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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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domingo, 29 de maio de 2011

‘O importante não é a religião, mas Deus, que só podemos encontrar em nossa humanidade’, afirma teólogo espanhol

IHU (17/05/2011): ‘O importante não é a religião, mas Deus, que só podemos encontrar em nossa humanidade’, afirma teólogo espanhol: O presente texto é um extrato do discurso lido por José María Castillo na solenidade em que recebeu o Doutorado Honoris Causa da Universidade de Granada, da Espanha. José María Castillo, teólogo espanhol, é autor de uma importante obra teológica. Vários dos seus livros foram traduzidos para o português. O texto está publicado no sítio Rebelión Digital, 13-05-2011. A tradução é do Cepat. Eis o discurso.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O que os santos podem fazer pela antropologia?

SAEZ, Oscar Calavia. O que os santos podem fazer pela antropologia?. Relig. soc. [online]. 2009, vol.29, n.2, pp. 198-219. ISSN 0100-8587.


O que os santos podem fazer pela antropologia?

Oscar Calavia Sáez

RESUMO: O artigo sustenta que os santos podem servir de eixo a uma abordagem mais etnográfica e radical da antropologia da religião. De praxe, essa subdisciplina está excessivamente pautada pelas concepções de apenas um tipo de nativos: teólogos, sacerdotes, especialistas. Doutrinas estabelecidas servem como referência, e a religião comum vira assim uma religião popular, subalterna ou desviante. Os santos, personagens locais que no entanto atravessam fronteiras entre credos e são por sua vez subalternos nas elaborações teológicas, podem ser vistos como atores essenciais dentro de uma rede de relações (do tipo das propostas pela actor-network theory), a unir mitos, devotos, lugares, objetos ou personagens sagrados, rituais, doutrinas e, como um limite externo, Deus. Essa rede, sugiro, deve se reivindicar como objeto prioritário dos estudos sobre religião.

Palavras-chave: santos, Deus, religião, religião popular, mitologia, catolicismo, actor-network theory.

sábado, 3 de abril de 2010

Entre Deus e Darwin

FSP (03/04/2010)

Editoriais: Entre Deus e Darwin


Brasileiros parecem ter discernimento intuitivo de que questões de ciência não competem com convicção religiosa


"UMA APAIXONADA predileção por besouros." Essa foi a resposta de J.B.S. Haldane (1892-1964) quando lhe perguntaram o que a teoria da seleção natural revelava a respeito dos desígnios de Deus. O biólogo britânico, que era ateu, aludia de forma irônica à fantástica abundância de insetos coleópteros na natureza.


Pesquisa Datafolha publicada ontem revelou que apenas 8% dos brasileiros endossariam Haldane, ao concordar que os seres vivos são produto de lentíssima evolução na qual variações fortuitas, mas vantajosas à sobrevivência e reprodução, se disseminam e acabam por dar origem a novas espécies, mais adaptadas a seu ambiente. Seriam os darwinistas "puros".


Deles discordam expressiva parcela de 25% dos brasileiros, os quais se mostram criacionistas, pois acreditam que os seres vivos tenham sido concebidos e materializados por Deus num único ato criativo.


Nos EUA, onde estão enraizadas facções do cristianismo evangélico que tomam as escrituras sagradas ao pé da letra, os criacionistas são estimados em 45%. Não surpreende que seja aquele o país onde as implicações filosóficas e religiosas do darwinismo alcancem estridente controvérsia, que já deu ensejo a disputas judiciais renhidas a fim de preservar o ensino laico de contaminações religiosas.


Pesquisas parecidas realizadas na Europa revelam cenário variado. Em países como Itália, Irlanda e Polônia, o índice de criacionistas se aproxima do brasileiro, a sugerir que nas nações de maioria católica essa questão não é relevante, talvez nem pertinente. Os católicos sempre estiveram à vontade com interpretações figuradas do evangelho.


