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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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segunda-feira, 30 de junho de 2008

Opinião - O espírito chega antes do missionário

Leonardo Boof, Teólogo
Jornal do Brasil, Opinião, página 9, em 30/06/2008.

Um dos efeitos do processo de mundialização – que vai muito além de sua expressão econômico-financeira – é o encontro com todo tipo de tradições espirituais e religiosas. Instaurou-se um verdadeiro mercado de bens simbólicos no qual os vários caminhos, doutrinas, cerimoniais, ritos e esoterismos são oferecidos para atender à demanda de um número crescente de pessoas, geralmente, fatigadas pelo excesso de materialimso, racionalismo, consumismo e superficialismo de nossa cultura convencional.

Por detrás deste fenômeno há uma busca humana a ser entendida e também a ser atendida. O espiritual e o místico, à revelia das predições dos mestres da suspeita como Marx, Freud e Nietzsche, estão voltando com renovado vigor. Eles revelam uma dimensão esquecida do ser humano, vista pelos modernos, mais como expressão de patologia do que de sanidade. Hoje, entre os estudiosos das ciências da religião, ela está resgatando sua cidadania. Tem seu assento na razão sensível e cordial que não substitui mas completa a razão científico-calculatória. Nela se elaboram os grandes sonhos e surgem as estrelas-guias que dão rumo à nossa vida. A religião desvela o ser humano como projeto infinito e lhe brinda o objeto adequado que o faz descansar: o infinito.

Os cristãos têm especial dificuldade no diálogo com as religiões. Sustentam a crença de que são portadores de uma revelação única e de um salvador universal, Jesus Cristo, o filho de Deus encarnado. Em alguns, esta crença ganha foros de fundamentalismo, dizendo, sem atalhos, que fora do cristianismo não há salvação, repetindo uma versão de cariz medieval. Outros, a partir da própria Bíblia e de uma reflexão teológica mais profunda, sustentam que todos os seres humanos, também o cosmos, estão permanentemente sob o arco-íris da graça de Deus. Para os primeiros 11 capítulos do Gênesis, nos quais não se fala ainda em Israel, como "povo eleito", todos os povos da Terra, são povos de Deus. Isso permanece válido até os tempos atuais.

Ademais, dizem as Escrituras que o espírito enche a face da Terra, perpassa a história, anima as pessoas a praticarem o bem, a viverem na verdade e a realizarem a justiça e o amor. O espírito chega antes do missionário. Este, antes de anunciar sua mensagem, precisa reconhecer as obras que este espírito fez no mundo e prolongá-las.

O Cristo não pode ser reduzido ao espaço palestinense. Ao assumir o homem Jesus de Nazaré, o filho se inseriu no processo da evolução, tocou a realidade humana e ganhou uma dimensão cósmica. Coube ao teólogo franciscano Duns Scotus na Idade Média e a Teilhard de Chardin nos tempos modernos apontar que o filho está presente na matéria e nas energias originarias e que foi densificando sua presença na medida em que se realizava a complexidade e crescia a consciência até irromper na forma de Jesus de Nazaré. Esta individuação não diminui seu caráter divino e cósmico, de forma que pode irromper, sob outros nomes e sob outras figuras que revelam em suas vidas e obras a cercania do mistério de Deus. Para evitar certa "cristianização"do tema, podemos falar, como o fazem grandes tradições, da sabedoria/sofia. Ela está presente na criação, na vida dos povos e especialmente nas lições dos mestres e sábios. Ou se usa também a categoria logos ou verbo que revela o momento de inteligibilidade e ordenação do universo. Ele não fica uma energia impessoal mas revela suma subjetividade e suprema consciência.

Estas visões ancoram nossa vida num sentido bom que nos permite suportar os avatares desta cansada existência.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Tribunais 'raciais'

O Globo, Opinião, página 7, em 24/06/2008.

