Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.
Dissertação de mestrado em Ciência da Religião (PUC-SP)
Data da defesa: 30/08/2007.
Resumo: O reconhecimento das transformações do campo religioso nas últimas décadas, e mais recentemente, o aumento e visibilidade do protestantismo pentecostal, mais conhecido como grupo de evangélicos, e a inserção destes em diversos âmbitos da sociedade brasileira e mais especificamente em instituições e espaços públicos, nos motivou a estudar e tentar compreender como a dinâmica interna das religiões e do cristianismo em geral, configura posturas individuais e coletivas que refletem no âmbito das relações e interações humanas, conflitos e tensões subjacentes a um contexto bem maior e complexo: o eixo ciência-religião. Devido à relevância histórica e a atualidade das questões e controvérsias quanto às explicações da origem do universo, da vida e do homem, a temática deste trabalho vem discutir o grau de conhecimento e adesão às teorias conhecidas como evolucionismo e criacionismo e a forma como são entendidas, interpretadas e, mediadas, por agentes sociais formadores de opinião como, por exemplo, professores e líderes religiosos. Nosso trabalho é, portanto, o resultado dessa pesquisa que investiga a concepção, convicção e a interpretação de jovens secundaristas da classe popular da Grande São Paulo, mais especificamente do município de Guarulhos, quanto à origem da vida e do homem. Tomamos como ponto de partida, a realidade educacional pública, mais particularmente, o ensino de biologia. A pesquisa aponta para a necessidade da conjugação e a convivência de opiniões distintas e conflitantes no âmbito da sala de aula, bem como, para o reconhecimento de um mapa indicativo que reflete elementos constitutivos de adesão e afiliação em ambas esferas e, apontam para uma adesão híbrida que se configura talvez, numa nova forma de ressignificação de identidade fundamentalista em ambos os campos: científico e religioso. Nesse sentido, entendemos que esse confronto ideológico entre evolução e criação, cada vez mais, se consolida, como um elemento de fundamental importância na análise e compreensão de aspectos da sociedade brasileira que muito tem chamado a atenção de educadores e pesquisadores no âmbito das ciências sociais.
Dissertação de mestrado em Ciência da Religião (PUC-SP)
Data da defesa: 27/10/2008.
Resumo: O movimento religioso brasileiro, conhecido como Santo Daime, nasceu na periferia de Rio Branco, estado do Acre, durante a década de 30, do século XX. Fundado pelo maranhense Raimundo Irineu Serra, esse movimento religioso tem como eixo central de sua ritualística a ingestão de uma bebida sagrada conhecida como Santo Daime. Em decorrência de suas peculiaridades e pela sua expansão pelo Brasil e pelo mundo, o Santo Daime se destacou no cenário religioso nacional e internacional. Durante seu processo de formação, foram sendo fundidas e reelaboradas matrizes religiosas das mais diversas, como o cristianismo, o xamanismo amazônico, correntes esotéricas, o espiritismo kardecista e as religiões afro-brasileiras. Considerando a matriz xamânica como a mais importante, boa parte dos trabalhos acadêmicos sobre o tema interpreta o Santo Daime como um movimento xamânico, levando em conta as experiências extáticas dos participantes dos rituais daimistas, as lideranças comparadas aos xamãs e os processos de cura com a bebida sagrada. Entretanto, o que se observa, considerando-se o conjunto doutrinário e de símbolos daimistas, é que existe um eixo central cristão que norteia todo processo de reelaboração simbólica na constituição do Santo Daime. Portanto, mais que um movimento xamânico, o Santo Daime é um movimento cristão, estabelecendo uma forma muito peculiar de seguir os princípios do cristianismo, profundamente influenciada pelas práticas e símbolos do catolicismo popular brasileiro. Neste sentido, o Daime de Guarda, uma categoria particular de utilização privada da bebida sagrada, se aproxima amplamente do culto doméstico aos santos nas práticas católicas populares do Brasil.
O Globo, Caderno Prosa e Verso, página 4, em 27/12/2008.