Com efeito, a maioria dos brasileiros (59%) combina a aceitação do processo darwiniano com a fé na condução e supervisão divina, situadas num plano superior ao da natureza. Embora inverossímil aos olhos de quem for ateu, essa conciliação de crenças não é absurda. Sugere, ao contrário, um discernimento intuitivo de que questões de ciência não competem com questões de convicção religiosa. São campos que correspondem a dimensões diferentes da consciência humana.


Não é menos verdade que o darwinismo dito "puro" tende a crescer conforme aumenta a educação formal. Seus índices mais altos na Europa, por exemplo, estão nos países escandinavos. Já na Turquia, mais da metade da população se declara criacionista. É de supor que em países de predomínio islâmico essa marca se repita ou seja suplantada, pois o Islã tende a adotar uma visão mágica e literal do advento do homem na Terra.


O levantamento Datafolha desencoraja certa tendência a importar uma polêmica que pode fazer sentido nos EUA, mas que não se sustenta em nossa realidade cultural. Faz algumas décadas, o antropólogo Roberto DaMatta identificou como desafio brasileiro reunir a rua e a casa, a lei e a família, o sobrenatural e o prosaico. Parece que em matéria de religião e darwinismo, esse sincretismo à brasileira já vigora.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Só os sujeitos de linguagem podem crer em Deus''. Entrevista especial com Benilton Bezerra Júnior

IHU (14/09/2009)

  • ''Só os sujeitos de linguagem podem crer em Deus''. Entrevista especial com Benilton Bezerra Júnior: “Só o poder das palavras torna possível experimentar o inefável, o indizível, o incomensurável, o mistério. Só sujeitos de linguagem podem crer em Deus”. As afirmações são de Benilton Bezerra Júnior, na entrevista que concedeu, por e-mail à IHU On-Line, adiantando aspectos sobre sua conferência Narrativas de Deus, e a transcendência hoje: uma abordagem a partir da psicanálise, que apresentará em 15 de setembro, no X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades. De acordo com ele, “recusar a existência de Deus não implica recusar o lugar que ele ocupa”. Outro tema em discussão é a crise do sujeito atual, que vive a situação inédita da perda de legitimidade de uma autoridade transcendente. “Como consequência de uma exacerbação da lógica do individualismo moderno estaríamos presenciando o surgimento, pela primeira vez, de gerações sem compromisso com a tradição, incapazes de reconhecer autoridade e poder normativo em alguma instância para além de sua decisão individual. Num mundo impulsionado pela lógica do mercado, pela explosão de biotecnologias e pelo declínio do simbólico, tudo parece ter se transformado em matéria de escolha pessoal. Falar de transcendência ficou vagamente careta, démodé, old-fashioned”. Benilton é graduado em Direito e em Medicina, mestre em Medicina Social e doutor em Saúde Coletiva, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atualmente, é membro do Instituto Franco Basaglia e atua como docente adjunto do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, e pesquisador do PEPAS (Programa de Estudos e Pesquisas sobre Ação e Sujeito) da UERJ. Ele é autor do artigo "Retraimento da autonomia e patologia da ação: a distimia como sintoma social", publicado no livro Inácio Neutzling (org.), O Futuro da Autonomia: Uma Sociedade de Indivíduos?, São Leopoldo - Rio de Janeiro: Editora Unisinos - Editora PUC-Rio, 2009. >>> Confira a entrevista.

sábado, 12 de setembro de 2009

Literatura: lugar de narrar Deus. ''Viva o povo brasileiro'' de João Ubaldo Ribeiro.Entrevista especial com Geraldo De Mori

IHU (12/09/2009)