Tribunais 'raciais'
ALI KAMEL

No debate sobre a racialização da sociedade brasileira, algumas aberrações são deixadas de lado: os tribunais “raciais” que existem em pelo menos duas universidades, na UnB e na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. Não se trata de ser contra ou a favor das cotas; ninguém pode ser a favor de um absurdo assim. Como pode um grupo se dar o direito de julgar, pela aparência, quem é negro ou pardo e quem não é? O que faz o Ministério Público que não impede que algo assim continue ocorrendo, como se fosse a coisa mais natural do mundo? Na UnB, o candidato que optar por disputar o vestibular pelo sistema de cotas faz as provas como todos os outros candidatos. No prazo máximo de dez dias após os exames, os melhores em cada carreira são chamados para um julgamento. A proporção é de dois candidatos para cada vaga oferecida no sistema de cotas: assim, se o curso de Administração oferece dez vagas, os vinte melhores estudantes que se inscreveram na carreira pelo sistema de cotas serão chamados para que, num julgamento, o tribunal decida se eles são mesmo negros ou pardos. Se o tribunal decidir positivamente, suas notas serão apuradas dentro do sistema de cotas. Se decidir que eles são brancos, a punição é atroz: os estudantes são simplesmente eliminados do vestibular, não importando a nota que tiverem obtido no teste. Eles sequer têm o direito de ter as suas notas computadas pelo sistema universal de vagas.

É um total absurdo. O edital diz que o aluno deve decidir se é pardo ou negro.

O aluno pode se olhar no espelho e se ver da cor que quiser, é um direito dele. Não se trata de mentira. Mas, se a concepção que faz da cor da sua pele não coincidir com a de seus juízes “raciais”, ele será punido.

Nossas leis permitem essa agressão? Os autores de tal regulamento não se dão conta do que fazem? A injustiça do método fica ainda mais patente quando tomamos conhecimento de que os alunos que se inscreveram no sistema de cotas, mas não foram chamados para o julgamento, têm as notas auferidas pelo sistema universal, junto com todos os demais alunos. Ou seja, eles se consideram negros ou pardos, mas, como não tiveram um bom desempenho nas provas, deixam de ter direito ao benefício das cotas. Provavelmente, são os alunos mais carentes, aqueles que tiveram um ensino pior. O resultado desse sistema perverso é que, na prática, as cotas da UnB beneficiam apenas os alunos mais ricos entre aqueles cuja cor de pele for julgada como tendo o tom adequado.

Aos mais pobres, que tiveram um ensino pior, mesmo negros, será negado o sistema de cotas.

Sob que aspecto se pode dizer que isso é justo? Na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, a cota se destina apenas aos alunos da escola pública ou que tenham estudado em escolas privadas com bolsa integral. À primeira vista, o sistema quer beneficiar os mais pobres entre aqueles que forem julgados negros ou pardos. Seria um pequeno avanço, mas qual a justificativa de deixar de fora os brancos igualmente pobres, se, no Brasil, eles formam um enorme contingente de 19 milhões de pessoas, um número maior do que a população de muitos países no mundo? Não faz sentido, é cruel, promove a cisão “racial” da pobreza sem que haja alguma justificativa que faça sentido.

O pior, porém, é o método para se descobrir quem é negro e quem é pardo. Em pleno século XXI, dá um nó na alma verificar que ainda existem pessoas que dividem a Humanidade em “raças”.

Todos os inscritos devem apresentar uma foto tamanho 5x7. Um tribunal de seis a sete pessoas fará o julgamento, mas, note, a cor do candidato só será chancelada como negra ou parda se obtiver um mínimo de cinco votos, praticamente a unanimidade. E quais são os critérios? Nas palavras dos organizadores, os candidatos serão julgados segundo tenham ou não as seguintes características: “a) pele muito pigmentada (melanina), b) nariz achatado, c) cabelo pixaim (carapinha); d) lábios carnudos (grossos)”.

Ao estudante de pele suficientemente escura (o que será isso?), basta essa característica: se a cor da pele for bem escura, ele pode ter cabelo liso, nariz afilado e lábios finos, não importa. O estudante pardo terá de apresentar sempre duas características, já que o tom de pele, por definição, nunca é escuro o bastante. Para que o leitor tenha a dimensão do grotesco de se julgar tal coisa, vou enumerar aqui as possibilidades: nariz achatado e cabelo pixaim, ou nariz achatado e lábios grossos, ou lábios grossos e cabelo pixaim.

Se o estudante pardo tiver apeo igualmente pobres, se, no Brasil, eles formam um enorme contingente de 19 milhões de pessoas, um número maior do que a população de muitos países no mundo? Não faz sentido, é cruel, promove a cisão “racial” da pobreza sem que haja alguma justificativa que faça sentido.