Painel sobre a (in)coerência da fé
Pesquisa mostra os diversos formatos que a prática religiosa pode ter
A trajetória de nove pessoas, da infância à idade adulta, suas indagações e buscas até encontrar a tradição religiosa na qual se engajaram. As diferentes maneiras de encarar a transcendência e os diversos formatos que a prática religiosa pode ter estão no centro de “O Deus de cada um”, de Waldemar Falcão.
Um pai-de-santo criado no catolicismo acabou se desenvolvendo num terreiro de umbanda; um sheik muçulmano de família católica passou pelo espiritismo e pelo rosa-cruzismo até se envolver com o islamismo; um monge hare krishna deu muitas voltas antes de se dedicar ao hinduísmo; um monge beneditino de origem humilde permanece no catolicismo e desenvolve uma prática de intercâmbio com várias religiões.
Além desses, há também um taxista crente, fiel de uma igreja neo-pentecostalista; um engenheiro de origem judaica que professa o judaísmo; um seguidor do Santo Daime, uma monja zen e uma dona-de-casa dotada de faculdades paranormais. Todos são brasileiros, maiores de idade, conscientes de suas opções e apenas a paranormal preferiu não se identificar.
Waldemar Falcão, autor de um livro de sucesso chamado “Encontros com médiuns notáveis” (Nova Era), não embarca no proselitismo presente na maioria das obras sobre temas espiritualistas.
Em ambos os volumes, ele opta por uma postura discreta, transcrevendo entrevistas e montando-as em formato jornalístico.
Aqui, o leitor está diante de um painel diversificado sobre os motivos que levam alguém a se tornar religioso e as intensas mudanças de credo que isto envolve. O Brasil é um país místico e nele não se busca apenas, na espiritualidade, um amparo para os problemas materiais: há algo mais na construção do deus de cada um e, se por um lado, os agnósticos dizem que a hipocrisia costuma ser sinônimo de religiosidade, por outro o desejo legítimo de desenvolver uma fé e ser coerente com ela transparece na maioria das entrevistas.
É claro que funciona melhor quanto mais rico for o personagem.
O taxista, por exemplo, filho de um birosqueiro numa favela, deu muito duro na feira e não perdeu a ternura: ajuda os (ainda) mais pobres se m segundas intenções.
Seu discurso parece bem próximo da ação e seu depoimento ajuda a entender porque as pessoas se engajam em cultos como os da Igreja Universal.
Nos casos em que o entrevistado prefere não tratar de sua vida pessoal (como o do sheik) o interesse cai bastante, pois estamos diante de preceitos religiosos quase decorados de um livro, quando a proposta desta obra é tratar de histórias de vida.
Em outros momentos, os conflitos que se formam (e muitas vezes são escamoteados) nas instituições religiosas surgem com vigor. É o caso da monja Coen, que mergulhou de corpo e alma no budismo e, pela própria dimensão que adquiriu sua prática, se viu às voltas com a rigidez que permeia uma estrutura hierárquica japonesa. Aí também cabe a indagação: qualquer pessoa que pratique o zen vai vivenciar algo parecido ou isto se deu por conta da própria personalidade de Cláudia Dias Baptista de Souza, a monja Coen? Um dos casos mais curiosos é o da paranormal. Uma mulher de cerca de 50 anos, com poderes de cura intensos e comprovados, faz atendimentos individuais e, ao mesmo tempo, convive com suas capacidades e procura entender suas limitações.
A dúvida e a certeza estão presentes no cotidiano dela.
Não se pode chamá-la de charlatona, mas é preciso entender que sua condição é, talvez, diversa das demais.
Yona Metzger, o rabino-chefe Ashkenazi de Israel, fala com a "Spiegel Online" sobre Abraão como pai de todas as três religiões monoteístas - o islamismo, o cristianismo e o judaísmo - e explica como esta conexão poderia ser um ponto de partida para um diálogo de paz entre elas.
Spiegel Online: Rabino-chefe, os judeus se referem a Abraão como "Nosso Pai Abraão". Quão difícil é para você aceitar o fato de cristãos e muçulmanos também chamarem Abraão de pai deles.
