênero literário -- uma tentativa de demonstrar objetividade, por exemplo", pondera Scholz.

A única exceção é o Evangelho de João -- justamente o "estranho no ninho" entre os quatro textos aceitos no Novo Testamento, por não seguir a mesma linha básica de narrativa dos outros três e apresentar uma visão teológica muito desenvolvida e elevada de Jesus, considerado o Verbo de Deus encarnado. Com base nisso, ele seria o texto mais tardio, escrito por volta do ano 100. "Muita gente vê influência da filosofia grega sobre João, mas a divisão clara do mundo entre luz e trevas, que a gente vê nele, já aparece nos Manuscritos do Mar Morto, a poucos quilômetros de Jerusalém", diz Scholz. Em um ou dois trechos, o Evangelho de João diz que "a testemunha viu" os fatos narrados acontecerem.

"Eu acho possível que esse Evangelho remonte a uma testemunha ocular, mas o que ela viu foi retrabalhado pela comunidade à qual ela pertencia", avalia Ribeiro. Seria o misterioso "discípulo amado" de Jesus -- mas esse discípulo certamente não é João, o qual é mencionado separadamente no mesmo Evangelho. "Também vemos uma tensão política entre a comunidade desse discípulo amado e o grupo que seguia Pedro, por exemplo", diz o pesquisador, lembrando que, numa das narrativas sobre o sepulcro vazio de Jesus, Pedro e o tal discípulo correm até a tumba, mas o discípulo amado é o primeiro a chegar. Pedro entra no sepulcro e vê os lençóis que cobriam o corpo de Jesus; o discípulo amado entra depois, "e viu, e creu", diz o Evangelho. Seria uma forma de mostrar a precedência dele sobre Pedro.

No fundo, o que se sabe de seguro sobre os escritores dessas quatro obras-primas da cristandade primitiva está mesmo embutido no próprio texto -- e, como tal, sujeito a interpretações. É muito difícil, por enquanto, colocar uma "cara" nos evangelistas. "Enquanto não houver outras descobertas arqueológicas de peso, ficamos nesse impasse", diz Scholz.


domingo, 27 de julho de 2008

Não creia em ateus nem crentes

Não creia em ateus nem crentes

Enfim, surge um ataque cerebral à voga de livros anti-religião

Marcelo Leite - FSP, Ciência, em 27/07/2008 - Comecei a ler com entusiasmo "I Don't Believe in Atheists" (não acredito em ateus), do jornalista Chris Hedges (Free Press, 212 págs., US$ 25,00). Até que enfim alguém se lançava num ataque cerebral à voga de best sellers anti-religião como "Deus, Um Delírio", de Richard Dawkins. Na metade do livro, já dosava a animação.


Não que a obra de Hedges não deva ser lida -ao contrário. Dificilmente será traduzida e publicada no Brasil, porém. Mesmo sendo Hedges um crente, ele não faz uma defesa das religiões. Portanto, não se encaixa na dicotomia "ciência x religião" que enquadra esse pseudodebate e sustenta a rentável estridência editorial.


O melhor de Hedges, que tem duas décadas como correspondente estrangeiro do diário "The New York Times", é sua indignação intelectual com Dawkins e companheiros mais radicais, como Christopher Hitchens e Sam Harris. O jornalista os acusa de simplificações grosseiras e de disfarçar como ataque à religião o que não passa de uma condenação rasteira a um credo particular, o islamismo.


Hedges conta que, num debate público com Harris, defendia a idéia de que a mola propulsora do fundamentalismo não era o Corão, mas o desespero pessoal e o desamparo econômico. Fatores históricos, portanto.


Harris fez troça. Disse que uma única pesquisa de opinião entre muçulmanos mostrando seu apoio a homens-bomba vale mais que anos de experiência direta da realidade nesses países vividos por jornalistas do "Times". O mediador, Robert Scheer, quase subiu na mesa.


Até um ateu pode identificar-se com as prédicas de Hedges por tolerância e pluralismo. Sua premissa é impecável: não existe um ponto de vista privilegiado do qual fala a voz da razão, árbitro do certo e do errado.


"Progresso científico e moral (...) não são a mesma coisa", escreve. "Qualquer forma de conhecimento que pretenda ser absoluta deixa de ser conhecimento."