Literatura: lugar de narrar Deus. ''Viva o povo brasileiro'' de João Ubaldo Ribeiro.Entrevista especial com Geraldo De Mori: “A literatura é um campo profícuo para falar de Deus porque tem a liberdade criativa e criadora, não se contentando em traduzir a realidade tal qual ela é dada, mas inventando novas formas de expressá-la e habitá-la. Por isso ela é lugar do sentido”. A opinião é do teólogo jesuíta Geraldo De Mori, na entrevista a seguir, concedida, por e-mail, à IHU On-Line. Analisando a obra Viva o povo brasileiro, escrita por João Ubaldo Ribeiro, ele localiza a formação da brasilidade na narração, apontando o papel “das divindades dos povos oprimidos, especialmente as das populações africanas, tornando ausente ou contranarrando o Deus cristão, associado à elite e à dominação”. Sobre a ausência ou silêncio do Deus cristão nessa narrativa, De Mori diz que ela pode ser compreendida “como uma opção do autor em escutar aqueles cujas vozes sempre foram caladas nos relatos oficiais da história de nosso país e em boa parte de nossa literatura”. Graduado em Filosofia e Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE, Geraldo De Mori é mestre e doutor em Teologia pelo Centre Sèvres, em Paris, França, com a tese Le temps: énigme des hommes, mystère de Dieu. Une poétique eucharistique du temps en contexte brésilien (Paris: Les Editions Du Cerf, ,2006). É um dos autores de Lavadeiras. Mulheres construindo um movimento (Salvador: Centro de Estudos e Ação Social, 1989). Em 16 de setembro ministrará o mini-curso Provocações para se "narrar Deus" a partir de Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, dentro da programação do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades. >>> Leia mais, clique aqui.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Saramago ataca Deus outra vez

Estadão, Caderno 2 (28/08/2009): Saramago ataca Deus outra vez: Depois de padecer de uma grave enfermidade respiratória que quase lhe custou a vida, o escritor português José Saramago comprova ter recuperado o fôlego e a disposição para a polêmica. Em outubro, ele lança seu novo romance, Caim, em que redime o personagem bíblico do assassinato do irmão Abel e credita a Deus a autoria intelectual do crime, ao depreciar o sacrifício que Caim Lhe havia oferecido. "Deus não é confiável. Que diabo de Deus é esse que, para enaltecer Abel, despreza Caim?", comentou Saramago, em entrevista divulgada ontem pela agência espanhola de notícias EFE. >>> Leia mais, clique aqui.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Silêncio de Deus ou o Deus do silêncio?

IHU (27/08/2009)

Silêncio de Deus ou o Deus do silêncio?: Como entender o mistério, o silêncio e o ocultamento de Deus diante do sofrimento e da violência? Para o teólogo norte-americano Alexander Nava, uma das perspectivas possíveis é a partir da obra de dois pensadores cristãos – a filósofa Simone Weil e o teólogo Gustavo Gutiérrez. Mesmo diferentes em seus contextos e escritos, Weil e Gutiérrez foram a inspiração para a reflexão de Nava sobre uma visão filosófica e teológica que integrasse as dimensões mística e profética da tradição cristã, muitas vezes consideradas mutuamente exclusivas.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Deus brinca – e especialista da USP explica

IHU (05/08/2009): Deus brinca – e especialista da USP explica: Livro recém lançado homenageia o professor da Faculdade de Educação da USP, Jean Lauand (foto),que acaba de se aposentar. Especialista em Tomás de Aquino, o professor é autor da originalíssima tese do Logos ludens – aquela que afirma que há componentes racionais e lúdicos na Criação. O livro intitulado O Intérprete do Logos – Textos em homenagem a Jean Lauand, tem como organizador Roberto C. G. Castro – Editora da Escola Superior de Direito Constitucional. A reportagem é de Marcello Rollemberg e publicada pelo Jornal da Usp, 03-08-2009.

