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Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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quarta-feira, 23 de julho de 2008

"A inquisição não representa a realidade atual", diz secretário da Congregação para a Doutrina da Fé

O jesuíta Luis Francisco Ladaria Ferrer é o número 2 da Congregação para a Doutrina da Fé, no Vaticano

Juan G. Bedoya, El País, em 23/07/2008.

O jesuíta Luis Francisco Ladaria Ferrer será dentro de alguns dias o espanhol mais graduado na Cúria - o governo - do Vaticano, depois da aposentadoria dos cardeais Martínez Somalo e Julián Herranz. Não aparenta. Ele mesmo atende ao telefone em seu escritório na Universidade Gregoriana de Roma e ri com jovialidade, sobretudo quando encontra a maneira de escapar das perguntas complicadas. Não quer entrevistas - já tem uns 400 pedidos antes de tomar posse -, mas responde com generosidade.

De cara, protesta: "Olhe, combinamos que não haveria entrevista", ele mesmo se interrompe. Ri, ri sempre, como se fosse a melhor maneira de aliviar seu novo cargo, o número 2 da Congregação para a Doutrina da Fé. O que acha das palavras "Inquisição", "Santo Ofício" ou mesmo "herege"? Ele responde sério, entre risos: "Você me fala de situações e elementos do passado. Nosso trabalho consiste em promover a justa fé da Igreja. O Santo Ofício ou a Inquisição não representam a realidade atual. Quando me perguntam sobre o dogma, respondo que a misericórdia de Deus, como lembra Dante, tem os braços muito grandes. Esta é a chave: bondade e misericórdia".

Luis Ladaria, nascido em Mallorca em 1944, é a imagem oposta do inquisidor Torquemada, seco e duro como os campos de Castela em agosto, o famoso martelo de hereges com os Reis Católicos.

"Ladaria não vai dizer uma palavra a mais nem vai prejudicar ninguém. É impensável. Ele tem todas as qualidades e conhecimentos para o cargo que lhe deu o papa, mas não vejo como imaginá-lo um inquisidor. É prudente, aberto, inteligente, sério e muito pouco amante das dignidades eclesiásticas. Estou certo de que resistiu muito antes de aceitar o novo cargo", diz Javier Monserrat, companheiro de estudos do novo alto dignitário vaticano.

"É quem o conhece melhor, estudaram juntos também no estrangeiro", afirma Bernardino Seguí, conselheiro da Associação de Ex-alunos de Montesión, o colégio em Palma onde Ladaria estudou.

"Vão fazê-lo cardeal", diziam há algum tempo os amigos de Ladaria. Ele ouvia isso de vez em quando há meses. "Não me passa pela cabeça nem a possibilidade", pensava. E ainda o afirma. Mas vai chegar. No próximo dia 26 será consagrado arcebispo na imponente basílica de São Pedro. É a etapa anterior ao capelo cardinalício.

Javier Monserrat, também jesuíta e professor de psicologia básica na Universidade Autônoma de Madri, não perderá a cerimônia. Eles se conhecem desde meninos, quando Ladaria chegou de Manacor para estudar no colégio Montesión. "Era um aluno muito destacado, o que poderíamos chamar de primeiro da classe. De 25 disciplinas tirava notas de honra em 23."

A Companhia de Jesus, sempre à caça das melhores inteligências para o exército de Deus, logo notou as possibilidades do aluno Ladaria. Tiveram de esperar alguns anos. Ladaria quis se tornar jesuíta desde o colégio, mas seu pai, um médico muito conhecido em Manacor, o convenceu a estudar antes uma carreira civil. Então ele foi para Madri e se formou advogado. Depois ingressou no noviciado dos jesuítas em Aranjuez, mais os estudos de filosofia e teologia na Pontifícia de Comillas.

O passo seguinte foi a ampliação de estudos no estrangeiro, primeiro na Alemanha e finalmente na imponente Pontifícia Gregoriana de Roma. "Estivemos juntos os quatro anos em Frankfurt, estudando teologia. Luis se preparou a fundo em línguas clássicas (grego, latim, hebraico) e se especializou nos estudos históricos e dos santos padres", lembra Javier Monserrat.