"Um ateu que aceite uma natureza humana irredimível e falha, assim como um universo moralmente neutro, que não pense que o mundo possa ser aperfeiçoado por seres humanos, que não se escore em arrogância cultural e sentimentos de superioridade, que rejeite os projetos imperiais violentos para o Oriente Médio, é intelectualmente honesto."


Com coragem, Hedges mostra que aquela mentalidade contém o germe da loucura da razão. Uma longa linhagem de monstros, do Terror a Treblinka, do Gulag a Guantánamo. Não é fácil acompanhar Hedges, contudo, quando cita um antigo professor na Escola de Teologia de Harvard, James Luther Adams, para falar da "luxúria do conhecimento" como um dos tiranos da alma humana.


É bom e saudável denunciar como uma velha fantasia -sistematicamente negada pela realidade da história- a crença no progresso moral da espécie por meio da razão e da ciência. Mas também não dá para indiciá-las no crime de lesa-humanidade.


Dawkins não pode ser metido com facilidade no mesmo saco de Harris e Hitchens, verdadeiros ideólogos neoconservadores. Na generalização do ataque, Hedges termina sendo injusto com Dawkins -que aliás vai desaparecendo ao longo do livro.


Pode-se e deve-se renunciar à miragem iluminista do conhecimento total do mundo, mas isso não é um impedimento para mantê-lo como idéia reguladora no sentido kantiano: um objetivo a perseguir, ainda que por definição inatingível. É esse passo que a fé de Hedges numa natureza humana pecaminosa o impede de dar.

MARCELO LEITE é autor de "Promessas do Genoma" (Editora Unesp, 2007) e de "Brasil, Paisagens Naturais - Espaço, Sociedade e Biodiversidade nos Grandes Biomas Brasileiros" (Editora Ática, 2007).
Blog: Ciência em Dia (cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br).
E-mail: cienciaemdia.folha@uol.com.br

sábado, 26 de julho de 2008

Silêncio de Deus, silêncio dos homens: Babel e a sobrevivência do sagrado na literatura moderna

Silêncio de Deus, silêncio dos homens: Babel e a sobrevivência do sagrado na literatura moderna
Erick Felinto
Editora: Sulina
Resumo: Neste livro de Erick Felinto alia erudição e simplicidade. O leitor encontra, ao mesmo tempo, um inventário das encarnações do sagrado na literatura moderna e uma reflexão sobre a questão da língua. Nomear é tudo. O poder máximo do demiurgo é o de dar nome. Cabe ao autor mostrar as imbricações de todos esses elementos. Cabe ao leitor simplesmente seguir o fio das idéias. Não é difícil alguém se deixar dominar pelo texto de Felinto, uma trama feita de sedução, maleabilidade, argumentação impecável e um senso do sagrado que, sem abdicar do primado da razão, eleva ao ponto máximo o mistério do pensamento.
Silêncio de Deus, silêncio dos homens é uma reflexão ambiciosa sobre modernidade cultural. Compõe um autêntico panorama histórico-filosófico, olhando a modernidade pelo avesso, definindo-a pelo viés do místico, do esotérico, do sagrado. Erick Felinto chegou à crítica da cultura pelo clássico caminho da crítica literária, a partir da combinação entre uma formação pós-graduada híbrida de Comunicação e Letras e uma espécie de auto-didatismo voraz que o fez incursionar pela Torah e pela Cabala, lembrando os marcos reflexivos de um Walter Benjamin. A resultante de tal combinatória se dá na clave do brilhantismo. O leitor e a leitora não se decepcionarão, se o que buscam é inteligência, aliada à erudição.

Imagens de culto e imagens de mídia: interferências midiáticas no cenário religioso

Imagens de culto e imagens de mídia: interferências midiáticas no cenário religioso
Alberto Klein
Editora:
Sulina
Resumo: Resgatando a relação fundamental entre imagens de culto e imagens da mídia, Alberto Klein apresenta uma reflexão mais do que necessária aos estudos da mídia que, frequentemente, confundem a imagem com seu suporte.
Essa é uma confusão que vemos desfeita no texto na medida em que ele nos faz entrever não apenas a relação das imagens visuais religiosas, de culto, com as imagens visuais midiáticas, como também, e ai está um diferencial que destaca essa reflexão, com as imagens verbais.
Ao apresentar uma reflexão sobre a textolatria, demonstra que o iconoclasmo na verdade nunca se realizou em algumas religiões, como pretendido, e que as imagens migram de suporte, confirmando a máxima de H. Pross de que "os símbolos vivem mais que os homens". A isso poderíamos acrescentar que imagens não apenas vivem mais, como criam estratégias culturais de sobrevivência, perpetuando-se sob as mais diversas e insuspeitas formas.