O pior, porém, é o método para se descobrir quem é negro e quem é pardo. Em pleno século XXI, dá um nó na alma verificar que ainda existem pessoas que dividem a Humanidade em “raças”.

Todos os inscritos devem apresentar uma foto tamanho 5x7. Um tribunal de seis a sete pessoas fará o julgamento, mas, note, a cor do candidato só será chancelada como negra ou parda se obtiver um mínimo de cinco votos, praticamente a unanimidade. E quais são os critérios? Nas palavras dos organizadores, os candidatos serão julgados segundo tenham ou não as seguintes características: “a) pele muito pigmentada (melanina), b) nariz achatado, c) cabelo pixaim (carapinha); d) lábios carnudos (grossos)”.

Ao estudante de pele suficientemente escura (o que será isso?), basta essa característica: se a cor da pele for bem escura, ele pode ter cabelo liso, nariz afilado e lábios finos, não importa. O estudante pardo terá de apresentar sempre duas características, já que o tom de pele, por definição, nunca é escuro o bastante. Para que o leitor tenha a dimensão do grotesco de se julgar tal coisa, vou enumerar aqui as possibilidades: nariz achatado e cabelo pixaim, ou nariz achatado e lábios grossos, ou lábios grossos e cabelo pixaim.

Se o estudante pardo tiver apeonas o cabelo pixaim, mas o nariz afilado e os lábios finos, estará fora do sistema de cotas. O mesmo acontecerá se ele tiver o nariz achatado, mas os cabelos lisos e os lábios finos.

Em plena era da genética, quando qualquer estudante sabe que o filho de um pai negro e uma mãe branca (ou vice-versa), dependendo da ancestralidade do casal, pode ter todos os tipos de fenótipos, como o Estado permite que uma universidade arquitete um conjunto de regras como as que acabo de descrever? Para se dar conta do horror, basta imaginar que outra universidade decida criar cotas para pobres, mas apenas os brancos, e, para isso, crie um tribunal semelhante exigindo que o candidato de pele menos clara tenha ao menos duas das seguintes características: a) lábios finos, b) cabelos lisos e c) nariz afilado.

No vestibular de 2007, o tribunal “racial” da UnB julgou e condenou 34 estudantes, que, por não terem sido considerados negros o suficiente, foram sumariamente eliminados do vestibular.

No mesmo ano, 162 alunos foram julgados pelo tribunal “racial” da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul e condenados pelo mesmo crime.

Este ano, quantos mais serão? Até quando o Ministério Público vai permitir esse horror? Estudantes estão sendo punidos pela cor da pele.

Isso é racismo.

ALI KAMEL é jornalista.
E-mail:
ali.kamel@tvglobo.com.br.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Parricídios distintos (Frei Betto)

FREI BETTO

Ficamos indignados frente ao pai que assassina a filha e joga-a pela janela. O parricídio é monstruoso, como a pedofilia entre pai e filha, caso de Josef Fritzl, o austríaco que, por 24 anos, manteve a filha em cárcere privado.

Você é cristão? Acredita que Deus Pai, ofendido com os nossos pecados, assassinou o Filho na cruz? Que diabo de Deus é esse que exige a morte do próprio Filho para aplacar sua ira? Por que esse Deus não é execrado como os pais citados acima? Em literatura, migração dos sentidos é o que os gregos denominavam dipticon. Exemplo são os vitrais de igrejas: de um lado, Moisés; de outro, Jesus. Para o observador, o significado de um se transfere ao outro — Jesus é o novo Moisés. O “Gênesis” (22, 118) relata que Javé exigiu de Abraão, em prova de fé, sacrificar seu único filho, Isaac. O patriarca subiu a montanha disposto a matar o menino. Ao ver que Abraão não vacilaria no ato parricida, Javé, satisfeito, segurou-lhe a mão e evitou a morte de Isaac.

No Gólgota, o próprio Deus teria entregue o Filho à morte. Se Deus pratica o parricídio, por que tanta indignação quando um de nós o faz? Essa ótica teológica valoriza a culpa. Ora, devemos experimentar a graça de ser filhos de Deus. O amor. Abraão, criado no politeísmo e acostumado a prestar culto através da oferenda de primícias — das colheitas ao primogênito — descobre no alto da montanha que Javé, ao contrário de outros deuses, não quer a morte, quer a vida.

“Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu e os grãos de areia na praia” (22, 17). Ao descobrir Javé como Deus da Vida, Abraão poupa o filho.

Assim, Jesus não foi morto pela vontade de Deus, e sim pela maldade dos homens. A cruz não é o ápice de uma tragédia saída da pena de um perverso autor divino.

Jesus morre como prisioneiro político, assassinado por decisão de dois poderes que dominavam a Palestina do século I.

Ousou anunciar, no reino de César, um outro reino, o de Deus.

Atreveu-se a “profanar” o Templo de Jerusalém, qualificado de “covil de ladrões” (Mateus 21, 13).

O Deus de Jesus não era um déspota, e sim o Pai amoroso a quem o Filho tratava por “abba” (Marcos 14, 16), “querido papai” em aramaico. Jesus não veio para acusar-nos de incorrigíveis pecadores.

Veio nos revelar que, “como o Pai me amou, assim também eu vos amei; permanecei no meu amor” (João 15, 9).

FREI BETTO é escritor.

Extraído de:
O Globo, Opinião, página 7, em 23/05/2008.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Respeitar liberdade religiosa é dar a cada confissão o que precisa

Fala o presidente do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos


PAMPLONA, terça-feira, 20 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Respeitar a liberdade religiosa é dar a cada confissão o que precisa, declara o presidente do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos, o arcebispo Francesco Coccopalmerio.


«A liberdade religiosa é respeitada quando a cada confissão se dá o que precisa para seu desenvolvimento social e quando isso se faz tendo presente a história e identidade de cada país», assinalou o representante vaticano.


O presidente do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos participou nesta terça-feira, na Universidade de Navarra, de uma homenagem ao canonista Eloy Tejero, por ocasião de seu 70º aniversário, segundo informa um comunicado do centro educativo.


Dom Coccopalmerio assinalou que «nem todas as confissões religiosas, por exemplo, contribuem da mesma forma para o bem social na Espanha, na ordem assistencial, da educação dos jovens e, logicamente, do serviço religioso».


Sua intervenção aconteceu depois que os expoentes da Igreja Católica manifestaram sua preocupação diante do anúncio do governo espanhol de mudar a lei de liberdade religiosa.


Sobre as relações entre a Igreja o Estado, indicou que «há muitos temas que interessam a ambos, como a família, o ensino, a cultura da vida, etc., e nos quais Igreja e Estado devem trabalhar com senso de colaboração para o bem da sociedade. Os problemas surgem quando, por razões de ideologias, procura-se neutralizar a ação da Igreja, e quando se considera como negativa a sua influência para o bem da sociedade», assinalou.


Por último, do pontificado de Bento XVI comentou que «está na linha de continuidade com os pontificados anteriores». Desta forma, quis sublinhar «sua atenção pela legislação da Igreja e pelo ordenamento canônico».


quarta-feira, 19 de março de 2008

Nos subterrâneos da fé

por Ezio Flavio Bazzo

Doutor em Psicologia Clínica e escritor. Autor de Vagabundo na China, Dymphne a santa protetora dos loucos; Ecce Bestia, entre outros


"Se você topar com alguém que lhe diga "eu sei que Deus não existe", não é um ateu, é um imbecil. E, igualmente, se você encontrar alguém que lhe diga "eu sei que Deus existe". É um imbecil que confunde a sua fé com um saber."
A. Comte-Sponville

Nas últimas décadas – por sorte – o mundo não viu apenas o crescimento vertiginoso de religiões, de sectarismos, de seitas, desvarios místicos e de fundamentalismos associados ao terror e à fé. Vem testemunhando também a contra investida de livres pensadores, laicos, filósofos e intelectuais ateus de todos os matizes cientes, por um lado, de que as religiões podem ser extremamente maléficas, e por outro, que é possível ser honesto, ético, verdadeiro, menos salafrário, criativo e até mesmo espiritualista sem Deus. No meio de tanta massificação e de tantos olhos voltados para o além esses estudiosos vêm produzindo importantes trabalhos sobre o assunto, fazendo-nos compreender que por de baixo da aparente democracia do velho axioma "religião e política não se discutem" havia – e há – um sutil artifício de censura e de interdição de esclarecimento pessoal que pode muito bem ter sido responsável pelo estado de alienação e de atraso em que os países latinos em geral – e o Brasil em particular – se encontram atualmente, tanto no universo da política como no da religiosidade. A crença num ou noutro Deus ou em nenhum, a filiação a esta ou àquela religião ou a nenhuma, tem sido o motivo principal daquelas tão bem conhecidas discórdias e mixórdias que vieram pelos séculos a fora regando a terra de imposturas e de sangue.

