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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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sexta-feira, 10 de abril de 2009

Índia: “Ter o filho de um dalit é anomalia social”

Revista Época (10/04/2009)

“Ter o filho de um dalit é anomalia social”

Em entrevista a ÉPOCA, a cientista política Nanci Valadares, que prestou consultoria à TV Globo para a novela Caminho das Índias, analisa a trama e conta como funciona na realidade o sistema de castas na Índia.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Por que os brasileiros estão fascinados pela Índia

Revista Época - Edição 563 - 28/02/2009

O Brasil rende-se aos encantos da religião, da estética e do modo de vida indianos. Mas o que há por trás deles?

Página 1: Por que os brasileiros estão fascinados pela Índia

Página 2: Por que os brasileiros estão fascinados pela Índia

Página 3: A onda que vem da Índia

domingo, 7 de setembro de 2008

Onda de violência castiga cristãos na Índia

O Globo, O Mundo, página 49, em 07/09/2008.

Onda de violência castiga cristãos na Índia

Hindus radicais perseguem convertidos ao cristianismo. Muitos mudaram de religião para fugir do sistema de castas

Florência Costa Correspondente
NOVA DÉLHI.
Rajani Majhi, jovem de 20 anos que tomava conta de um orfanato administrado pela Igreja Católica num miserável vilarejo do estado de Orissa — um dos mais pobres da Índia — foi queimada viva por centenas de hindus enfurecidos, em 25 de agosto. A moça tomava conta de 20 crianças dalits (os intocáveis, como são chamados os indianos de castas baixas).

Renegadas desde o nascimento, as crianças são filhas de pais leprosos, que morreram abandonados por falta de tratamento.

Antes de ser morta, Rajani conseguiu salvar os órfãos, mostrando um atalho para a floresta mais próxima. Padre Eddy, de 62 anos, que administrava o orfanato, escapou com vida porque se escondeu após ser atacado pela multidão. Alem de Rajani, outras 15 pessoas foram queimadas vivas por hindus radicais, numa onda de violência contra cristãos que começou no dia 24 de agosto. Na véspera, o líder hindu Lakshmanananda Saraswati, de 84 anos, fora assassinado por 20 homens no distrito de Kandhamal, em Orissa, o que desencadeou os ataques em todo o estado.

Igrejas e conventos atacados por radicais Orissa tornou-se um caldeirão de violência religiosa. A polícia diz que a guerrilha maoísta — que atua na região — cometeu o assassinato. Mas grupos radicais hindus culpam os cristãos pela morte de Lakshmanananda, que promovia uma campanha contra a conversão ao catolicismo de indianos de casta baixa, que buscam fugir do preconceito e da opressão que sofrem dos hindus de castas altas.

— Ele era um santo muito amado porque tinha a habilidade de evitar que as pessoas fossem sugadas por outras religiões.

Os cristãos tinham problemas com ele porque tudo o que querem é a conversão de hindus ao catolicismo — disse Gouri Rath, do grupo hindu radical Vishwa Hindu Parishad.

Centenas de igrejas, orfanatos, escolas, conventos e casas de cristãos foram incendiados.

Cerca de 18 mil cristãos, inclusive freiras e padres, esconderam-se em florestas ou abrigaram-se em campos de refugiados organizados às pressas. Mais de 200 vilarejos em todo o estado foram atingidos pela violência.

Nos últimos dias, o medo fez com que centenas de católicos se reconvertam ao hinduísmo.

— Não queremos voltar para o convento porque temos medo de sermos queimadas vivas. Por isso continuamos refugiadas no meio do mato — disse Irma Ramya, que está escondida com 11 freiras e estudantes cristãs.

Numa rara declaração do Vaticano aos católicos da Índia, o Papa Bento XVI condenou a violência e expressou sua “proximidade espiritual e solidariedade” para com os cristãos. O Papa também apelou às autoridades indianas para que trabalhassem o mais rapidamente possível para “restaurar a coexistência pacífica e harmonia”.

Um dos principais assessores do Vaticano, o cardeal Jean-Lous Tauran disse em entrevista a um diário italiano que vai intensificar seus contatos com líderes hindus para evitar mais violência.

O cardeal, que chefia o Conselho para o Diálogo Inter-religioso do Vaticano, qualificou os ataques de “pecado contra Deus e a Humanidade”. O arcebispo de Bombaim, o cardeal Oswald Gracias, pediu ao governo indiano que envie as Forças Armadas para Orissa para conter a violência e permitir que os católicos voltem a seus vilarejos com segurança.