Blogs: Estudos Judaicos - Estudos Bíblicos - Língua Hebraica - História das Religiões e Religiosidades

Estudos Bíblicos
Espaço dedicado aos temas relacionados aos Estudos Bíblicos.
http://www.panoramabiblico.blogspot.com/

Estudos Judaicos
Espaço dedicado aos temas relacionados aos Estudos Judaicos.
http://www.estudosjudaicos.blogspot.com/

História das Religiões e Religiosidades
Estudo comparado e abordagem interdisciplinar da história das religiões, crenças, manifestações e idéias religiosas.
http://www.religioesereligiosidades.blogspot.com/

Língua Hebraica
Espaço dedicado aos estudos relacionados ao idioma hebraico.
http://www.linguahebraica.blogspot.com/


sexta-feira, 25 de julho de 2008

Juventude brasileira é religiosa

Jornal do Brasil, Vida, Saúde & Ciência, página 24, em 25/07/2008.

Juventude brasileira é religiosa
Pesquisa revela que apenas 4% se consideram ateus

Joana Duarte

O Brasil ficou em terceiro lugar em estudo sobre os países com os jovens mais religiosos do mundo, segundo o instituto alemão Ber­telsmann Stiftung, que percorreu 21 países e entrevistou 21 mil jovens entre 18 e 29 anos para produzir o mais extenso e detalhado levan­tamento comparativo sobre a im­portância da religião nas principais culturas globais.

- Os brasileiros em geral têm uma visão encantada da religião herdada dos negros e índios - res­saltou o teólogo Leonardo Boff. - Temos uma cultura mística e fluida mais do que religiosa por si. Isso confere um certo encantamento com o mundo. No Brasil, tudo acaba em Deus.

A Indonésia e o Marrocos, países de maioria muçulmana, empataram com o Brasil, que só perdeu para a Nigéria, em primeiro lugar, e a Guatemala, em segundo.

De acordo com a pesquisa, 65° o dos jovens brasileiros são "profun­damente religiosos", embora só um terço dos entrevistados vivam de acordo com preceitos dogmáticos ou achem necessário seguir man­damentos de alguma religião.

- Não somos um povo fun­damentalista, dogmático e que faz guerra religiosa- afirma Boff.

Tradição
O teólogo explica que os bra­sileiros herdaram dois tipos de cris­tianismo: o catolicismo devocionista, moderno e muito focado nas festas aos santos e na adoração direcionada às manifestações de Deus, e um catolicismo "romanizado", centra­lizado no papa e repleto de doutrinas e ritos. Segundo Boff, no Brasil, os dois coexistem em harmonia.

Entre os jovens entrevistados no Brasil, apenas 4% afirmam não ter religião, enquanto na escala global, 13% não acreditam em Deus, de acordo com a pesquisa. Boff acredita que a fé está em alta, mas que a tendência é esse nú­mero permanecer baixo.

- Acredito que a descrença deve ser respeitada, pois a fé é uma opção - afirmou o teólogo. - Até porque muitas vezes o ateísmo das pessoas é um ateísmo ético. Não é que vale tudo, pode tudo.

Entre os 21 países pesquisados, o estudo indica que quatro entre cinco jovens são religiosos, en­quanto quase a metade são pro­fundamente religiosos.

Israel é o único onde os jovens são mais religiosos do que os adul­tos, de acordo com a pesquisa.

- Israel é um Estado novo, feito por judeus que não viviam a religião porque tiveram de escondê-la - sugere Boff. - Entretanto, para os jovens, a religião se mistura com a identidade nacional e o Velho Tes­tamento é livro fundador.


quinta-feira, 24 de julho de 2008

Diálogo judeu-católico e judeu-cristão

Diálogo judeu-católico e judeu-cristão
Guershon Kwasniewski (P
rofessor, líder religioso da Sociedade Israelita Brasileira de Cultura e Beneficência - SIBRA).
Resumo:
Nestas teses, o autor concentra-se mais no relacionamento entre o judaísmo e a Igreja Católica Romana. Constata inicialmente que, apesar da existência de elementos comuns nas duas religiões, o diálogo sempre foi muito difícil, por várias razões, ao longo da história. No presente existem iniciativas por parte da Igreja que apontam para uma melhora no relacionamento entre judeus e cristãos. O autor ressalta especialmente os “Dez pontos de Seelisberg”, de 1947, que contêm orientações que continuam sendo valiosas. Depois de fazer uma breve retrospectiva histórica das relações entre judaísmo e cristianismo, conclui descrevendo o diálogo inter-religioso de que participam representantes do judaísmo no Brasil.

