Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.
Resumo: O texto ancora-se, em particular, em uma pesquisa que está sendo desenvolvida há mais de dez anos sobre novas religiosidades, na UnB/CNPq. Este é um dos fenômenos mais instigantes do campo religioso brasileiro, ainda que quantitativamente insignificante, sobretudo se comparado com o crescimento do neopentecostalismo. Embora as estratégias, as composições, em torno do que seja “estilo de vida” sejam distintas, ensaia-se uma reflexão comparativa entre ambos, ancorada na relação inclusão/exclusão da modernidade, em um mundo cada vez mais globalizado. Nesse sentido, o eixo analítico enfatizado é a exigência crescente de um “eu reflexivo”, tal como sugerido por Giddens.
Palavras-chave: religião, novas religiosidades, neo-pentecostalismo.
Resumo: O presente esforço intelectual se empenha em direcionar um olhar dedicado à história da líder religiosa da comunidade do Vale do Amanhecer: a médium que ficou nacionalmente conhecida como Tia Neiva. Migrante nordestina, Neiva Chaves Zelaya, após se estabelecer provisoriamente em muitas cidades em busca de estabilidade, em 1957, radica-se na Cidade Livre, Núcleo Bandeirante, e se envolve diretamente com os esforços que resultariam na edificação da nova capital federal. Informada pelas imagens de predestinação que qualificavam Brasília como uma Terra Prometida e dotada de vigorosa religiosidade, nesse período, dá início a sua vida mística, a sua trajetória hierofânica, na esteira da qual estabelece a Doutrina do Amanhecer. Diante desse objeto de estudo, nossa proposta se associa ao esforço de compreender como a imagem de Tia Neiva, por meio das representações a que deu vida e das que se viram consignadas por atores outros e permanecem a se constituir em torno de suas apresentações temporal e espiritual, autorizam a concepção, a solidificação e garantem a preservação de sua comunidade religiosa. Considerado, ainda, o centralismo carismático que fez perseverar a sua liderança, reconhecemos que a inspiração e a materialização dos saberes e dos fazeres religiosos que têm lugar na doutrina do Amanhecer passavam no mais das vezes pela enunciação de Tia Neiva ou então decorriam de sua legitimação. Isso porque atuava a Clarividente (como a nomeiam os entusiastas de suas revelações) na condição de canal de comunicação privilegiado com a dimensão transcendente, uma vez que se fazia reconhecer entre os da comunidade como detentora de poderes sobre-humanos. Temos, portanto, que a sistematização dos ritos, a narração dos mitos e a distribuição das competências de interação com a esfera espiritual, operações que no campo religioso, afiançamos, têm relevância ímpar, germinaram de sua palavra sagrada.