Quatro dias depois do início dos ataques, a Conferência dos Bispos Católicos da Índia decretou greve em todas as instituições de ensino dirigidas pela Igreja. Um total de 25 mil instituições, segunda maior rede de ensino da Índia, só ultrapassada pela governamental.

A Igreja Católica opera em várias frentes para aumentar seu rebanho na Índia, onde 80% da população segue o hinduísmo. A segunda religião mais numerosa é o islamismo (cerca de 15% da população). Em terceiro vêm os cristãos, com 2,3% (24 milhões de pessoas), sendo que 70% deles são católicos.

Opressão continua mesmo no catolicismo A maioria dos cristãos na Índia é de casta baixa. Mas mesmo rejeitando o hinduísmo eles não conseguiram fugir da opressão das castas altas. O preconceito de castas migrou para o catolicismo também. Assim, há os católicos bramins (casta mais alta do hinduísmo), católicos dalits, e assim por diante. E uns não se casam com os outros.

— Nós, cristãos dalits, esperamos que a partir de agora o Papa olhe mais detalhadamente para a Igreja Católica indiana — disse o padre William Premdas Chaudhary.

Em junho, a Igreja lançou uma versão da Bíblia indianizada. O livro tem 27 imagens com referências ao cotidiano dos hindus e a seus personagens históricos, como o líder pacifista Mahatma Gandhi. Uma das ilustrações mostra Maria vestida com um típico sári, o pano de seis metros que as indianas enrolam no corpo em forma de vestido. José é representado com um turbante e veste a roupa típica dos camponeses indianos: o dhoti, um pano branco amarrado na cintura, que ficou conhecido por ter sido a roupa que Mahatma Gandhi adotou para simbolizar sua proximidade com os pobres.

Segundo Paul Thelakat, portavoz da Igreja no estado de Kerala — um dos principais centros do catolicismo na Índia — o texto da Bíblia permanece o mesmo.

Trechos das escrituras sagradas vedas e upanishads, do hinduísmo, foram modificados e “usados para interpretar os ensinamentos cristãos”.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Tudo muda na Índia, menos a forma como são tratados os pobres


Aqui, no Taj Mahal Palace and Tower, o decano dos hotéis da cidade, o que você pensa a respeito da nova Índia pode depender de sua situação - você pode ser a pessoa que tem o sabonete sendo esguichado em suas mãos, ou a pessoa que está esguichando o sabonete.

Em todos os toaletes masculinos do Taj há um ajudante. Assim que você se aproxima da pia, ele o cumprimenta. Antes que você abra a torneira, ele a abre para você. Antes que você passe o sabão, ele pressiona o dispenser. Antes que você alcance a toalha, ele lhe estende uma. Ao sair, ele o cumprimenta de novo e murmura: "Certo Senhor. Sim Senhor. Obrigado, Senhor".

Ao sair, você sentirá a atmosfera exalando a nova riqueza, pelos automóveis. Dentro dormem os motoristas, muitos deles caindo no sono por trabalhar em turnos de 20 horas, acordando às 6h00 para pegar o trem, levar seus patrões para o trabalho e do trabalho, em seguida para os seus jantares, depois para os drinques, deixando-os em casa à 1 da madrugada e pegando um táxi para voltar para suas habitações.

É 1 da madrugada, e no prédio onde mora o patrão, os saguões de entrada estão cheios de pessoas deitadas. São os servidores e varredores que trabalham dentro durante o dia, mas dormem fora à noite; que limpam os toaletes, mas não se atrevem a usá-las. Eles aprenderam a dormir sobre as frias lajotas, com os moradores do prédio passando por cima deles ao retornar das noitadas regadas a champagne.

A Índia está mudando tão depressa que começa a se parecer com qualquer outro lugar. Os arranha-céus brotam. Cidades incham. Os jovens namoram, bebem, fumam livremente. Mas muitas das pessoas que estão tornando nova a nova Índia - dos corretores de ações às engalanadas socialites- são responsáveis pela preservação de um elemento de certa forma lúgubre do passado indiano: uma tendência a tratar os funcionários contratados como sua propriedade, insultá-los e humilhá-los e ser condescendente com eles, comportar-se como se alguns seres humanos tivessem nascido para servir e outros para serem servidos.

"Os indianos são provavelmente as pessoas menos democráticas, morando na maior e mais plural democracia do mundo," como afirmam Sudir Katar e Katharina Kakar, dois conhecidos estudiosos da cultura indiana, em um livro publicado recentemente, "The Indians: Portrait of a People" ("Os Indianos: Retrato de um Povo").