Notícias Diálogo Católico Judaico:

Diálogo da Igreja Católica com o Judaísmo


Leia mais:

  • Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Guia para o diálogo inter-religioso. Coleção Estudos da CNBB 52. São Paulo: Paulinas, 1987.
  • Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico-Judaico. Guia para o Diálogo Católico-Judaico no Brasil. Coleção Estudos da CNBB 46. São Paulo: Paulinas, 1986.
  • Conselho de Fraternidade Cristã Judaica. Guia Bibliográfico do Diálogo Cristão Judaico. São Paulo, 1984.
  • Porto, Humberto. Os Protocolos do Concílio Vaticano II sobre os judeus. São Paulo: Perspectiva, 1984.

Mensagem de João Paulo II

Uma oração de João XXIII pelos judeus

quarta-feira, 23 de julho de 2008

No espírito do Abbá

No espírito do Abbá: Fé, revelação e vivências plurais
Afonso Maria Ligório Soares
Editora:
Paulinas
Sinopse:
O autor, estudioso do sincretismo, publica aqui uma série de estudos que se apresentam como o prolongamento dos princípios epistemológicos discutidos em sua obra anterior, Interfaces da Revelação. Suas análises buscam situar o estudo do sincretismo no conjunto da teologia em geral e, em particular, da teologia que veio à tona na busca de compreensão do pluralismo religioso atual. O sincretismo aparece assim como a condição histórica de toda religião sem que sua diversidade indefinida afete o reconhecimento de Deus e, por conseguinte, o conceito teológico de revelação, contribuindo inclusive, quem sabe, para um alargamento do mesmo muito além das fronteiras do cristianismo.

La gran crisis de las religiones y el auge de los integrismos

Ciberteologia: Revista de Teologia & Cultura
Edição nº 18 - Ano III - Julho/Agosto 2008 - ISSN: 1809-2888
La gran crisis de las religiones y el auge de los integrismos
Marià Corbí

Primera aclaración: Aunque he estudiado teología, no hablo desde la teología, sino desde la epistemología, contando con la antropología, la lingüística, la sociología y la prospectiva. Es importante hacer constar esto para que se comprenda mejor lo que quiero decir. Segunda aclaración con respecto a nuestra postura: No hacemos previsiones respecto a la marcha de nuestras sociedades; sólo intentamos saber con qué contamos para postular una vida más humana, sostenible y equitativa, y así poderla construir.

"A inquisição não representa a realidade atual", diz secretário da Congregação para a Doutrina da Fé

O jesuíta Luis Francisco Ladaria Ferrer é o número 2 da Congregação para a Doutrina da Fé, no Vaticano

Juan G. Bedoya, El País, em 23/07/2008.

O jesuíta Luis Francisco Ladaria Ferrer será dentro de alguns dias o espanhol mais graduado na Cúria - o governo - do Vaticano, depois da aposentadoria dos cardeais Martínez Somalo e Julián Herranz. Não aparenta. Ele mesmo atende ao telefone em seu escritório na Universidade Gregoriana de Roma e ri com jovialidade, sobretudo quando encontra a maneira de escapar das perguntas complicadas. Não quer entrevistas - já tem uns 400 pedidos antes de tomar posse -, mas responde com generosidade.

De cara, protesta: "Olhe, combinamos que não haveria entrevista", ele mesmo se interrompe. Ri, ri sempre, como se fosse a melhor maneira de aliviar seu novo cargo, o número 2 da Congregação para a Doutrina da Fé. O que acha das palavras "Inquisição", "Santo Ofício" ou mesmo "herege"? Ele responde sério, entre risos: "Você me fala de situações e elementos do passado. Nosso trabalho consiste em promover a justa fé da Igreja. O Santo Ofício ou a Inquisição não representam a realidade atual. Quando me perguntam sobre o dogma, respondo que a misericórdia de Deus, como lembra Dante, tem os braços muito grandes. Esta é a chave: bondade e misericórdia".