Metzger: Nem um pouco difícil. Isso se encaixa muito bem na religião judaica. Uma análise da palavra "Abraão" revela que é construída a partir das palavras "pai de muitas nações". Logo, se os muçulmanos se associam a Ismael, o filho de Abraão, ou os cristãos se associam ao neto de Abraão, Esaú, ou nos associamos ao seu outro neto, Jacó, então três grandes religiões monoteístas nasceram dele.
Spiegel Online: Qual é a função de Abraão na Bíblia?
Metzger: O grande filósofo judeu Maimonides explicou isso de forma bem impressionante. Deus criou vários objetos no céu. O Sol, por exemplo, a Lua e as estrelas - todos eles bem acima de nós. Isso foi entendido como significando que Deus queria que os respeitássemos mais do que as coisas que foram criadas na Terra. Gradualmente, as coisas se desviaram. Em vez rezar diretamente para Deus, as pessoas transformaram os objetos em alvos de suas orações.
Spiegel Online: Eles adoraram ídolos.
Metzger: Quando Abraão chegou, ele viu o Sol nascer, se pôr e o mundo girar e pensou, quem está causando todo este movimento? É preciso haver alguém acima disso tudo. Então, ele basicamente disse: "Vocês pararam na metade do caminho. Há alguém acima desses objetos que vocês adoram! Então por que procurar os ministros? Vamos diretamente ao rei". E então ele iniciou uma jornada que tocou muitas pessoas. Juntamente com sua esposa, Sara, ele viajou de um lugar para outro e desenvolveu a filosofia da crença no Deus único. De forma lenta, mas certa, muitas pessoas se reuniram ao redor dele e, hoje, grande parte da população do mundo é monoteísta: cristãos, muçulmanos, judeus...
Spiegel Online:...3,5 bilhões de pessoas...
Metzger: Talvez até mais. Eu me reuni com líderes da religião hindu, que eu tinha certeza que eram adoradores de ídolos, mas seus líderes disseram que também acreditam em Deus - apenas que chegam até Ele através dos ídolos. E alguns budistas disseram que o Buda é apenas uma visão de mundo, não uma crença religiosa. Nós vemos que grande parte do mundo realmente segue o caminho de Abraão.
Spiegel Online: Mas é possível ter a sensação de que os judeus se consideram os originais e que os cristãos e muçulmanos são apenas "cópias".
Metzger: Bem, do ponto de vista histórico foi assim. Jesus foi um judeu. Posteriormente o cristianismo veio ao mundo e depois o Islã. Esses foram os passos, historicamente - não o inverso. Quando Jesus foi para Jerusalém, ele não estava familiarizado com a igreja ou com a missa - certamente. Ele só conhecia uma coisa: o Templo Sagrado. Após o tempo dele, o restante foi desenvolvido por seus discípulos.
Spiegel Online: Mas os cristãos destacam que Abraão acreditava em Deus antes de ser circuncidado e de fato se tornado judeu.
Metzger: Abraão não teve rabino, não teve professor. Ele aprendeu a lei com seus kishkes, como dizemos em iídiche, "com seus próprios rins". Isso quer dizer, ele aprendeu por conta própria. É interessante notar que a Torá chama Abraão de Ivri, "um hebreu".
Spiegel Online: É importante para você se Abraão foi de fato um personagem histórico real? Historiadores e arqueólogos não encontraram qualquer prova clara de que Abraão existiu.
Metzger: Eu acredito plenamente que a Bíblia representa a verdadeira história do mundo. Quando historiadores ou arqueólogos encontram provas, ficamos contentes, mas não precisamos delas.
Spiegel Online: Quando se olha pelo ponto de vista histórico, muito sangue foi derramado em nome da religião. Como um diálogo pode ser conduzido entre as religiões?
Metzger: Veja, Abraão especificamente é de muita ajuda em relação ao diálogo - e vou lhe dar um exemplo. Certa vez eu me encontrei com um líder iraniano. Ele era um dos chefes dos aiatolás. Inicialmente, ele não quis apertar minha mão, mas no final eu me virei para ele e perguntei: "Você acredita que seu antepassado era Abraão?"
Spiegel Online: Ibrahim, como os muçulmanos o chamam em árabe.