Entre os livros recentes, traduzidos para o português, podemos mencionar Deus, um delírio, do biólogo norte americano Richard Dawkins, Carta a uma nação cristã, do filósofo de Stanford, Sam Harris, e o Espírito do ateísmo, do pensador francês André Comte-Sponville. Três ensaios mais do que oportunos que, sem nenhuma sisudez e sem nenhuma fobia conectam-se entre si principalmente pela consciência de que o ateísmo não é o fim do mundo e que o fanatismo e o irracionalismo religioso são igualmente insalubres tanto para a civilização como para as sociedades. Além dos esclarecimentos concernentes à crença no suposto Design Inteligente, o que é precioso nesses livros é tanto a sinceridade como a objetividade com que os autores tratam os absurdos, os erros, as ficções, as irracionalidades e as neuroses inerentes às crenças no sobrenatural que, mesmo estando presentes em todo o planeta, inclusive em países influentes como os EUA, causam muito mais estragos naqueles atascados na pobreza e no subdesenvolvimento. Para Harris, o fato de quase a metade da população norte americana ainda acreditar na vinda do Messias, na idéia de que o mundo está prestes a acabar – e mais – que o fim será glorioso deve ser considerada uma emergência moral e intelectual.

Além do resgate das idéias anticlericais e ateístas clássicas, esta tríade de pensadores contemporâneos chama atenção para o fato de que tanto a pregação da intolerância religiosa contra os "infiéis" e contra os "ateus", como a interpretação ao pé da letra dos ditos livros sagrados, além de desrespeitar a liberdade individual e de interditar os avanços das Ciências podem colocar em risco até mesmo a sobrevivência da humanidade. Neste particular, – sem falar do dogmatismo religioso a respeito de questões como o aborto, a transfusão de sangue, o uso de preservativos, as células tronco etc. –, é importante lembrar que em muitas daquelas escolas primárias dos EUA onde a Bíblia é usada como livro didático, continua sendo proibido mencionar o nome de Darwin assim como fazer menção às suas teorias evolucionistas. Daí o espirituoso alerta de Harris: "Os que têm o poder de eleger presidentes, deputados e senadores – e muitos dos que são eleitos – acreditam que os dinossauros sobreviveram aos pares na arca de Noé, que a luz de galáxias distantes foi criada a caminho da Terra e que os primeiros membros da nossa espécie foram modelados a partir do barro e do hálito divino, em um jardim com uma cobra falante e pela mão de um Deus invisível." E o mais bizarro de tudo isso, é que esse Deus absconditus tem sido o motivo principal de muitas chacinas, de muitas imposturas e de incontáveis sofrimentos. Se pelo menos aparecesse, desse uma pista aos homens de pouca fé. Mas não, prefere o anonimato e a clandestinidade. Insiste em habitar no invisível, fato que para o filósofo Sponville, é simplesmente espantoso. Um Deus que se esconde com tanta obstinação! "Seria mais simples e mais eficaz – diz – Deus consentir em se mostrar, pois se quisesse que eu acreditasse nele resolveria num instantinho esse assunto. (...) Um Deus oculto! "Os humanos só se escondem quando têm medo ou vergonha. Mas Deus?" Para Dawkins, um dos efeitos verdadeiramente negativos da religião é que ela nos ensina que é uma virtude satisfazer-se com o não-entendimento. Sim, a religião permite – segundo também Harris – que as pessoas imaginem que suas preocupações são morais quando não são – isto é, quando elas não têm nada a ver com o sofrimento ou com o alívio do sofrimento. A religião permite que as pessoas imaginem que suas preocupações são morais, quando na verdade são altamente imorais – isto é, quando insistir nessas preocupações inflige um sofrimento atroz e desnecessário em seres humanos inocentes.