É compreensível que, em épocas de abundância, os indianos prefiram falar de outras coisas.

Mas se um diretor de cinema em Mumbai se impuser, em breve ele estará falando sobre empregados domésticos. Em uma tentativa de expor as relações entre empregados e servidores na Índia, da mesma forma que "A Cabana do Pai Tomás" mostrou a escravidão americana, Raja Menon fez um novo filme provocativo, retratando a Índia a partir do ponto de vista de um serviçal.

O filme, "Barah Ana", que pode ser traduzido toscamente como "dar troco a menos" está atualmente sendo julgado por júris de festivas em Toronto e Veneza.

Ele conta a história de três pessoas que migram para Mumbai, dos miseráveis lugarejos do norte da Índia. Trabalham como chofer, garçom e guarda de segurança, mandando a maior parte de seus ganhos para casa.

São heróis em suas cidades; mas em Mumbai, são pessoas invisíveis, enfrentando a dureza que é ser um subordinado de outras pessoas em épocas de prosperidade.

Em uma das cenas, uma rica dona de casa, rechonchuda e toda cheia de acessórios Louis Vuiton, circula pela cidade no banco de trás de seu utilitário negro, tagarelando no celular. De repente, o chofer pisa no freio, fazendo a mulher balançar e interromper a conversa.

"A criança que estava mendigando ficou na frente do meu carro," ela explica indignada à sua amiga, em inglês, depois de retomar o telefonema. "E aquele idiota do chofer simplesmente brecou."

Em outra passagem, um guarda de segurança descobre que seu filho está doente e que sem um tratamento que custa US$ 150, ele morrerá. Yadav circula o prédio onde mora pedindo empréstimos de locatários que costumam gastar US$ 40 em pizzas.

Os moradores, grudados em suas televisões, o tratam como um cachorrinho que deve ser enxotado.

Naquela noite, ao se sentar para beber com amigos, ele se vê diante do que significara enterrar um filho. "Por que será", ele se queixa, "que uma pessoa só consegue sentir a própria dor e não a de outros?"

A resposta do diretor é que a Índia tem algo mais profundo que um problema de pobreza.

O país tem, em sua opinião, um problema de "desumanização". Em uma entrevista, ele descreve os empregados e servos da Índia como se fossem "duas espécies diferentes".

A primeira parte do filme faz uma crônica das pequenas humilhações na Índia com um realismo de dar calafrios. A segunda parte prevê a explosão de violentas revoltas em um país cuja elite há muito se tranqüiliza com a idéia de que os pobres irão aceitar estoicamente sua condição.

Menon acredita que tal estoicismo está minguando, em uma época na qual os ricos estão mais visivelmente ricos e os excluídos estão cada vez mais conscientes de sua condição de privações.

Há muito se diz aos pobres que a pobreza é merecida, diz ele. Mas agora eles vêm a riqueza por toda parte, e estão começando a acreditar que a pobreza é circunstancial e pode ser revertida.

"É a aí que os diques se rompem", ele diz, "no momento em que a pessoa sente: 'Não é verdade que o meu lugar é esse'. Um momento desses parece ter ocorrido recentemente, há algumas noites. O filme foi apresentado a um público de indianos jovens, de classe média, representantes da nova prosperidade do país.

Mas um deles, Mitesh Thakkar, um gerente de marketing de 30 anos, chegou com o motorista de táxi que ele costuma contratar, e trouxe diversidade, ao convidar o motorista para assistir ao filme.

Thakkar reagiu como qualquer um reagiria se sua classe social fosse acusada. O filme é bom, "mas toma partido", ele disse: "Talvez existam 70% de pessoas que os tratam mal, mas existem 30% que os tratam bem."

Mas para o motorista do táxi, Javed Ali, o filme tornou-se um clássico no mesmo instante.

"Essa história é a verdade," ele disse. "Mostra tudo que eu penso".

Ali é um trabalhador migrante, de 20 anos, e conhece de perto as humilhações mostradas no filme. Às vezes pessoas tomam seu táxi e recusam-se a pagar; às vezes estão bêbadas e o maltratam; às vezes gritam para ele: "Você não presta."
Depois da projeção, algumas pessoas do público, incluindo Thakkar e Ali, foram jantar. (Pode ter sido influência do filme: jantar com um motorista de táxi na Índia é atravessar uma linha raramente cruzada.)

Os outros participantes do jantar quiseram saber o que Ali, o único pertencente à classe trabalhadora na mesa, achou do filme. Ali respondeu, de forma casual, que sabia de onde vinham os personagens, que compreendeu a ânsia deles por vingança, depois de tantos anos de humilhação.