Metzger: Sim, Ibrahim. E ele respondeu: "Sim". Eu disse a ele que também acredito que meu pai era Abraão. Então lhe perguntei: "Você acredita que nosso antepassado ficaria satisfeito hoje -lá no céu- ao ver um de seus filhos se matando para matar outro de seus filhos? Que pai ficaria contente com algo assim?" Ele não soube responder.
Spiegel Online: Então Abraão poderia servir como veículo para um diálogo?
Metzger: Sim. Mesmo que você tenha um irmão que acredita não ser uma boa pessoa e pensar que o mundo precisa ser muçulmano -não mate! Se quiser, fale, coloque o assunto na mesa e seja culto. Como qualquer pai, Abraão esperaria que seus filhos se sentassem à mesa em vez de se matarem.
Spiegel Online: Você pode dar outro exemplo de diálogo?
Metzger: Durante um recesso, em uma conferência que ocorreu na Europa, um dos chefes dos Tribunais Muçulmanos na Jordânia me convidou para tomar uma xícara de café no lobby do hotel. Nós nos sentamos por cerca de meia hora. Eu comecei a lhe falar sobre alguns dos meus problemas; eu lhe falei sobre minha família, meus filhos, algumas questões envolvendo os rabinos e os rabinos-chefes abaixo de mim e as responsabilidades que tenho. Ele me falou sobre seus problemas. E no final ele se levantou, apertou minha mão e me disse: "Agora, após você ter me contado todas as suas histórias, e após eu ter lhe contado todas as minhas, eu não posso odiar você".
Spiegel Online: O senhor acredita que pessoas religiosas estão melhor equipadas para conduzir o mundo à paz?
Metzger: Certamente. Meu sonho é criar uma Nações Unidas Religiosa - assim como existe a Organização das Nações Unidas em Nova York. Os diplomatas não tiveram sucesso em conduzir o mundo à paz. Eles precisam de ajuda. E isto pode vir por meio da linguagem religiosa. Porque um muçulmano não respeita uma pessoa secular; ele só respeitará se você for religioso. Estas Nações Unidas Religiosa também incluiria hindus e budistas. Nós religiosos falamos a mesma língua.
Resumo: Primeiramente a pesquisa se concentrou de maneira aproximativa e panorâmica nos símbolos religiosos das religiões primitivas, dando uma explanação para compreensão religiosa nos primeiros estágios da humanidade. Em seguida a pesquisa concentrou-se no universo simbológico dos sistemas judaico e cristão. Dissertando sobre a simbologia básica nas duas tradições religiosas, bem como esquadrinhou sua evolução simbológica, por meio de referencias antropológicas e filosóficas. Por fim a pesquisa demonstrou claramente a presença do judaísmo em solo cristão. Conferindo ao cristianismo sua notória autonomia, porém com bases evidentemente judaicas.
Palavras Chave: Símbolos Religiosos, evolução simbólica, judaísmo e cristianismo.
Mais de um quarto dos professores de ciências das escolas públicas da Grã-Bretanha acredita que o criacionismo deveria ser ensinado com a Teoria da Evolução nas escolas, de acordo com uma pesquisa realizada com profissionais do ensino fundamental e médio do país. Foram ouvidos 923 docentes e outros 65% discordaram da inclusão das explicações religiosas para a origem do Universo no currículo escolar. >>> Leia mais em O Estado de São Paulo, em 24/12/2008.
O Estado de São Paulo, em 16/12/2008: JERUSALÉM - Não mais que 29 mil quilômetros quadrados de terra árida, espremida entre Egito, Jordânia, Líbano e Síria, resumem 4 mil anos de história da humanidade. Um trecho que guarda as pegadas de Abraão, patriarca das três grandes religiões monoteístas. Onde Davi ergueu seu reino e Jesus Cristo nasceu, pregou e foi crucificado.
A fé atrai a maioria dos 2,8 milhões de visitantes - cristãos, judeus ou muçulmanos - que chegam ao país a cada ano. Uma rota religiosa que rasga Israel de norte a sul, distância que pode ser percorrida em seis horas ou em toda uma vida. >>> Leia mais, clique aqui.
