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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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domingo, 23 de março de 2008

'Se Abraão vivesse agora teria passaporte iraquiano'

Livro. Bruce Feiler viu uma torre cair. Estava à janela do seu apartamento no 16.º andar de Manhathan. Foi a 11 de Setembro de 2001. Quis entender as raízes do ódio inter-religioso, viajou e chegou a uma figura unificadora. 'Abraão, o Pai das Três Religiões' chega agora a Portugal. O DN foi ouvir representantes religiosos

"É possível que Abraão nunca tivesse sequer existido, que seja uma figura mítica, mas é uma figura modelar. Se fosse do nosso tempo teria passaporte iraquiano, tal como a Adão ou Eva e Bush provavelmente não pensou nisso quando declarou guerra ao Islão." As palavras são do padre católico Anselmo Borges e são uma reacção ao modo como "a religião tem sido aproveitado para justificar decisões políticas", esquecendo que têm uma origem comum: Abraão, o fundador do monoteísmo. "A religião devia ser uma coisa óptima mas ao corromper-se dá o péssimo. Os grandes conflitos não surgem por motivos religiosos. São consequência de estratégias políticas, económicas e o religioso aparece como uma legitimação estratégica. Isso é blasfemo, é contradizer a essência do religioso de que Abraão, com a sua entrega, é uma metáfora. A religião tem andado tão mal tratada e podia ser o grande motor de expansão humana..."

As palavras de Anselmo Borges são uma resposta à questão essencial levantada pelo livro de Bruce Feiler e que não é outra senão a de tentar perceber se em Abraão não poderá estar a solução para a os conflitos religiosos que dividem as civilizações.

Tudo começou na manhã de 11 de Setembro. O jornalista norte-americano Bruce Feiler recebeu uma chamada telefónica do irmão e correu à janela do seu apartamento num 16º andar de um prédio em Manhathan e assistiu ao desfazer em cinzas de uma das torres gémeas. "Creio que o 11 de Setembro será visto como uma data decisiva na história das religiões", declarou Feiler numa entrevista após a publicação deste Abraão, O Pai das Três Religiões, obra que originou forte discussão nos Estados Unidos e chega a Portugal com a chancela da Ministério dos Livros.

O livro nasce da tentativa do autor responder às questões que o mundo judaico-cristão, e os americanos em particular, então se colocaram: Qual a razão para tanto ódio? Poderiam as religiões estar a chegar ao fim perante aquele choque civilizacional que pôs em confronto o mundo islâmico com o judaico-cristão? Seria o princípio do fim? Em todas as conversas de rua, debates televisivos, palestras que se seguiram ao choque, Feiler encontrou um nome que se repetia. Abraão, fundador das três religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo, Islamismo. "Ele é o pai - em muitos casos o pai biológico - de 12 milhões de judeus, dois biliões de cristãos e um bilião de muçulmanos em todo o mundo. E agora, é virtualmente um desconhecido". Feiler quis conhecer esse homem, rumou ao Médio Oriente, e, como ele mesmo disse, tentou responder à questão. "Pode Abraão salvar o mundo?"

A pergunta foi feita a representantes em Portugal das três religiões monoteístas ou abraâmicas, como também são designadas. A saber: o rabino Eliezer di Martino, o padre Anselmo Borges e o Sheikh David Munir. Fundador comum, Abraão e os diversos modos como a sua figura é interpretada, divide ou ainda une as três religiões? "Une", resposta unânime dada ao DN . "Se nós, as três religiões, quebrarmos o preconceito, haverá maior união", declara o representante dos muçulmanos em Portugal. E o preconceito tem a ver mais uma vez com essa figura fundadora, no caso, com a sua descendência. Ele foi pai de dois filhos: Isaac, que nasceu da sua mulher legítima, e Ismael, fruto de uma relação que teve com uma escrava. Foram os profetas que se lhe seguiram, primeiros de muitos até chegar a Jesus. Maomé, o grande profeta do Islão, a seguir a Abraão, foi o único a descender de Ismael.

Seria o início da divisão? "Não deveria ser. Ou já não deve ser, como refere o Sheikh Munir. "No século XXI já não há desculpas para o preconceito." Para este líder espiritual, "tudo depende do modo como cada um faz a leitura da própria religião". Referindo-se ao modo como em todas crenças a "fé tem sido manipulada", Munir justifica desta forma a existência de bombistas suicidas que, como o fizeram tantas outras figuras na história da Humanidade, subvertem a mensagem deixada por Abraão e que não é mais do que o respeito pelo outro e pela vida. "É preciso entender a situação precária em que muitos desses suicidas vivem, conhecer o seu perfil e o modo como são usados por quem quer apenas "criar o terror".

"Quando se aceita o Islão como código de vida, significa aceitar o outro", acrescenta. E se há religião em que Abraão está bem vivo é no Islão, garante este homem que recorre ao Alcorão para traçar o perfil do primeiro de todos os profetas de um Deus único. "Abraão é o vosso pai." Ele é o submisso o que, traduzido à letra, quer dizer nada mais do que muslim (muçulmano, em inglês).

"Não vemos as religiões alheias como erro que precisa de emenda nem sofremos a pressão dos outros povos na procura ao verdadeiro Deus. Não particamos o proselitismo, a conversão, como faz, por exemplo, o Cristianismo", declara, por sua vez, o rabino di Martino, representante espiritual máximo em Portugal do Judaísmo, a mais antiga das três religiões de um só Deus. É ele quem diz: "A divisão religiosa e os conflitos que ela gera não têm que ver com a teologia mas com a aplicação prática dos valores morais. A diferença está nas sociedades que estas três religiões construíram. O Islamismo, por exemplo, não vê a existência do Estado separado da religião e isso explica muita coisa."

E Abraão une? "A figura de Abraão pode aproximar se houver consciência de que foi ele que nos levou ao monoteísmo e que as três religiões deviam pôr de lado as diferenças práticas da teologia na sociedade. Os valores éticos e morais são comum a todas. Eles estão em Abraão."

Extraído de:
Diário de Notícias (Portugal), em 23/03/2008.

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