Luis Ladaria, nascido em Mallorca em 1944, é a imagem oposta do inquisidor Torquemada, seco e duro como os campos de Castela em agosto, o famoso martelo de hereges com os Reis Católicos.

"Ladaria não vai dizer uma palavra a mais nem vai prejudicar ninguém. É impensável. Ele tem todas as qualidades e conhecimentos para o cargo que lhe deu o papa, mas não vejo como imaginá-lo um inquisidor. É prudente, aberto, inteligente, sério e muito pouco amante das dignidades eclesiásticas. Estou certo de que resistiu muito antes de aceitar o novo cargo", diz Javier Monserrat, companheiro de estudos do novo alto dignitário vaticano.

"É quem o conhece melhor, estudaram juntos também no estrangeiro", afirma Bernardino Seguí, conselheiro da Associação de Ex-alunos de Montesión, o colégio em Palma onde Ladaria estudou.

"Vão fazê-lo cardeal", diziam há algum tempo os amigos de Ladaria. Ele ouvia isso de vez em quando há meses. "Não me passa pela cabeça nem a possibilidade", pensava. E ainda o afirma. Mas vai chegar. No próximo dia 26 será consagrado arcebispo na imponente basílica de São Pedro. É a etapa anterior ao capelo cardinalício.

Javier Monserrat, também jesuíta e professor de psicologia básica na Universidade Autônoma de Madri, não perderá a cerimônia. Eles se conhecem desde meninos, quando Ladaria chegou de Manacor para estudar no colégio Montesión. "Era um aluno muito destacado, o que poderíamos chamar de primeiro da classe. De 25 disciplinas tirava notas de honra em 23."

A Companhia de Jesus, sempre à caça das melhores inteligências para o exército de Deus, logo notou as possibilidades do aluno Ladaria. Tiveram de esperar alguns anos. Ladaria quis se tornar jesuíta desde o colégio, mas seu pai, um médico muito conhecido em Manacor, o convenceu a estudar antes uma carreira civil. Então ele foi para Madri e se formou advogado. Depois ingressou no noviciado dos jesuítas em Aranjuez, mais os estudos de filosofia e teologia na Pontifícia de Comillas.

O passo seguinte foi a ampliação de estudos no estrangeiro, primeiro na Alemanha e finalmente na imponente Pontifícia Gregoriana de Roma. "Estivemos juntos os quatro anos em Frankfurt, estudando teologia. Luis se preparou a fundo em línguas clássicas (grego, latim, hebraico) e se especializou nos estudos históricos e dos santos padres", lembra Javier Monserrat.

Ladaria quase não mudou fisicamente, segundo seus amigos. Alto, muito magro, quase frágil, de pouco comer. E muito trabalhador, sempre estudando. "Lembro dele muito jovem e como um professor que preparava muito bem as classes", diz a arqueóloga Margarita Pintos de Cea-Naharro, que foi sua aluna na Pontifícia de Comillas, em 1971. Hoje preside a Associação para o Diálogo Inter-religioso da Comunidade de Madri. "Lembro dele como muito do Concílio Vaticano II, muito aberto, com uma antropologia teológica muito atual, na qual o homem é o centro", acrescenta Pintos.

Sobre a competência teológica de Ladaria, registrada em cerca de 20 livros, há uma unanimidade assombrosa. Apesar de tudo, alguns teólogos espanhóis, incentivados por bispos mais papistas que o papa, pensaram há anos que Ladaria roçava a heresia em algumas questões doutrinárias fundamentais. "Acreditamos que a explicação do professor Ladaria não consegue estar conforme, por mais que tente, com a doutrina da Igreja", escreveu em 1995 o teólogo José María Iraburu a propósito do livro de Ladaria "Teologia do Pecado Original e da Graça".

Segundo os caçadores de hereges na Espanha, o pecado original é "transmitido a todos por propagação, e não por imitação". "Essa é a doutrina considerada de fé. Pelo contrário, o professor Ladaria, jesuíta, estima que não devemos afirmar que a geração seja formalmente a causa da transmissão do pecado original. A transmissão desse pecado de origem ele a entende não em clave ontológica, mas histórica."