Gustavo Chacra, em 25/12/2008: Judeus e muçulmanos não têm Natal. Para quem vive no mundo árabe ou em Israel, não é um grande problema. A Universidade Hebraica de Jerusalém tem aulas normais nos dias 24 e 25 de dezembro. Bancos e lojas abrem em países como a Arábia Saudita. A data que, segundo a tradição, marca o nascimento de Jesus é quase um dia como outro qualquer. No caso israelense um pouco menos, devido ao enorme número de turistas que vão passar o Natal em Belém e Jerusalém.
Já quem não é cristão e vive em países como o Brasil deve se sentir um peixe fora da água. Uma criança judia ou muçulmana em uma escola de São Paulo que não seja religiosa deve sem dúvida questionar muito os pais quando chega em casa. "Por que eu não recebo presente de Papai Noel?", "Por que não tem árvore de Natal aqui em casa?" são algumas das perguntas que elas devem fazer.
Os americanos perceberam o sentimento de isolamento de comunidades não-cristãs durante o Natal e começaram a tomar algumas medidas. No fim do ano, em vez de desejar "Merry Christmas" (Feliz Natal), os americanos dizem "Happy Holidays" (bom feriado ou boas festas). Em muitos prédios de Nova York, uma Menorah (candelabro) é colocada ao lado da árvore de Natal para celebrar o feriado judaico do Hanukkah, que cai mais ou menos nesta época do ano.
No Brasil e no Líbano, sei de famílias muçulmanas menos religiosas que trocam presentes e enfeitam árvores no Natal como se fosse uma festa familiar, não religiosa. Algumas comunidades islâmicas brasileiras chegam a organizar festas juninas
Quem disse que Papai Noel é o único que tenta descer pela chaminé durante a temporada de festas? Segundo a mitologia grega, um bando de espíritos semelhantes a duendes está tentando penetrar nas casas - em vez de presentes, eles estão decididos a deixar um rastro de destruição.
Como dizem os gregos, não seria difícil confundir os Doze Dias do Natal com os 12 dias do inferno. Isto é, se você acreditar nos Kallikantzaroi.
Esses espíritos míticos, semelhantes a duendes, surgiriam entre o nascimento de Cristo e a Epifania, em 6 de janeiro, dias que eles dedicam a causar um caos incomparável. John Tomkinson, autor de "Haunted Greece: Nymphs, Vampires, and other Exotica" [Grécia assombrada: ninfas, vampiros e outros seres exóticos], compara o comportamento deles com "... torcedores de futebol bêbados saindo de um bar".
E a descrição é adequada aos seus costumes vulgares: "Os Kallikantzaroi causam confusão, intimidam as pessoas, urinam nos canteiros, estragam comida, derrubam coisas e quebram móveis", disse Tomkinson.
As opiniões diferem sobre a aparência deles, por causa da imaginação ativa e da antiga distância entre as regiões da Grécia, separadas por muitas montanhas e os vastos mares da nação helênica. Em conseqüência, alguns dizem que os Kallikantzaroi se parecem com seres humanos de pele escura, muito altos e feios, que usam tamancos de ferro. Outros dizem que eles são baixos e morenos, com olhos vermelhos, cascos de bode, braços de macaco e corpos peludos. Existe outra escola de pensamento que os descreve como mancos, vesgos e idiotas. Eles sobrevivem com uma dieta de vermes, sapos e cobras.
Durante a maior parte do ano os Kallikantzaroi vivem nas profundezas da terra, mas saem durante os Doze Dias do Natal, aventurando-se sob a cobertura da noite.
Os visitantes não convidados e festivos entrariam nas casas pela chaminé ou, mais ousadamente, pela porta da frente. E, surpresa, as famílias gregas se esforçam para afastar esses monstrinhos. Algumas usam a precaução legendária de uma faca de cabo preto. Outras se defendem pendurando a queixada de um porco atrás da porta da frente ou dentro da chaminé. "É o que é preciso ter durante o Natal", disse Tomkinson. "Não me pergunte por quê."
Pendurar um feixe torcido de linho na porta da frente tende a confundir os Kallikantzaroi, que param para contar as linhas, tarefa demorada que os mantém ocupados até o sol nascer.
