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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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terça-feira, 29 de abril de 2008

Religião de mercado e exclusão

Autor Luiz Alexandre Solano Rossi


Um discurso teológico que estabelece a prosperidade e a vitória como sinal irrefutável da presença de Deus numa sociedade marcada acentuadamente pela pobreza, sofrimento e derrota, possui alguma relevância como discurso teológico para as igrejas?

O discurso que estabelece o espaço da vitória e, por conseguinte, da prosperidade como ambiente fundamentalmente divino não é uma concepção nova na história. A identificação da vitória com a verdade e a justiça alinhados ao lado dos que dominam pode ser encontrado, por exemplo, em Flavio Josefo quando narra o pronunciamento do general Agripa aos judeus numa tentativa de dissuadi-los a iniciar uma guerra contra o Império Romano:

Pois todos os que vivem debaixo do céu temem e honram as armas dos romanos, quereis vós fazer-lhes guerra? (...) Pois a quem tomareis por companheiros para a guerra? (...) Pois não há outra ajuda nem socorro senão o de Deus; mas a este também os romanos o têm, porque sem sua particular ajuda seria impossível que o império tal e tão grande permanecesse e se conservasse (Josefo, F. Las guerras de los judios. Tomo I, Barcelona:Clie, 1988, p. 258-260).

Estamos acostumados a pensar a partir da lógica dos vencedores e da vitória. Todos aqueles que morrem antes do tempo por causa da pobreza ou ainda de alguma doença facilmente curável é porque já estavam fadados à derrota. São vítimas porque são derrotados. São derrotados porque o Deus da vitória não se encontra ao seu lado. Nessa lógica, Deus se encontra ao lado daqueles que são vitoriosos em meio à uma multidão de derrotados. Essa parece ser a chave hermenêutica utilizada por Franz Hinkelammert quando, ao analisar o Messias de Handel sendo cantado pela primeira vez em Londres, associa-o também às tropas inglesas em marcha para a conquista da Índia. O messias caminha a passos largos para dominar as forças pagãs da Índia. Mas como bem conclui Franz (1995:158) "Jesus também estava na Índia, e todavia não estava ao lado desse Messias".

O próprio Deus passa a ser representado a partir da lógica daquele que detém o domínio sócio-econômico- político. A partir dessa leitura fundamental todas as outras leituras passam a ser consideradas inoportunas e heréticas. Nessa representação Deus sempre é exteriorizado como representante do rico, do dominador e do vitorioso. Agora, tanto o céu quanto a terra passam para o controle dos ricos e dominadores. Suas portas são severamente vigiadas e não é possível a entrada de qualquer um. A vítima deixa de ter direitos no céu como na terra. E a diminuição de seus direitos na terra é o mais justo reflexo da realidade celestial. Conseqüentemente, Deus não está mais ao lado dos pobres e excluídos. Ao contrário, está contra!

Estamos, portanto, diante de uma sociedade de mercado que produz uma religião de mercado. Sociedade e religião excludentes de ampla maioria de pessoas que se vêem derrotados e excluídos na sociedade de consumo. Mas, derrotados que não se calam. A partir das vítimas se questiona todo o edifício que o mercado está construindo e as relações sociais que está disseminando e impondo a todos. Certamente, são relações sociais vitimatórias e excludentes; são excludentes das grandes maiorias e produtoras de morte; negam a participação e o direito à vida para todos e não se orientam pelas necessidades da vida humana. As leis do mercado são vistas como leis que devem ser seguidas a qualquer custo. Leis religiosas. Leis consagradas.

Leis de Deus. Assim, qualquer realização da vida passa necessariamente pelo mercado. A vida passa a ser legitimada como verdadeira a partir do mercado. Fora do mercado não há possibilidade de vida e, portanto, de salvação. Por isso, quem não se ajusta é naturalmente excluído.

O sujeito excluído e sacrificado o é por imposição das leis de mercado. Não o é simplesmente porque se apresenta como pecador. Nas palavras de Hinkelammert (1995:139) "o sujeito sacrificado é transformado no indivíduo, que já não conhece salvação fora do mercado. Não tendo valor o ser humano como sujeito, não tem direitos a não ser no e através do mercado...Quando é vítima do mercado, é declarado culpado".

Na lógica da teologia do mercado não há espaço para a reivindicação da emancipação humana; uma reivindicação que requer a humanidade que lhe é constantemente negada pelo mercado. Sem dúvida, uma lógica do mercado. Nenhuma vítima pode ser autônoma. A vítima que postula a autonomia deixa de ser vítima. A vítima que deixa de ser vítima abandona o espaço da exclusão e requer a sua própria subjetividade e assim exige ser chamada de "ser humano". Ora, a partir do momento que a vítima encontra a sua humanidade, o mercado se encontra num espaço perigoso onde se sente pressionado e ameaçado. A emancipação humana passa a ser vista como um Lúcifer "quer ser como Deus e, ao querê-lo, transforma-se a si mesma em monstro demoníaco. Toda emancipação humana é apodada de luciférica". Temos, conseqüentemente, a absolutização do caos como elemento natural e constitutivo da sociedade. Natural são as leis do mercado que existem desde "antes da fundação do mundo". Assim, é tão natural que exista a vítima quanto é natural a existência do progresso. São vítimas necessárias para tornar possível um progresso. O sistema de normas que hoje se impõe à sociedade favorece o progresso. Para esse sistema tudo o que favorece o progresso é bom e necessário. Mas é necessário observar que a condição de vida que melhora não é a das vítimas, e sim das classes dirigentes. A porta de entrada para o progresso é rigidamente controlada pelo mercado. Somente entra quem tem condições de pagar.

Faz-se necessário uma mudança na maneira de visualizar a questão. Essa mudança pode muito bem ser iniciada por um jogo de perguntas muito bem colocadas por Moltmann. Diz ele que numa sociedade desestruturada socialmente, onde os sinais de miséria estão espalhados cronicamente por todos os lados a pergunta que se faz é basicamente a seguinte: "como Deus pode permitir isso?". Mas essa é a questão levantada a partir de um ângulo distorcido e unilateral. É a pergunta de quem assiste passivamente a morte de seus semelhantes; penalizado, sim; todavia, passivamente. Contudo, Moltmann (1997:33) propõe uma nova pergunta; esta sim a partir das vítimas e que lança um novo olhar sobre a realidade: "onde está Deus?". Pergunta da vítima que procura compreender Deus não a partir da vitória dos que a produziram. Ao contrário, esse questionamento sugere a compreensão de uma nova dimensão existencial, qual seja, a comunhão da divindade no sofrimento da vítima; comunhão solidária entre as vítimas produzidas pelo mesmo ambiente social de caos e de degradação humana; vítimas que se multiplicam; vítimas cada vez mais numerosas e cada vez mais pobres.

Bibliografia
HINKELAMMERT, F. Sacrifícios humanos e sociedade ocidental: lúcifer e a besta. São Paulo, Paulus, 1995.

MOLTMANN, J. Quem é Jesus Cristo hoje? Petrópolis: Vozes, 1997.

Extraído de:
Revista Espaço Acadêmico, número 58, março de 2006.

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