Nosso Blog é melhor visualizado no navegador Mozilla Firefox.

Pesquisar este blog

Carregando...

Total de visualizações de página

Google+ Followers

Translate

Perfil

Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

Seguidores

domingo, 17 de agosto de 2008

Somos secularizados, mas nos interessamos por Deus

IHU, em 16/08/2008 - Experimenta-se na Espanha um verdadeiro boom editorial que incursiona na literatura religiosa. Por trás desse fenômeno está a busca de versões da religião diferentes da oficial. Segue a íntegra do artigo de Gabriela Cañas publicado no El País, 6-08-2008. A tradução é do Cepat.

Na última década, foram publicados na Espanha 463 livros em cujos títulos aparece a palavra “evangelho”. É quase o dobro do que na década anterior. Também aumentaram os livros dedicados à Virgem Maria ou a Jesus de Nazaré. É verdade que cada vez se publicam mais livros na Espanha, o que indica que numa sociedade cada dia mais laica não decai o interesse pelo sagrado.

A Bíblia, O nome da Rosa ou O Código da Vinci são best-sellers indiscutíveis, mas o fenômeno da literatura religiosa (ou que utiliza referenciais religiosos para suas tramas) é um fenômeno que, na Espanha, goza de muito boa saúde. Novos títulos ocupam as listas dos livros mais vendidos. Romancistas, historiadores e teólogos encontram nos evangelhos apócrifos, na figura de Maria Madalena, na Inquisição ou na imprecisão dos textos sagrados uma fonte inesgotável de inspiração que conta com a maior receptividade da história por parte dos leitores. A que se deve tanto interesse?

Se alguém procura leituras de verão, é difícil resistir a um tomo volumoso que propõe descobrir como uma agente do FBI, com a ajuda de um exorcista, chega até manuscritos da cristandade proibidos na Idade Média e à causa oculta da morte de várias monjas recoletas de Bolzano (Itália). Também não é fácil abandonar a leitura de um extenso romance que começa assim: “Languedoc. Metade do Século XIII. Sou espiã e tenho medo. Tenho medo de Deus porque em seu nome fiz coisas terríveis”.

E junto com ganchos tão indiscutíveis, como é possível que um sisudo ensaio de 500 páginas intitulado Jesus. Aproximação histórica tenha vendido 50.000 exemplares em sete meses?

A história deste último livro poderia ser a base adequada para uma nova novela do gênero histórico-religioso. Seu autor, José Antonio Pagola, vigário da diocese de San Sebastián, que dedicou sete anos de pesquisa ao seu texto, vive talvez os momentos mais amargos de sua vida uma vez que foi condenado pela Inquisição espanhola, hoje chamada de Comissão Episcopal para a Doutrina de Fé. Seu pecado? Chegar a “colocações e conclusões nem sempre compatíveis com a imagem de Jesus apresentado nos Evangelhos, e que foi guardada e transmitida com fidelidade pela Igreja”, segundo a nota da Conferência Episcopal de 27 de junho passado. Esta história exibe, enfim, uma das chaves do atual sucesso de tudo o que se relaciona com a religião: o gosto pela heterodoxia.

No século XXI, são muitos os espanhóis, crentes e agnósticos, que rechaçam a ortodoxia, o pensamento único, o dogmatismo, o fundamentalismo. “O livro de Pagola é um sucesso de vendas porque é uma versão moderna e próxima, e porque as pessoas procuram interpretações múltiplas para tudo. Negam-se a aceitar uma leitura única, uma interpretação única”, explica a teóloga Margarita Pintos, analista do papel da mulher na Igreja.

Com efeito, o texto de Pagola foi um boom antes que a Inquisição espanhola o condenasse simbolicamente à fogueira. “Quando começaram a se difundir as críticas ao livro já haviam sido realizadas 12 apresentações em diferentes lugares do país, com uma participação média de 400 pessoas por apresentação”, assegura Luis Aranguren, chefe da editora marianista PPC.

O jornalista e ex-sacerdote Juan Arias vendeu 24 edições de seu livro Jesus, esse grande desconhecido. O título em si já assinala que, apesar das aparências, não sabemos tanto de Jesus de Nazaré como cremos. Ou não sabemos toda a verdade. Inclusive os textos mais ortodoxos convidam a leituras com invocações similares às que qualquer texto crítico com a doutrina oficial utilizaria, anunciando esse outro traço que explica o interesse por este tipo de literatura: a transgressão, a recusa da ordem preestabelecida. Assim, o jesuíta Francesc Riera publicava, no final de 2007, um estudo intitulado Jesus de Nazaré: o evangelho de Lucas, escola de justiça e misericórdia: uma história subversiva e fascinante.

Parte do fascínio provocado por Jesus de Nazaré estriba, segundo o teólogo
Juan José Tamayo, que publicou vários livros sobre sua figura, em que todo o mundo fala bem dele, resistiu a todas as análises. “É o paradigma da coerência”, disse dele Tamayo. Isso não impediu que, como o de Pagola, muitos dos trabalhos sobre Jesus tenham merecido o desprezo dos conservadores. Isso aconteceu com o livro Última notícia de Jesus, o Nazareno, de Lluís Busquets, apesar de ser um compêndio rigoroso das contribuições feitas até o momento.