domingo, 5 de julho de 2009

As faces de Deus, segundo Saramago. Entrevista especial com Salma Ferraz

IHU (05/07/2009): As faces de Deus, segundo Saramago. Entrevista especial com Salma Ferraz: “Sua obra é uma catedral, ao longo da qual ele vai metodicamente desconstruindo a concepção judaico-cristã de um Deus justo e bondoso”, avalia a crítica literária e ensaísta Salma Ferraz, referindo-se à obra de José Saramago. Conhecido por questionar a existência de Deus, o escritor brasileiro é fascinado pelo tema e, segundo a autora, “apaixonado pela Teologia e pelos personagens bíblicos em geral”. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Salma explica que tal admiração se justifica pelo fato do autor estar “imerso numa cultura que foi moldada pela ideia de Deus que está impregnada no DNA da civilização Ocidental”. E enfatiza: “Isto seduz Saramago e faz com que ele produza, a partir desta ideia, as melhores páginas da literatura universal contemporânea”. Salma Ferraz graduou-se em Letras, pela Faculdade Hebraico Brasileira Renascença de Letras, de São Paulo, e especializou-se em Literatura Brasileira e Literatura Infantil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É mestre e doutora em Literatura Portuguesa, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Atualmente, é professora de Literatura Portuguesa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e atua no Programa de Pós-Graduação de Literatura com a linha de Pesquisa Teopoética - Os Estudos Comparados entre Teologia e Literatura. Entre seus livros, citamos O Quinto Evangelista (Brasília: UNB, 1998), As Faces de Deus na Obra de um Ateu (Juiz de Fora: UFJF, 2004) e No princípio era Deus e ele se fez Poesia (Acre: UFAC, 2008).

sábado, 21 de março de 2009

A fé que faz bem à saúde

Revista Época (21/03/2009): A fé que faz bem à saúde: Novos estudos científicos mostram que o nosso cérebro é “programado” para acreditar em Deus – e que isso nos ajuda a viver mais e melhor. Entenda por que.



Veja mais:

quarta-feira, 4 de março de 2009

O Deus do coração e o Deus do poder

IHU (04/03/2009): O Deus do coração e o Deus do poder: A politóloga Nadia Urbinati, especialista em pensamento liberal e socialista, escreveu artigo para o jornal La Repubblica, 02-03-2009, afirma que "defender o Estado laico [...] é [...] um dever que os cidadãos religiosos deveriam ter no coração". Doutora pelo Instituto Universitário Europeu de Florença e professora nas universidades de Nova Iorque, Pennsylvania, Princeton e agora em Columbia, Nadia defende que "o crente religioso e o cidadão têm aqui o mesmo interesse: o de ter políticos que não tornem a vida um objeto de compromisso político". A tradução é de Moisés Sbardelotto. >>> Leia mais, clique aqui.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A la buena de Dios

El Pais, Cultura – Fernando Savater (17/02/2009): A la buena de Dios: Es para no creerse lo que aún sigue dando Dios que hablar. Ahora que ya ha vuelto a sus lares el cardenal Bertone (quien por cierto tiene un aire al malvado mago Sokhura que interpretó genialmente Torin Thatcher en Simbad y la princesa) y que nuestras piadosas autoridades se han sacudido de la ropa el olor a incienso, quizá podamos hablar con franqueza de los llamados "autobuses ateos" (?). Reconozco que me cuesta no simpatizar con cualquier iniciativa que escandaliza al obispado, pero en este caso el eslogan ("Probablemente Dios no existe. Despreocúpate y disfruta de la vida") me parece de una ingenuidad teológica propiamente... anglosajona, al estilo por un lado de Richard Dawkins y por el opuesto del poco añorado George W. Bush. >>> Leia mais, clique aqui.


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Publicações sobre Fundamentalismos

Conferencia Magistral: Cátedra UNESCO de Educación para la Paz: Entre el terror y la esperanza: Religión, guerra y paz

domingo, 20 de julho de 2008

Deus bíblico pode ser fusão de vários deuses pagãos, dizem especialistas

Personalidade e atributos de Javé são compartilhados com outras divindades do Oriente. Pai celestial El, jovem guerreiro Baal e até 'senhora' Asherah teriam sido influências.