O fogo é outro dissuasor: muitas casas mantêm o fogo aceso na lareira durante toda a temporada. A fumaça afastaria os Kallikantzaroi da chaminé. Na véspera do Natal, o patriarca da família atira no fogo um grande tronco de uma árvore espinhosa, como uma pereira ou cerejeira silvestres. Esse tronco de Natal é conhecido como "skarkantzalos", de Kallikantzaroi.
Às vezes se queima um velho sapato, pois o mau cheiro do couro queimado aumenta o efeito repelente. Um punhado de sal, que faz as coisas estalarem, também assustaria as feras.
E os gregos nascidos no dia de Natal correm um risco especial. Isso pode ser considerado uma tentativa de superar Cristo, e a criança pode se transformar em um Kallikantzaroi - a menos que a mãe amarre o bebê com alho.
O dia de Natal também é um grande dia de fogos. Os gregos atiram no fogo grãos de trigo ou as folhas verdes de oliveira ou nogueira. O modo como eles se incendeiam prevê se uma pessoa vai sobreviver ao próximo ano e se essa pessoa deixará sua aldeia.
Nos últimos anos, a árvore de Natal ganhou popularidade em toda a Grécia. Mas alguns gregos preferem a moda antiga, optando por um ramo de manjericão pendurado sobre uma tigela cheia de água. Uma vez por dia alguém da casa, geralmente a mãe da família, usa o ramo para espirrar água por toda a casa, para afastar as criaturas.
Mas a única cura realmente confiável é quando padres da aldeia abençoam as águas na véspera da Epifania, que marca o fim dos Doze Dias do Natal. Eles costumam visitar as casas para borrifar água benta perfumada com manjericão para afastar os maus espíritos durante o ano novo.
Na véspera da Epifania em Chipre, os aldeões atiram panquecas sobre o telhado para dar aos Kallikantzaroi algo doce para comer enquanto eles se preparam para deixar a cidade, talvez para mostrar que não ficaram magoados.
Aikaterini Polymerou-Kamilaki, diretora do Centro de Pesquisa Folclórica Helênica em Atenas, diz que os Kallikantzaroi continuam populares em toda a Grécia atual, mesmo nas cidades. Mas hoje em dia eles são relegados a simples mitos - não são mais as feras temíveis que vagam à noite, não se acredita mais que sejam reais.
"Desde a introdução da eletricidade até nas menores aldeias não há mais motivos para alguém ter medo de sair à noite", diz Polymerou-Kamilaki. "Há luzes em todo lugar hoje, e não apenas a noite escura."
Mas mesmo assim dá vontade de dormir com a luz acesa.
Para psicólogo que trabalha sob óptica da evolução, crença em Deus promove ajuda mútua, mas só em certas condições.
O GRANDE conflito opondo ideologias laicas e religiosas hoje está na biologia, com o movimento criacionista tentando impor às escolas o ensino de conceitos do Gênesis bíblico como alternativa à teoria de Darwin. Um grupo de psicólogos que trabalha numa frente menos conhecida, enquanto isso, cria controvérsia por outro motivo: eles tentam usar a evolução para explicar por que a religião surgiu. Segundo o canadense Azim Shariff, porém, é justamente porque ela promove o bem.
Em parceira com o psicólogo Ara Norenzayam, Shrarif publicou neste ano um estudo na prestigiosa revista "Science".
Os dois defendem a teoria de que a religião surgiu em sociedades humanas arcaicas porque promove a cooperação dentro de grupos de pessoas.
Experimentos comportamentais, porém, mostram que isso ocorre mais apenas quando o ato altruísta contribui para a reputação das pessoas. Em entrevista à Folha Shariff falou sobre seu trabalho.
FOLHA - Best-sellers como os do jornalista Christopher Hitchens e do biólogo Richard Dawkins apontam a religião como fonte de conflito. Seus estudos, porém, indicam que a crença religiosa dá vantagem evolutiva a grupos humanos, porque incentiva a cooperação. O que acontece, então, é justamente o oposto?
AZIM SHARIFF - Eu não diria que é o oposto. Hitchens e Dawkins estão adotando um ângulo uniformemente negativo sobre religião. Se você procura algo mais próximo da verdade, será mais equilibrado. Obviamente, não vai descobrir que a religião é uma coisa totalmente boa, da mesma forma que ela não é totalmente ruim. Nós mostramos que ela promove algum bem, mas apenas quando condições específicas são cumpridas.