Mas ser ateu não é necessariamente uma opção glamurosa e nem tão fácil como se pode pensar. Pesquisas tanto lá nos Estados Unidos como aqui no Brasil e em outros países já demonstraram que a população que votaria num candidato ateu à presidência da república é mínima e que os eleitores elegeriam com muito mais tranqüilidade (apesar do racismo e da homofobia latente) um candidato que fosse bandido, negro ou homossexual. "Se você tem razão ao acreditar que a fé religiosa oferece a única base real para a moralidade – escreve Harris –, então os ateus deveriam ser menos morais do que as pessoas de fé. Na verdade, os ateus deveriam ser totalmente imorais. Será que são mesmo? Será que os membros das organizações de ateus nos EUA cometem crimes violentos em proporção maior que a média? Será que os membros da Academia Nacional de Ciências, dos quais 93% não aceitam a idéia de Deus, mentem, enganam e roubam deslavadamente? Podemos estar razoavelmente seguros de que esses grupos se comportam pelo menos tão bem quanto à população em geral." "Não tenho uma idéia muito elevada da humanidade em geral e de mim mesmo em particular para imaginar que um Deus esteja na origem desta espécie e deste indivíduo", declara Sponville para explicar seu ateísmo. E é esse mesmo filósofo materialista e racionalista que acredita que prescindir de religião não o obriga a prescindir de espiritualidade e que ser ateu não significa abandonar seu espírito aos padres, aos mulás ou aos espiritualistas. Tanto a intervenção de Harris como a de Sponville bem que poderiam fazer o universo religioso mais tolerante para com os ateus, pois está provado, por um lado, que o ateísmo é compatível com as aspirações básicas de qualquer sociedade civil, e por outro, que a crença generalizada em Deus não é garantia para a saúde física e nem para a saúde mental de ninguém, pelo contrário. Entre seus correspondentes Harris lembra que os mais mentalmente perturbados sempre citam capítulos e versículos bíblicos. Em Carta a uma nação cristã, o filósofo norte americano lembra ainda que embora se acredite que acabar com a religião é um objetivo impossível, é importante perceber que ele já foi alcançado por boa parte do mundo desenvolvido. Noruega, Islândia, Austrália, Canadá, Suécia, Suíça, Bélgica, Japão, Holanda, Dinamarca e o Reino Unido estão entre as sociedades menos religiosas da terra. De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (2005), essas sociedades também são as mais saudáveis, segundo os indicadores de expectativa e vida, alfabetização, renda per capita, nível educacional, igualdade entre os sexos, taxa de homicídios e mortalidade infantil. Inversamente, os cinqüenta países que ocupam os lugares mais baixos, segundo o índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas, são inabalavelmente religiosos.

Enfim, as leituras aqui mencionadas são obrigatórias a qualquer um, – ateu ou crente – que queira estar à altura de sua época, pois o dogmatismo e o obscurantismo são temas aos quais ninguém pode ficar indiferente. As pessoas precisam tomar as rédeas de suas vidas nas próprias mãos e quem quiser compreender como acontece a fanatização e a massificação na fé, basta lembrar que se você levar a vítima (principalmente crianças e pessoas pouco esclarecidas) por um caminho conhecido ela não perceberá que você a está levando para uma armadilha. "Seria um erro – alerta Sponville – abandonar o terreno para eles. A luta pelas Luzes continua, raramente foi tão urgente, e é uma luta pela liberdade."

Para aqueles que não vivem sem seus álibis e que estão acostumados a fazer jogo duplo em tudo, inclusive em relação às coisas da eternidade, Dawkins nos lembra que quando perguntaram a Bertrand Russel o que ele diria se morresse e se visse confrontado por Deus, exigindo saber por que Russel nunca acreditou nele, este teria respondido: "Não havia provas suficientes".

Extraído de:
Revista Espaço Acadêmico, número 82, março de 2008.

terça-feira, 11 de março de 2008

Católicos, judíos y ciudadanos

Católicos, judíos y ciudadanos
Por JULIO MARÍA SANGUINETTI

Iton Gadol, 11/3/2008.