Reinaldo José Lopes Do G1, em São Paulo, em 20/07/2008.

A afirmação pode soar desrespeitosa para judeus ou cristãos, mas não está muito longe da verdade: Javé, o Deus do Antigo Testamento, parece ter múltiplas personalidades. Para ser mais exato, especialistas que estudam os textos bíblicos, lêem antigas inscrições encontradas nos arredores de Israel ou escavam sítios arqueólogicos estão reconhecendo a influência conjunta de diversos deuses pagãos antigos no retrato de Javé traçado pela Bíblia.

A idéia não é demonstrar que o Deus bíblico não passa de mais um personagem da mitologia. Os pesquisadores querem apenas entender como elementos comuns à cultura do antigo Oriente Próximo, e principalmente da região onde hoje ficam o estado de Israel, os territórios palestinos, o Líbano e a Síria, contribuíram para as idéias que os antigos israelitas tinham sobre os seres divinos. As conclusões ainda são preliminares, mas há bons indícios de que Javé é uma fusão entre um deus idoso e paternal e um jovem deus guerreiro, com pitadas de outras divindades – uma delas do sexo feminino.

O ponto de partida dessas análises é o fundo cultural comum entre o antigo povo de Israel e seus vizinhos e adversários, os cananeus (moradores da terra de Canaã, como era chamada a região entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo em tempos antigos). A Bíblia retrata os israelitas como um povo quase totalmente distinto dos cananeus, mas os dados arqueólogicos revelam profundas semelhanças de língua, costumes e cultura material – a língua de Canaã, por exemplo, era só um dialeto um pouco diferente do hebraico bíblico.

Memórias de Ugarit
Os cananeus não deixaram para trás uma herança literária tão rica quanto a Bíblia. No entanto, poucos quilômetros ao norte de Canaã, na atual Síria, ficava a cidade-Estado de Ugarit, cuja língua e cultura eram praticamente idênticas às de seus primos do sul. Ugarit foi destruída por invasores bárbaros em 1200 a.C., mas os arqueólogos recuperaram numerosas inscrições da cidade, nas quais dá para entrever uma mitologia que apresenta semelhanças (e diferenças) impressionantes com as narrativas da Bíblia. “Por isso, Ugarit é uma parte importante do fundo cultural que, mais tarde, daria origem às tribos de Israel”, resume Christine Hayes, professora de estudos clássicos judaicos da Universidade Yale (EUA).

Uma das figuras mais proeminentes nesses textos é El – nome que quer dizer simplesmente “deus” nas antigas línguas da região, mas que também se refere a uma divindade específica, o patriarca, ou chefe de família, dos deuses. “Patriarca” é a palavra-chave: o El de Ugarit tem paralelos muito específicos com a figura de Deus durante o período patriarcal, retratado no livro do Gênesis e personificado pelos ancestrais dos israelitas: Abraão, Isaac e Jacó.

Nesses textos da Bíblia há, por exemplo, referências a El Shadday (literalmente “El da Montanha”, embora a expressão normalmente seja traduzida como “Deus Todo-Poderoso”), El Elyon (“Deus Altíssimo”) e El Olam (“Deus Eterno”). O curioso é que, na mitologia ugarítica, El também é imaginado vivendo no alto de uma montanha e visto como um ancião sábio, de vida eterna.

Tal como os patriarcas bíblicos, El é uma espécie de nômade, vivendo numa versão divina da tenda dos beduínos; e, mais importante ainda, El tem uma relação especial com os chefes dos clãs, tal como Abraão, Isaac e Jacó: eles os protege e lhes promete uma descendência numerosa. Ora, a maior parte do livro do Gênesis é o relato da amizade de Deus com os patriarcas israelitas, guiando suas migrações e fazendo a promessa solene de transformar a descendência deles num povo “mais numeroso que as estrelas do céu”.