Nossa pesquisa em geral causa reação de desapontamento tanto entre pessoas contra quanto a favor da religião, porque ela não diz que ela é má, como Hitchens, e não diz que a religião é boa, como aqueles que pregam suas religiões. Nós descobrimos, de fato, que a religião incentiva o comportamento pró-social, mas não pelas razões que as pessoas religiosas gostariam de acreditar.
FOLHA - Vocês citam estudos mostrando que o comportamento cooperativo, pró-social da religião, existe mais quando o altruísmo ajuda a melhorar a reputação da pessoa. Isso revela algo cínico ou egoísta?
SHARIFF - Sim, mas as as razões conscientes que temos para nossas ações pró-sociais são muito limitadas. Não temos acesso total às nossas próprias motivações. As pesquisas das ciências cognitivas sobre moral apontam que normalmente agimos por motivos egoístas. Humanos são feitos assim.
Normas culturais não existem por motivos egoístas, mas são egoístas da perspectiva do grupo. Qualquer ação nossa é motivada em certa medida por auto-interesse. O fato de a religião cooptar esse auto-interesse não a torna pior do que qualquer outra motivação que tenhamos para fazer o bem.
FOLHA - Seu estudo dá a entender que a crença em um Deus moral e capaz de punir foi boa no passado porque ajudou sociedades com uma espécie de "vigilância" em prol da cooperação. É isso que aconteceu?
SHARIFF - Sim, essa é a teoria que estamos trabalhando. Antigamente, nas sociedades humanas, quando não havia grandes sistemas judiciários, a vigilância era limitada. As pessoas tinham que monitorar a reputação de todas as outras, e era muito mais fácil para os trapaceiros evitarem ser pegos. O que a religião fez foi "terceirizar" toda essa vigilância para um ser onisciente, que poderia vigiar e punir todo mundo. A partir de então, as pessoas não trapaceariam, ou seriam incentivadas a não fazê-lo, porque não teriam como escapar de Deus da mesma forma que escondiam suas trapaças das pessoas comuns.
FOLHA - Como a psicologia evolutiva busca evidências para saber o que aconteceu no passado, já que não pode viajar no tempo para saber como as pessoas pensavam?
SHARIFF - É verdade que as alegações em psicologia evolutiva são difíceis de comprovar. O que tentamos fazer é usar evidências de diversas outras áreas da ciência. Nós combinamos psicologia social experimental moderna com evidências antropológicas que analisam como os grupos desenvolveram crenças e rituais no passado, e se isso contribuiu para sua durabilidade.
Nós argumentamos que sociedades que adotam crenças em deuses poderosos costuma ser maiores, e duram mais, você precisa olhar para a história e ver se ela apóia essa tese. E ela suporta, porque você pode generalizar isso para todos os grupos ao longo do tempo. Um estudo que mencionamos é sobre comunidades laicas e religiosas nos EUA. Descobrimos que em comunidades religiosas, costuma durar mais do que as comunidades laicas.
Olhando o registro histórico, também vemos que grupos que enfrentaram desafios para estabelecer a colaboração próxima são mais propensos a adotar crença religiosa, o que facilita esse tipo de cooperação.
FOLHA - Cristianismo, islamismo e judaísmo cresceram por possuírem essas características?
SHARIFF - Absolutamente, sim. Mesmo com a maioria das religiões do mundo não possuindo esses grandes agentes punitivos, as religiões que o possuem têm a maioria dos fiéis. Parte disso é pelo modo como elas funcionam. Há outras coisas sobre o cristianismo e o islamismo, é que são religiões profetizantes, com iniciativas de disseminação missionária que as permitem crescer mais rapidamente do que outras religiões. É um processo de evolução da religião. Hoje nos EUA partes do cristianismo estão mudando de acordo com as novas condições sociais em que se encontram.
Veja, por exemplo, o catolicismo, que sempre teve boa parte de sua sustentação em rituais, em um Deus particularmente rigoroso e no medo do inferno.