Essas críticas foram citadas nos últimos dias em diversos fóruns. Ladaria não se dá por vencido. Tampouco se considera vigiado. "Ninguém nunca me olhou com o olho esquerdo, como você diz." Ele ri com vontade. "Foi um episódio que passou. Ninguém me disse nada, nem aqui nem na Espanha, do ponto de vista oficial. Houve um pouco de rebuliço, mas nunca me senti visado."

As teses de Ladaria sobre o pecado original corrigiam efetivamente a teoria clássica do grande santo Agostinho, muito dado ao sensacionalismo. Mas finalmente se impuseram em Roma, como na recente correção da idéia do limbo como o lugar onde iam parar os que morriam sem usar a razão e sem ter sido batizados; isto é, um lugar sem tormento nem glória, mas para toda a eternidade. Os amigos de Ladaria crêem que sua competência teológica também nesta matéria é a razão pela qual o papa Ratzinger o quer ao seu lado como policial da doutrina.

"O fato de o senhor ter sido indicado como herege, mesmo por teólogos isolados, demonstra que o papel de vigilante da reta doutrina exige muito tato. Não o assusta seu novo cargo?" "Claro, tenho um certo temor, todos os cargos são uma grande responsabilidade. Sinto-me angustiado. É um cargo que mudará minha vida. Mas confiemos em Deus", diz.

Entre os teólogos contemporâneos admirados por Luis Ladaria - ele cita Yves Congar, Henri de Lubac, Karl Rahner e Hans Urs von Balthasar, nada menos -, alguns foram especialmente incomodados pelo Santo Ofício. "Sempre há suas coisas. Mas não foram graves", responde. Em suas memórias, Congar lamenta-se amargamente. "Sim, sim. Em suas cartas há um poço de amargura, mas aí ficam suas grandes obras", reitera.

A confiança de Norberto Alcover, também jesuíta e maiorquino, na competência e moderação de Ladaria é absoluta. "Passarão por suas mãos as grandes questões teológicas em um momento em que tais questões ardem, porque a teologia católica está imersa em uma relação cada vez mais intensa com a pluralidade cultural e religiosa de nossa sociedade mundial. Sim, o cargo dele tem uma carga tremenda. Ele honrará a todos nós maiorquinos. Não tenho a menor dúvida de que alcançará a púrpura cardinalícia depois de ter servido à Santa Igreja em espírito e verdade", diz Alcover.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

domingo, 20 de julho de 2008

Liturgia Judaica - Oração Judaica - Shemá Israel

Anne-Catherine Avril

Nostra Aetate

Pierre Lenhardt

Veja mais:

Leituras:

  • ARANDA PÉREZ, Gonzalo et alii. Literatura judaica intertestamentária. Trad. Mário Gonçalves. São Paulo: Ave-Maria, 2000.
  • KETTERER, Eliane; REMAUD, Michel. O midraxe. Trad. Maria C.de M.Duprat. São Paulo: Paulus, 1996.
  • LENHARDT, Pierre; COLLIN, Matthieu. Evangelho e tradição de Israel. Trad. M.Cecília de M.Duprat. São Paulo: Paulus, 1994.
  • ______. A Torah Oral dos Fariseus. Trad. Nadyr de S.Penteado. São Paulo: Paulus, 1997.
  • LIMENTANI, Giacoma. O Midraxe. Como os mestres judeus liam e viviam a Bíblia. Trad. Bertilo Brod. São Paulo: Paulus, 1998.
  • PONTIFÍCIA Comissão Bíblica. O Povo Judeu e as suas Sagradas Escrituras na Bíblia Cristã. São Paulo: Paulinas, 2001.
  • TREBOLLE BARRERA, Julio. A Bíblia judaica e a Bíblia cristã: introdução à história da Bíblia. Trad. Ramiro Mincato. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.

Budismo perde seu lugar no Japão

Budismo perde seu lugar no Japão
Jornal do Brasil, em 20/07/2008.

Por se concentrar nos ritos fúnebres, religião não atrai nova geração de seguidores

Norimitsu Onishi
THE NEW YORK TIMES

A relação dos japoneses com a religião foi por muito tempo pacífica e despreocupada, fazendo soar o ano velho nos templos budistas e dando as boas vindas ao ano novo, algumas horas depois, nos santuários xintoístas ou – tão fácil quanto – nos cristãos. Mas quando se tratava de funerais, os japoneses eram inflexivelmente budistas, a ponto de chamarem o budismo no Japão de "budismo funeral", uma referência aos lucrativos e quase completamente monopolizados serviços memorialistas e de cerimonial em torno dos mortos. Mas essa expressão também descreve uma religião que por aparentemente prover mais as necessidades dos mortos do que as dos vivos está perdendo seu lugar na sociedade japonesa.