Israel ou “Israías”?
Outros dados, mais circunstanciais, traçam outros elos entre o Deus do Gênesis e El: num dos trechos aparentemente mais antigos do livro bíblico, Deus é chamado pelo epíteto poético de “Touro de Jacó” (frase às vezes traduzida como “Poderoso de Jacó”), enquanto a mitologia ugarítica compara El freqüentemente a um touro. Finalmente, o próprio nome do povo escolhido – Israel, originalmente dado como alcunha ao patriarca Jacó – carrega o elemento “-el”, lembra Airton José da Silva, professor de Antigo Testamento do Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto (SP).

“É o nome do deus cananeu, mais um indício de que Israel surge dentro de Canaã, por um processo gradual”, diz Silva. Ele argumenta que, se Javé fosse desde sempre a divindade dos israelitas, o nome desse povo seria “Israías”. Isso porque o elemento adaptado como “-ías” em português (algo como -yahu) era, em hebraico, uma forma contrata do nome “Javé”. Curiosamente, o elemento se torna dominante nos chamados nomes teofóricos (ligados a uma divindade) dados a israelitas no período da monarquia, a partir dos séculos 10 a.C. e 9 a.C.

E esse nome (provavelmente Yahweh em hebraico; a sonoridade original foi obscurecida pelo costume de não pronunciar a palavra por respeito) é um enigma e tanto. As tradições bíblicas são um tanto contraditórias, mas pelo menos uma fonte das Escrituras afirma que Javé só deu a conhecer seu verdadeiro nome aos israelitas quando convocou Moisés para ser seu profeta e arrancar os descendentes de Jacó da escravidão no Egito. (A Moisés, Deus diz que apareceu a Abraão, Isaac e Jacó como “El Shadday”.) O problema é que ninguém sabe qual a origem de Javé, o qual nunca parece ter sido uma divindade cananéia, exatamente como diz o autor bíblico.

Senhor do deserto
A esmagadora maioria dos arqueólogos e historiadores modernos não coloca suas fichas no Êxodo maciço de 600 mil israelitas (sem contar mulheres e crianças) do Egito, por dois motivos: a semelhança entre Israel e os cananeus e a falta de qualquer indício direto da fuga. Mas muitos supõem que um pequeno componente dos grupos que se juntaram para formar a nação israelita tenha sido formado por adoradores de Javé, que acabaram popularizando o culto. Quem seriam esses primeiros javistas? Uma pista pode vir de alguns documentos egípcios, que os chamam de Shasu – algo como “nômades” ou “beduínos”.

“Duas ou três inscrições egípcias mencionam um lugar chamado 'Yhwh dos Shasu', o que, para alguns especialistas, parece ser 'Javé dos Shasu'. Talvez sim, talvez não. Não temos como saber ao certo”, diz Mark S. Smith, pesquisador da Universidade de Nova York e autor do livro “The Early History of God” (“A História Antiga de Deus”, ainda sem tradução para o português).

“É menos provável que o culto a Javé venha de dentro da Palestina e da Síria, e um pouco mais plausível que ele tenha se originado em certas regiões da Arábia”, diz Airton da Silva. Mark Smith lembra que algumas das passagens poéticas consideradas as mais antigas da Bíblia – nos livros dos Juízes e nos Salmos, por exemplo – referem-se ao “lar” de Javé em locais denominados “Teiman” ou “Paran”. Aparentemente, são áreas desérticas, apropriadas para a vida de nomadismo. “Muitos especialistas localizam essa região no que seria o noroeste da atual Arábia Saudita, ao sul da antiga Judá [parte mais meridional dos territórios israelitas]”, diz Smith.