Essas coisas estão mudando na para coisas mais alegres e em um Deus mais amável. A razão para isso acontecer é que os deveres punitivos da religião não pertencem mais ela, devido aos grandes sistemas judiciais seculares que existem hoje. E com as religiões se tornando mais legais com as pessoas, seu poder de disseminação aumenta ainda mais.
FOLHA - Quando vocês explicam religião pela seleção natural, o que está sendo selecionado é o comportamento das pessoas ou as características genéticas que as tornam mais propensas à crença?
SHARIFF - Eu não acredito que a seleção genética seja especialmente forte no que se refere à disseminação das religiões. O que acredito é que exista um processo de co-evolução entre genes e cultura. Inicialmente você tem seleção cultural nessas religiões. Alguns estudos argumentam que pessoas religiosas costumam ter mais filhos, mas eu não acredito que haja evidências suficientes favoráveis a isso ao longo da história.
FOLHA - Alguns sociólogos dizem que o cristianismo lançou as bases morais para o capitalismo. O consumismo desenfreado com presentes de Natal é hoje um sinal disso?
SHARIFF - Li algumas coisas a esse respeito, mas nunca estudei religiões sob aspecto da economia de mercado. É claro que o Natal é um grande negócio. Se, de fato, ele estimula as pessoas a se tornarem mais ligadas a suas religiões, talvez elas fiquem mais generosas. As pessoas realmente dão presentes às outras no Natal, mas dizer quando isso ocorre por generosidade ou por uma cultura de comercialismo já é mais difícil.
FOLHA - Cientistas têm reagido vigorosamente à intromissão da religião no ensino de biologia, o criacionismo. Religiosos, em contrapartida, podem questionar aquilo que vocês estão fazendo: usar ciência da evolução para explicar a religião?
SHARIFF - Sim. A idéia de olhar para a religião com uma óptica científica é uma coisa que deixa iradas muitas pessoas religiosas mais fundamentalistas. E o fato de estarmos usando para isso os processos darwinísticos, em particular, pode torná-las duplamente iradas. É compreensível que elas fiquem assim, mas isso faz parte do fato de que nós, psicólogos, tentamos explicar o comportamento humano para os humanos. É como se disséssemos "nós sabemos por que você está fazendo isso melhor do que você mesmo sabe". E o fato de que tratamos especificamente de religião certamente incomoda mais.
Tornar a religião um objeto das ciências naturais, não é uma coisa com a qual as pessoas religiosas se sentem confortáveis. Mas não podemos deixar isso nos afetar. Temos que tentar nos comprometer com a verdade o máximo possível. Não tentamos suavizar nossa linguagem, mas não temos uma agenda específica de ateísmo a cumprir.
FOLHA - Você tem recebido muitas cartas com ofensas?
SHARIFF - Eu não diria que são muitas. Nós recebemos um bocado de reações negativas por parte de pessoas religiosas, mas muitas pessoas não-religiosas reagiram negativamente também. O que achei interessante foi a reação da mídia, que costuma descrever nosso estudo ou como totalmente pró-religião ou como totalmente contrário.
FOLHA - Como surgiu seu próprio interesse em psicologia da religião? Você é religioso ou nasceu eu uma família religiosa?
SHARIFF - Fui educado como muçulmano, mas perdi meu interesse em religião quando era adolescente. Quando cursei a graduação é que meu interesse em religião ressurgiu. O que acho que foi bom, e que me permitiu permanecer mais neutro em relação ao assunto, é o fato de que eu não tive um interesse especial em religião antes. Eu não amava religião mas também não a desprezava.
FOLHA - Você acha que a religião serve como parte da explicação para os conflitos no Oriente Médio? Em seu estudo você diz que a religião favorece cooperação dentro de grupos mas não entre um grupo e outro?
SHARIFF - O que acontece é que hoje esses grupos de pessoas acabam tendo contato um com outro muito mais freqüentemente. No passado, talvez uma pessoa só encontrasse alguém de uma religião diferente duas ou três vezes na vida. Mas hoje, especialmente em lugares religiosamente diversos como o Oriente Médio, isso ocorre muito mais, o que gera muito mais tensão.