– É a imagem do budismo funeral: a de que não chega às necessidades espirituais das pessoas – destaca Ryoko Mori, sacerdote-chefe do Tempo Zuikoji, prédio de mais 700 anos, no norte do Japão. – No islã ou no cristianismo, há sermões sobre questões espirituais. Mas no Japão, poucos sacerdotes budistas o fazem.

Mori, de 48 anos, é o 21º sacerdote-chefe do templo, mas não tem certeza se haverá um 22º.

– Se o budismo japonês não fizer nada agora, vai morrer – diz. – Não podemos pagar para ver na espera.

Por todo o Japão, o budismo encara uma confluência de problemas, alguns típicos de religiões em nações ricas, outros únicos à fé daqui.

A falta de sucessores a cargos como o Ryoko Mori põe em risco templos administrados por famílias em todo o país.

Enquanto o interesse no budismo está em declínio nas áreas urbanas, suas fortalezas religiosas rurais perdem população, com a morte de antigos adeptos e uma taxa de natalidade baixa.

Talvez mais significativo do que isso, o budismo está perdendo sua posição de indústria do funeral, quanto mais e mais japoneses optam por não ter funeral ou seguem para casas especializadas não-religiosas.

Na próxima geração, muitos templos no interior devem fechar, acabando com séculos de história local e somando-se ao êxodo rural.

Em Oga, na península de frente para o Mar do Japão, na prefeitura de Anika, sacerdotes budistas olham para a fria matemática do declínio da população e da pesca.

– Não é um exagero dizer que a população hoje é metade do que foi no seu auge, e que também todos os negócios foram reduzidos à metade – analisa Giju Sakamoto, 74, o 91º sacerdote-chefe do templo mais antigo de Akita, Chorakuji, fundado próximo ao ano 860. – Dada essa realidade, simplesmente insistir em que somos uma religião e que temos uma longa história, e de fato a de Akita é a mais longa, parece um conto de fadas. É sem sentido.

E Sakamoto chega a dizer:

– É por isso que eu acho que esse lugar não tem esperança.

Para sobreviver, Sakamoto põe sua energia na administração de uma casa de cuidados para a terceira idade e um novo templo no subúrbio de Akita. Mas esse templo tem apenas 60 membros desde que abriu há três anos – bem menos dos 300 que precisaria para se manter financeiramente viável.

Por séculos, a média dos templos budistas, cujo controle econômico interno passava de pai para primogênito, serviu como garantia de participação e como forma de proselitismo. E com 300 membros para prover, o sacerdote-chefe e sua mulher ficam muito ocupados.

Não apenas o número de templos no Japão está afundando – de 85.994 em 2006 para 86.585 em 2000, de acordo com a Agência Japonesas de Assuntos Culturais – como também o número de adesões a templos caiu.

– Temos de encontrar outros trabalhos porque apenas o templo não é suficiente – diz a sacerdote-chefe Kyo Kon, 73, do templo com 170 membros Kogakuin. Ela trabalha num centro de cuidados enquanto seu marido está empregado numa escritório de planejamento de manejo do solo.

Não longe dali, em Doshoji, onde hoje há apenas 85 membros anciãos, o sacerdote-chefe, Jokan Takahashi, 59, encara um problema comum a todos os pequenos negócios familiares do Japão: encontrar um sucessor.

Seu filho mais velho passou pelo treinamento para se tornar sacerdote budista, mas Takahashi estava na dúvida quanto a pedir que tome conta do templo.

– Meu filho cresceu conhecendo só o mundo do templo, e me disse que não se sente livre – diz, explicando o filho, hoje com 28 anos, trabalha numa empresa de uma cidade vizinha. – Ele me pediu que o deixasse livre enquanto eu continuasse trabalhando. Prometeu que voltaria quando tivesse 35.

E, depois de mostrar aos visitantes o quarto mais importante do templo, uma câmara em madeira com pequenas cabines semelhantes a escaninhos onde, diz-se, guarda-se os espíritos dos ancestrais dos membros, completa:

– Mas considerando o futuro, pressionar uma um jovem a assumir um templo como esse pode ser cruel.