AJN.- ¿Con qué derecho, específicamente, se sienta en el banquillo de los acusados de vivir en el error a los miembros de otra comunidad que ejerce el mismo derecho que ella a creer en su Dios? No podemos ignorar que hacerlo con los judíos y con "Israel todo", que debería ser salvado, es retornar al aire de aquellos tiempos en que desde los púlpitos católicos se les condenaba por "deicidio", como "asesinos de Jesucristo". Bien se sabe que esa doctrina fue un elemento sustantivo para que los nazis pudieran desarrollar su prédica antisemita y desatar el Holocausto, la mayor tragedia de nuestra civilización. clic en títuloo,

Recemos por los judíos. Que Dios Nuestro Señor ilumine sus corazones para que reconozcan a Jesucristo, Salvador de todos los hombres. Dios, omnipotente y eterno, tú que quieres que todos los hombres se salven y lleguen al conocimiento de la verdad, concede, propicio, que, entrando la plenitud de los pueblos en tu Iglesia, todo Israel sea salvado".

Esta plegaria ha sido adoptada por decisión de Benedicto XVI el pasado 5 de febrero, para ser formulada en la celebración litúrgica del Triduo Pascual -el Viernes Santo- y así comunicada a todas las Conferencias Episcopales del mundo, con el consiguiente revuelo entre las comunidades judías y aquellos que han propiciado, desde sus respectivas religiones, el diálogo "judeo-cristiano" abierto después del Vaticano II.

El tema desborda el debate religioso. Más allá de ese bienvenido diálogo, lo que pone en cuestión la plegaria es el principio de tolerancia que preside la vida institucional y social de los Estados democráticos modernos.

Que una comunidad religiosa pretenda difundir su fe, va de suyo. Que rece para que todos los que no la profesan, encuentren su verdad, está en la lógica de la actividad de cualquier activista de una creencia. Pero cuando una iglesia constituida singulariza su prédica en los fieles de otra religión específica y reclama que se haga lo necesario para "salvarlos" estamos entrando ya en el camino de la intolerancia.

¿Con qué derecho, específicamente, se sienta en el banquillo de los acusados de vivir en el error a los miembros de otra comunidad que ejerce el mismo derecho que ella a creer en su Dios? No podemos ignorar que hacerlo con los judíos y con "Israel todo", que debería ser salvado, es retornar al aire de aquellos tiempos en que desde los púlpitos católicos se les condenaba por "deicidio", como "asesinos de Jesucristo". Bien se sabe que esa doctrina fue un elemento sustantivo para que los nazis pudieran desarrollar su prédica antisemita y desatar el Holocausto, la mayor tragedia de nuestra civilización. ¿Dónde estaba Dios? se preguntó el actual Papa cuando visitó el campo de concentración de Auschwitz, y muchos, con incuestionable lógica, le preguntaron dónde estaba entonces la Iglesia católica, silenciosa en momentos en que ocurría una tragedia de la que tenía cabal noticia.

Por cierto, la nueva oración no contiene las frases difamatorias de antaño: ya no se habla de "los pérfidos judíos", expresión borrada por Juan XXIII. Sin embargo, se inscribe en una dirección fundamentalista de peligrosa actitud discriminatoria. Nadie puede ignorar que el pueblo judío ha sido de los más perseguidos de la historia y, como ha logrado sobrevivir -a diferencia de otros tantos que sucumbieron,- continúa en el centro de vastos escenarios de prejuicio. El fundamentalismo islámico, y hasta jefes de Estado como Ahmadineyad, proponen destruir el Estado de Israel y la nación judía y lo hacen a grito pelado. Tampoco es un misterio reconocer que el prejuicio antisemita va más allá, está aún vigente en el mundo y que la política de Israel, polémica como todas las políticas, ambienta reacciones prejuiciosas.

En ese cuadro, cuando la Iglesia católica, tan parsimoniosa siempre, sale a intentar la salvación de los judíos y de Israel todo, proponiéndose sacarlos del mundo del error en que viven, es obvio que está reinstalando en la picota a ese perseguido pueblo y de alguna manera volviendo a condenarlo. ¿Por qué no se hace lo mismo con los musulmanes o con nosotros los agnósticos liberales, que hoy podríamos debatir el tema al amparo de las garantías que nuestra filosofía logró arrancar a los absolutismos?