"Ele disse que quando o motorista seqüestra sua patroa - ele fez a coisa certa," contou Thakkar mais tarde, lembrando-se dos comentários de Ali. "Mesmo que ele tenha sido pego, precisava daquele seqüestro."

Naquela noite, naquela mesa ocupada de forma tão incomum, com parte próspera e a pobre lado a lado, as realidades paralelas da Índia se colidiram de forma uma efêmera e ameaçadora.
Tradução: Claudia Dall'Antonia

domingo, 22 de junho de 2008

Na Índia, a batalha do guru da ioga contra vícios do Ocidente

Na Índia, a batalha do guru da ioga contra vícios do Ocidente

Baba Ramdev é convocado pelo governo, preocupado com estresse e consumo crescente de fast-food, cigarro e bebida

Florência Costa
Correspondente
O Globo, O Mundo, página 42, em 22/06/2008.

NOVA DÉLHI. Baba Ramdev, o mais badalado guru da ioga no mundo, é a mais poderosa arma do governo indiano na guerra contra a fast-food, o álcool e o cigarro. Os vícios conquistaram a classe média indiana (cerca de 350 milhões de pessoas) a partir da liberalização da economia nos anos 90.

Hoje há uma verdadeira epidemia de obesidade, doenças cardíacas, diabetes, entre outras doenças. Segundo o Centro de Estudos de Saúde de Bangalore, até 2010 cerca de 60% dos pacientes com problemas cardíacos do mundo estarão concentrados na Índia.

Doenças relacionadas ao cigarro tiram a vida de 1 milhão de indianos por ano, no país onde 120 milhões de pessoas são fumantes.

Com um cenário tão preocupante, o governo decidiu pedir socorro ao chamado “messias da ioga”. Ele promete, através de seus métodos, uma vida saudável, sem estresse ou doenças.

O acordo foi selado na casa do ministro da Saúde, Anbumani Ramadoss. Os dois vão trabalhar para propagar a ioga.

— A Índia tem um quarto da população infantil mundial. Se essas crianças continuarem comendo fast-food e refrigerante vai ser devastador para o futuro do país, com número recorde de doenças — explicou o ministro, que quer fazer o governo obrigar escolas públicas e privadas a dar aulas de ioga.

Apoio contra o fumo em Bollywood Com o apoio do guru, o ministro da Saúde ganhou aliado poderoso contra estrelas de Bollywood que costumam aparecer fumando nas telas.

Estudo de 2005 mostra que se antigamente apenas vilões fumavam nas telas, hoje, em 70% dos filmes, heróis e mocinhas usam cigarros para mostrar que são independentes e glamourosos.

A milenar ioga já está começando a fazer a cabeça de soldados do Exército indiano e policiais de algumas cidades, que já estão se submetendo ao tratamento de Baba Ramdev para perder peso e ganhar resistência.

Apesar de ter nascido na Índia, a ioga não fazia parte do dia-a-dia dos indianos até a década de 80, trazida de volta pelos ocidentais após a onda hippie dos anos 70.

Mas só recentemente a ioga começou a se fortalecer novamente do país, e de forma intensa.

— A Índia pode se tornar uma potência mundial através da ioga.

A revolução vai começar pela ioga — costuma dizer Baba Ramdev, que treinará cem mil professores para atuar em 600 mil vilarejos rurais, onde está concentrada 70% da população.

A aliança entre Baba Ramdev e o ministro Ramadoss chamou atenção. Os dois tiveram recentemente um bate-boca devido às polêmicas afirmações do guru, que também propaga a medicina alternativa indiana ayurveda (com remédios a base de ervas).

O nó da briga são as pregações de Baba Ramdev contra a medicina, e as polêmicas afirmações de que a ioga pode curar um imenso leque de doenças, de acne até câncer e AIDS.

Baba Ramdev é uma figura polêmica e costuma comprar brigas. Uma parlamentar comunista chegou a acusar sua empresa, de manipulação de remédios ayurvédicos, de usar ossos humanos como ingredientes e também testículos de animais em remédios contra impotência.

Mas a acusação não foi comprovada.

Hoje, o ministro é só elogios ao guru: — Ramdev está fazendo um fantástico trabalho de propaganda e está cientificamente comprovado que a ioga faz bem para a saúde.

O guru indiano já está de olho na vizinha China como novo território para estender seus centros de ioga: —ioga não é religião. Não há melhor alternativa à espiritualidade para um país comunista do que a ioga — justificou o pragmático guru.