Preferência por funerárias esvazia os templos
Jornal do Brasil, em 20/07/2008.

Há pouco tempo, numa manhã, Mori, o padre budista do templo de 700 anos, começou o dia com a visita de um adepto agricultor de arroz, a visita marcava o 33º aniversário de morte do avô. Fazendo reverências em frente ao altar, Mori orou e cantou sutras. Mais tarde, repetiu o ritual com outro membro, que comemorava o sétimo aniversário de morte do avô.

Mas cada vez mais, muitos japoneses, sobretudo os que vivem em áreas urbanas, evitam essas tradições. Muitos já não pertencem a templos há muito tempo e usam funerárias quando seus parentes morrem. As próprias funerárias levam sacerdotes budistas às cerimônias.

Segundo um relatório de 2007, divulgado pela Associação de Consumidores do Japão, o preço médio dos serviços para sepultamento, sem contar o cemitério, eram de US$ 21.500, destes, US$ 5.100 para os serviços do sacerdote budista.

Em meados de 1980, quase todos os japoneses faziam velórios em casa ou em templos com o sacerdote budista tendo papel predominante. Mas a mudança para as funerárias acelerou-se na década passada. Em 1999, 62% dos japoneses ainda faziam funerais em templos ou em casa, enquanto 30% escolhiam funerárias, segundo a associação. Mas em 2007, as preferências se reverteram, com 28% dos serviços de sepultamento prestados em casas e templos e 61% optando por casas especializadas em serviços funerais.

Mais: há um número crescente de cremações sem qualquer funeral, diz Noriyuki Ueda, antropólogo do Instituto de Tecnologia de Tóquio e especialista em budismo.

– Por isso, os sacerdotes e templos budistas não se envolvem mais nestes serviços – explica Ueda.

Grande parte do lado espiritual do budismo foi minado por suas ligações com militares na Segunda Guerra Mundial. Depois que os sacerdotes passaram a glorificar soldados caídos na guerra e dar-lhes nomes póstumo budistas especiais, falar sobre pacifismo soava superficial.

O sacerdote Mori diz que a guerra fez aumentar o desejo por funerais excessivos com nomes budistas de prestígio. Esses nomes – cujas maiores posições tradicionalmente eram dadas àqueles que tinha levado vidas honoráveis – são hoje rotineiramente comprados, independentemente de como a pessoa conduziu sua vida.

– Soldados que deram suas vidas pelo país ganharam nomes póstumo budistas especiais. Depois disso, todo mundo queria um e os preços aumentaram dramaticamente – explica Mori. – Todo mundo estava ficando rico, então todos queriam. Isso nos deixou com uma imagem ruim.

Empresa oferece sacerdotes freelancer por preços baixos
Jornal do Brasil, em 20/07/2008.

De fato, a imagem de troca de nomes especiais budistas por dinheiro foi reforçada pelo modo como os serviços funerais e memoriais eram conduzidos. Não se divulgava preços, que eram deixados à discrição da família, mas os parentes sentiam uma pressão tácita por serem generosos. Dinheiro era passado por meio de envelopes e não se dava recibos. Templos, dentro de seu status de organizações religiosas, não pagavam impostos.

Site
Foi em parte para afastar essa imagem que Kazuma Hayashi, 41, sacerdote budista mas que não pertence a nenhum templo específico, fundou três anos atrás num subúrbio de Tóquio a empresa Obohsan.com (obohsan significa sacerdote). A firma envia padres budistas freelance para funerais e outros serviços, sem passar por funerárias e outros intermediários.

Os preços, que são pelo menos um terço da média, estão claramente listados no website da empresa. Para membros cadastrados, há um desconto de 10%.

– Nós damos até recibo – diz Hayashi, que argumenta que em vez de apartar o budismo japonês de suas raízes espirituais, seu negócio atrai mais pessoas pelos preços baixos.

Os nomes póstumos de maior hierarquia saem por US$ 1.500.

– Sei que, originalmente, não é disso que se trata o budismo – Hayashi comenta sobre o nome de preço mais alto. – Mas é uma marca que nossos clientes escolhem. Alguns realmente o querem, o que significa que há um forte desejo quanto a isso, e temos de corresponder.