Algunos voceros eclesiásticos alegan que la plegaria se ha aliviado de adjetivos acusatorios y que, además, no se leerá necesariamente en todas las iglesias, porque ella se inscribe en la rehabilitación del viejo misal, que no es de empleo obligatorio. Pero no cabe agradecer a la Iglesia que se haya corregido ella misma, limando viejas aberraciones inquisitoriales, del mismo modo que no hace a la cosa el porcentaje de templos en que se lea la plegaria. Lo que preocupa es la plegaria en sí misma, como expresión de un retroceso cívico muy serio. E insistimos en la palabra cívica, porque es un tema de ciudadanía.

La persecución racial, la intolerancia religiosa, la difamación histórica son males endémicos que aún debemos combatir. No es razonable, por lo mismo, que una Iglesia vaticana que venía evolucionando hacia el diálogo y la convivencia, dé este paso atrás. Grande o pequeño no interesa. La cuestión es que la mentalidad que está en la raíz de esa decisión no se compadece con los esfuerzos de los últimos Papas y vuelve a sembrar una semilla de intolerancia que no deberíamos observar con indiferencia.

Julio María Sanguinetti fue presidente de Uruguay. Es abogado y periodista.

domingo, 9 de março de 2008

Jésus le rouge

Un nouvel essai de Slavoj Zizek

Jésus le rouge



Par Aude Lancelin (28/02/2008).

Dans «Fragile Absolu», l'influent philosophe slovène livre une analyse décapante de l'héritage chrétien

Un malentendu - malveillant? est en train de se mettre en place autour du «cas Zizek». Ainsi ce philosophe Slovène, marxiste critique, mondialement connu pour ses analyses lacaniennes virtuoses du cinéma, de David Lynch à Mel Gibson, est-il désormais brandi par certains éditorialistes parisiens en nouvel épouvantail d'une extrême-gauche rancie. Un peu hardi s'appliquant à un homme qui, dans son pays d'origine, a, lui, expérimenté et affronté le «socialisme réel». Pardonnez-leur, ils ne f savent pas ce qu'ils lisent, pour le dire dans 1 le style christique sur lequel se penche justement Zizek dans «Fragile Absolu», aujourd'hui traduit en français.

«Pourquoi l'héritage chrétien vaut-il d'être défendu?», comme s'interroge le sous-titre de ce puissant essai. Exactement pour les raisons inverses qui voient aujourd'hui un président français s'en réclamer tapageusement. C'est en effet la part sauvage du christianisme que l'auteur exhume ici, à la manière dont il l'avait fait dans «la Marionnette et le Nain», paru en 2006. Ainsi le paradoxal Zizek revendique-t-il l'héritage chrétien comme geste d'absolue rupture par rapport à toute substance ethnique imaginable. Rien de plus étranger a ce dernier, en effet, que les formes de la réaction contemporaine préconisant à l'individu «une identification totale avec sa propre communauté».

La puissance subversive du christianisme, c'est sa confrontation à 1 idéologie dominante des «droits de l'homme» qui la révèle le mieux. «Comme l'expérience de notre société libéral-permissive et postpolitique le démontre amplement, les droits de l'homme sont, en leur coeur même, les droits autorisant la violation des Dix Commandements.» Le droit à la «vie privée»? Le droit à l'adultère. Le droit à la «propriété privée» ? Le droit d'exproprier autrui. La «liberté de la presse et des opinions» ? Le droit au mensonge, écrit Zizek non sans goût de la provocation.

Autant la Loi juive que l'agape chrétienne, longuement confrontées dans le livre, s'opposent au déficit total d'ordre symbolique en train de miner notre monde. Tout ce qui était noble est abaissé, tout ce qui était stable est ébranlé, écrivait Marx dans le «Manifeste». Entre autres dommages collatéraux analysés par l'auteur, l'incapacité croissante du sujet à se constituer comme tel. Et encore le fait que l'idée de «catastrophe» ait progressivement acquis au cours du XXe siècle un rôle si crucial. L'«épuisement de la capacité à sublimer», voilà ce qui a peu à peu conduit à transformer tout événement effroyable en seule source envisageable de sacré. Zizek écrivait cela peu avant le 11-Septembre, il n'a pas été démenti.


«Fragile Absolu. Pourquoi l'héritage chrétien vaut-il d'être défendu ?», par Slavoj Zizek, Flammarion, 242 p., 20 euros; à signaler aussi sa préface à «Robespierre : entre vertu et terreur», Stock, 272 p., 20 euros.