Guerreiro divino
Seja como for, quando Javé entra em cena com seu “nome oficial” durante o Êxodo bíblico, a impressão que se tem é que ele já absorveu boa parte das características de um outro deus cananeu: Baal (literalmente “senhor”, “mestre” e, em certos contextos, até “marido”), um guerreiro jovem e impetuoso que acabou assumindo, na mitologia de Ugarit e da Fenícia (atual Líbano), o papel de comando que era de El.

Indícios dessa nova “personalidade” de Deus surgem no fato de que, pela primeira vez na narrativa bíblica, Javé é visto como um guerreiro, destruindo os “carros de guerra e cavaleiros” do Faraó e, mais tarde, guiando as tribos de Israel à vitória durante a conquista da terra de Canaã. Tal como Baal, Javé é descrita como “cavalgando as nuvens” e “trovejando”. E, mais importante ainda, uma série de textos bíblicos falam de Deus impondo sua vontade contra os mares impetuosos (como no caso do Mar Vermelho, em que as águas engolem o exército egípcio por ordem divina) ou derrotando monstros marinhos.

Há aí uma série de semelhanças com a mitologia cananéia sobre Baal, o qual derrotou em combate o deus-monstro marinho Yamm (o nome quer dizer simplesmente “mar” em hebraico) ou “o Rio” personificado. Na mitologia do Oriente Próximo, as águas marinhas eram vistas como símbolos do caos primitivo, e por isso tinham de ser derrotadas e domadas pelos deuses.

Javé também é associado à chuva e à fertilidade da terra pelos antigos autores bíblicos – atributos que aparecem entre as funções de Baal. Há, porém, uma diferença importante entre os dois deuses: outra narrativa de Ugarit fala do assassinato de Baal pelas mãos de Mot, o deus da morte, e da ressurreição do jovem guerreiro – provavelmente uma representação mítica do ciclo das estações do ano, essencial para a agricultura, já que Baal era um deus que abençoava a lavoura.

O lado guerreiro de Javé é talvez o mais difícil de aceitar para a sensibilidade moderna: quando os israelitas realizam a conquista da terra de Canaã, a ordem dada por Deus é de simplesmente exterminar todos os habitantes, e às vezes até os animais (embora, em alguns casos, os homens de Israel recebam permissão para transformar as mulheres do inimigo em concubinas).

Textos de outra nação da área, os moabitas (habitantes de Moab, a leste do Jordão) ajudam a lançar luz sobre esse costume aparentemente bárbaro. Um monumento de pedra conhecido como a estela de Mesa (nome de um rei de Moab em meados do século 9 a.C.) fala, ironicamente, de uma guerra de Mesa com Israel na qual o rei moabita, por ordem de seu deus, Chemosh, decreta o herem, ou “interdito”. E o herem nada mais é que a execução de todos os prisioneiros inimigos como um ato sagrado. Tratava-se, portanto, de um elemento cultural de toda a região.

Lado feminino
Se a “múltipla personalidade” de Javé pode ser basicamente descrita como uma combinação de El e Baal, há uma influência mais sutil, mas também perceptível, de um elemento feminino: a deusa da fertilidade Asherah, originalmente a esposa de Baal na mitologia cananéia. Normalmente, Deus se comporta de forma masculina na Bíblia, e a linguagem utilizada para falar de sua relação com os israelitas é, muitas vezes, a de um marido (Deus) e a esposa (o povo de Israel). Mas o livro bíblico dos Provérbios, bem como alguns outras fontes israelitas, apresenta a figura da Sabedoria personificada, uma espécie de “auxiliar” ou “primeira criatura” de Deus que o teria auxiliado na obra da criação do mundo.

Segundo o texto dos Provérbios, Deus “se deleita” com a Sabedoria e a usa para inspirar atos sábios nos seres humanos. Para muitos pesquisadores, a figura da Sabedoria incorpora aspectos da antiga Asherah na maneira como os antigos israelitas viam Deus, criando uma espécie de tensão: embora o próprio Deus não seja descrito como feminino, haveria uma complementaridade entre ele e sua principal auxiliar.