Ladaria quase não mudou fisicamente, segundo seus amigos. Alto, muito magro, quase frágil, de pouco comer. E muito trabalhador, sempre estudando. "Lembro dele muito jovem e como um professor que preparava muito bem as classes", diz a arqueóloga Margarita Pintos de Cea-Naharro, que foi sua aluna na Pontifícia de Comillas, em 1971. Hoje preside a Associação para o Diálogo Inter-religioso da Comunidade de Madri. "Lembro dele como muito do Concílio Vaticano II, muito aberto, com uma antropologia teológica muito atual, na qual o homem é o centro", acrescenta Pintos.

Sobre a competência teológica de Ladaria, registrada em cerca de 20 livros, há uma unanimidade assombrosa. Apesar de tudo, alguns teólogos espanhóis, incentivados por bispos mais papistas que o papa, pensaram há anos que Ladaria roçava a heresia em algumas questões doutrinárias fundamentais. "Acreditamos que a explicação do professor Ladaria não consegue estar conforme, por mais que tente, com a doutrina da Igreja", escreveu em 1995 o teólogo José María Iraburu a propósito do livro de Ladaria "Teologia do Pecado Original e da Graça".

Segundo os caçadores de hereges na Espanha, o pecado original é "transmitido a todos por propagação, e não por imitação". "Essa é a doutrina considerada de fé. Pelo contrário, o professor Ladaria, jesuíta, estima que não devemos afirmar que a geração seja formalmente a causa da transmissão do pecado original. A transmissão desse pecado de origem ele a entende não em clave ontológica, mas histórica."

Essas críticas foram citadas nos últimos dias em diversos fóruns. Ladaria não se dá por vencido. Tampouco se considera vigiado. "Ninguém nunca me olhou com o olho esquerdo, como você diz." Ele ri com vontade. "Foi um episódio que passou. Ninguém me disse nada, nem aqui nem na Espanha, do ponto de vista oficial. Houve um pouco de rebuliço, mas nunca me senti visado."

As teses de Ladaria sobre o pecado original corrigiam efetivamente a teoria clássica do grande santo Agostinho, muito dado ao sensacionalismo. Mas finalmente se impuseram em Roma, como na recente correção da idéia do limbo como o lugar onde iam parar os que morriam sem usar a razão e sem ter sido batizados; isto é, um lugar sem tormento nem glória, mas para toda a eternidade. Os amigos de Ladaria crêem que sua competência teológica também nesta matéria é a razão pela qual o papa Ratzinger o quer ao seu lado como policial da doutrina.

"O fato de o senhor ter sido indicado como herege, mesmo por teólogos isolados, demonstra que o papel de vigilante da reta doutrina exige muito tato. Não o assusta seu novo cargo?" "Claro, tenho um certo temor, todos os cargos são uma grande responsabilidade. Sinto-me angustiado. É um cargo que mudará minha vida. Mas confiemos em Deus", diz.

Entre os teólogos contemporâneos admirados por Luis Ladaria - ele cita Yves Congar, Henri de Lubac, Karl Rahner e Hans Urs von Balthasar, nada menos -, alguns foram especialmente incomodados pelo Santo Ofício. "Sempre há suas coisas. Mas não foram graves", responde. Em suas memórias, Congar lamenta-se amargamente. "Sim, sim. Em suas cartas há um poço de amargura, mas aí ficam suas grandes obras", reitera.

A confiança de Norberto Alcover, também jesuíta e maiorquino, na competência e moderação de Ladaria é absoluta. "Passarão por suas mãos as grandes questões teológicas em um momento em que tais questões ardem, porque a teologia católica está imersa em uma relação cada vez mais intensa com a pluralidade cultural e religiosa de nossa sociedade mundial. Sim, o cargo dele tem uma carga tremenda. Ele honrará a todos nós maiorquinos. Não tenho a menor dúvida de que alcançará a púrpura cardinalícia depois de ter servido à Santa Igreja em espírito e verdade", diz Alcover.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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