A partir daí, os níveis de transgressão da doutrina oficial dispararam. Os historiadores mais rigorosos se negam a limitar suas fontes aos evangelhos canônicos e lançam mão dos apócrifos para reconstruir a história de Judas, devolver sua relevância e sua humanidade a Maria, cuja virgindade é questionada, e, evidentemente, para resgatar do prostíbulo em que a Igreja oficial meteu Maria Madalena, uma mulher que os teólogos e, sobretudo, as teólogas definem como uma mulher culta, talvez o apóstolo mais inteligente de Jesus e, por que não?, a companheira sentimental de sua vida. “A impressão geral é que a maioria das pessoas nos enganou quando aprendemos a religião”, disse Margarita Pintos. “Não nos contaram a verdade sobre Maria Madalena. Foi nos imposto o patriarcado institucionalizado em todas as religiões. E sobre a virgindade de Maria, o que não cola mais”.

Heterodoxia, transgressão, mistério, ocultação da realidade... Vimes perfeitos para um romance de ação, temperado de suspense, esoterismo e história. “Creio que o sucesso se deve a que as pessoas têm a sensação de não ter tempo para ler tudo o que gostariam e, ao mesmo tempo, querem divertir-se. Este tipo de livro mata dois pássaros com um tiro: diverte e ensina”, explica Angeles Aguilera, diretora de Comunicação das Edições Generales Santillana.

A história, a recreação da sociedade num determinado tempo (como fez Pagola para reescrever Jesus) é a base da obra da jornalista Julia Navarro. Seus três romances, de conotações histórico-religiosas, venderam cerca de 1,5 milhão de exemplares. Arqueólogos, catedrais, templários, enigmas... “Meras desculpas para tratar de problemas que me preocupam, como o nazismo ou o fanatismo”, explica a própria autora, através, isso sim, do fato religioso. Mas acrescenta: “Não me interessa tanto a religião em si, mas sua influência. Sem a religião não se pode explicar parte da nossa história nem se pode entender, para dar um exemplo muito próximo, a manifestação dos bispos, no ano passado, contra o governo de Rodríguez Zapatero. Não há um período da história em que a religião não tenha exercido um papel preponderante”.

Entre os últimos estouros de ficção com referenciais histórico-religiosas se conta O labirinto da rosa, de Titania Hardie (Suma de Letras) que na Espanha vendeu 100.000 exemplares. O evangelho do mal, de Patrick Graham (Editorial Grijalbo), foi publicado em maio e já vendeu 20.000 exemplares. E os três romances de Julia Navarro.

“Se não se ensinar a história das religiões a uma criança, entrará no Museu do Prado e não entenderá nada”, diz Juan Arias. “Nosso laicismo, além disso, é pura aparência. Nossa cultura de séculos é católica, religiosa. E é uma necessidade do ser humano porque a função da religião é desenterrar medos e dar felicidade, ainda que as igrejas tenham invertido os termos”.

Nuria Tey, diretora editorial de Plaza & Janés, acredita que o nosso interesse por este tipo de leitura aumentou na medida em que a sociedade espanhola foi se abrindo mentalmente. Tey não tem nenhuma objeção em catalogar muitos destes textos na categoria de “livros de auto-ajuda”, na permanente busca de referenciais para as nossas vidas. Enquanto fugimos do dogma, enquanto, como disse Tamayo, “nos libertamos de um sistema rígido de crenças”, buscamos novos pilares sobre os quais crescemos como pessoas na busca de encontrar um sentido para a existência.

“A qualquer ser humano, crente ou não, os temas da transcendência e do sofrimento dizem respeito”, explica também Raquel Mallavibarrena, porta-voz da corrente Somos Igreja. “Por isso, as manifestações artísticas, e concretamente a literatura, que abordam esses aspectos, sempre interessam por sua conexão com essas regiões mais íntimas e profundas das pessoas, com as perguntas e incertezas que todos carregamos dentro de nós”.

Temos dúvidas, questionamos mais coisas e não nos contentamos com uma interpretação única. O fenômeno não diz respeito só aos cristãos. Esta corrente revisionista também está se produzindo, por exemplo, no islamismo, ali onde se dão as condições políticas e sociais adequadas: laicismo e liberdade de expressão. É o caso da Espanha. Ainda não há muitos livros sobre o assunto, mas uma clara corrente ideológica e um feminismo islâmico que está surgindo. Quem garante isso é o presidente da Junta Islâmica da Espanha, Mansur Escudero. “Na Europa e na Espanha está se oferecendo uma releitura de livre interpretação que converge com o Islã autêntico. E isso acontece de modo especial entre os convertidos”.

Mas esta já é outra história. Ainda que seja a mesma.

Nenhum comentário: