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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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sábado, 14 de março de 2009

'As religiões monoteístas são a raiz do mal'

O Globo, Caderno Prosa e Verso, pág.2, em 14/03/2009.


'As religiões monoteístas são a raiz do mal'


Poeta sul-africano critica condição feminina nos países árabes e diz que em nome da tolerância 'aceitamos o inaceitável'


ENTREVISTA Breyten Breytenbach


Nos anos 60, o escritor, poeta, dramaturgo e pintor Breyten Breytenbach lançou um movimento clandestino de resistência ao apartheid — Okhela — que lhe custou anos de prisão.


Escapou por pouco da pena de morte. Na prisão, escreveu livros autobiográficos como “The True Confessions of an Albino Terrorist” (1983). Muitas de suas poesias são escritas em africânder, língua derivada do holandês e falada sobretudo na África do Sul e na Namíbia.


Hoje, aos 70 anos, Breytenbach — que divide seu tempo entre África do Sul, Nova York e Paris — vê seu país com um olhar crítico: em várias entrevistas ele repete que a revolução que a África do Sul viveu com o fim do apartheid parou e é uma obra inacabada. Seu último livro, “L’Empreinte des pas sur la terre”, é um olhar irônico de seu próprio papel na resistência ao apartheid. Em entrevista ao GLOBO, em Dubai, um lugar povoado por mulheres com véus, ele se mostra um critico implacável da condição feminina nos países árabes.


O GLOBO: Viu-se no festival duas formas bem distintas de fazer poesia. O senhor acha que houve um diálogo entre os poetas daqui (Golfo Pérsico) e vocês?

BREYTEN BREYTENBACH: Não. Ainda não. Eu lamento. É urgente conseguirmos isso. Discutimos entre nós que era preciso deixarmos nossos quartos e ir escutar os outros.

O mais útil de um festival de poesia é o encontro entre as pessoas. É aí (no encontro) que a verdadeira questão se levanta: o que você faz, como você vive, o que é ser poeta no Brasil comparado com um poeta em Abu Dabi (um dos emirados dos Emirados Árabes Unidos)?


Como fica a questão da religião? Houve problemas num festival de literatura aqui por causa disso.

BREYTENBACH: Eu sou intolerante. Por mais que eu compreenda as razões pelas quais as pessoas são religiosas, para mim as religiões do deserto, as que chamamos de monoteístas, são a raiz do mal. Que seja cristianismo, judaísmo ou islamismo. A partir do momento em que temos um deus introduzimos forçosamente a intolerância, forçosamente uma norma: é assim e não pode ser diferente. Se é preciso ter um Deus, que se vá mais na direção dos índios. Pelo menos cada um tem um Deus para si.


A religião é um problema para muitos poetas daqui?

BREYTENBACH: Não é a religião que me choca. Por que não resistir amplamente à noção do que é a mulher aqui? Quando vejo todos estes senhores com suas túnicas de um mesmo branco, como são magníficos entre eles: machos, cavalos, romantismo e tudo mais.

E vejo as mulheres todas de negro com seus véus, do outro lado.

Há algo que não bate, não é? Não é Deus que me incomoda aqui: é a atitude em relação à mulher. Não é uma questão de religião. Mesmo em outras sociedades não regidas por Deus vê-se o mesmo problema.
Estamos tão desesperados com o mundo de hoje que dizemos na África que o futuro vai passar pelas mãos da mulher.


O senhor acredita?

BREYTENBACH: Acredito, sinceramente. Não é certo que vamos estar salvos quando as mulheres assumirem seu verdadeiro lugar. Mas algo vai mudar.

Houve algumas exceções, como Margaret Thatcher (exprimeiraministra britânica).

Mas ela não era mulher: era um homem disfarçado de mulher.

Em nome da tolerância e da diversidade, aceitamos o inaceitável. E é preciso que comecemos, pouco a pouco, a esclarecer isso.


Como?
BREYTENBACH:
Me lembro que tive grandes discussões na Holanda sobre isso. Os holandeses são orgulhosos de serem tolerantes e aceitarem os outros. E lá há muita gente de origem muçulmana e outras.
Falei com uma mulher e perguntei: é mais importante para a senhora defender o direito conquistado, como humanista, de igualdade para as mulheres, ou de respeitar a cultura dos outros, que vai colocar a mulher por trás de um véu e separada por uma cortina numa sala de aula? Disse ainda: como pode aceitar que algo de que não gostaria nunca para você aconteça no seu país, em nome da tolerância, religião e costume dos outros? O modernismo e o humanismo não são uma exclusividade ocidental. Ao contrário. Dizer isso é uma falta de conhecimento histórico terrível.


E a África do Sul?

BREYTENBACH: Acabo de publicar um artigo intitulado “O sorriso de Nelson Mandela: notas sobre uma revolução perdida”. É a minha verdade.

Os longos anos de luta pela liberdade na África do Sul foram uma viagem magnífica, porque os movimentos de libertação eram veículos de africanização. Acreditávamos, sinceramente, que estávamos criando uma nova identidade complexa: o homos sul-africano.

A África do Sul sempre foi construída desde o início. E neste caminho Nelson Mandela foi um pai. Ele é um enorme humanista. Dizia que eu tinha a sorte de ter sido enviado à prisão porque pude compreender o que é ser um negro na África do Sul (do apartheid).

Mas hoje estamos talvez regredidos em relação há dez anos. Eu compreendo (o que acontece) menos hoje do que há dez anos. O budismo me ensinou a possibilidade de viver o momento atual.


(Deborah Berlinck)

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