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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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domingo, 31 de agosto de 2008

Mudança de religião no Brasil: desvendando sentidos e motivações


Mudança de religião no Brasil: desvendando sentidos e motivações.
Organizadora:
Sílvia Regina Alves Fernandes.
Edição: Palavra & Prece (São Paulo) / CERIS – Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Rio de Janeiro).
Sinopse: Em 2044, a CNBB lançou ao CERIS o desafio de realizar uma pesquisa de representatividade nacional que permitisse caracterizar o fenômeno do trânsi­to religioso no Brasil, aqui denominado de mobilidade religiosa. Esta pesquisa se inseriu, portanto, numa seqüência de estudos que o CERIS vem concretizando mais in­tensamente há aproximadamente 10 anos no esforço de promover a compreensão da realidade do ce­nário religioso brasileiro sob olha­res interdisciplinares.
O fenômeno da mudança de religião ganha especial atenção na atualidade e tem despertado o inte­resse de muitas analistas, sobretudo em função da divulgação do Censo do IBGE em 2000 que constatou tendências de mobilidade religio­sa importantes e com efeitos ainda não suficientemente explorados no tocante à vida social no país.
Este livro apresenta várias lei­turas sobre a mudança de religião no Brasil e pretende ampliar o debate sobre o tema, oferecendo algumas possibilidades de inter­pretação do fenômeno que tem sido alvo de interesse dos estudiosos da religião em toda a Amé­rica Latina. Quais são as rotas da mobilidade religiosa? Que deno­minações ou grupos religiosos mais recebem adeptos? Quais são as lógicas e motivações construídas pelos fiéis das diversas denominações para circularem e retornarem as religiões de origem, ou para abandonarem definitivamente as instituições religiosas? Quais são os perfis dos indivíduos sem religião no Brasil? Que aspectos presentes na vida social motivam essas mudanças e rearranjos?


Muçulmanos se preparam para o Ramadã

Muçulmanos se preparam para o Ramadã
G1, em 31/08/2008 -
Mês de jejum e recolhimento começa na noite deste domingo. Data é a mais sagrada do calendário muçulmano.


Muçulmanos rezam antes do início do Ramadã em mosteiro em Surabaya, na Indonésia. Muçulmanos de todo o mundo se preparam para celebrar o mês mais sagrado do calendário islâmico. (Foto: Reuters)

Mulheres bósnias rezam na caverna Djevojacka. Segundo a lenda, visitar o local traz beleza e sucesso. Mais de 30 mil pesoas se reuniram para rezar no local, em uma tradição anual. (Foto: AP)

Sacerdote do Brunei chama fiéis para cerimônia religiosa em Athaan. Muçulmanos aguardam o nascimento da lua, que marcará o início do Ramadã. (Foto: Reuters)

Evangélicos e católicos discutem fundamentalismo religioso

O fundamentalismo religioso foi o tema de um seminário promovido pelo Fórum Ecumênico Brasil (FE-BRASIL) e organizado pela ASTE, CESE e KOINONIA. O Seminário Fundamentalismo Hoje foi realizado nos dias 21 e 22 de agosto, no Instituto Salesiano Pio XI, no Alto da Lapa na capital paulista. >>> Leia mais

sábado, 30 de agosto de 2008

Entre o mercado e o púlpito: igrejas evangélicas crescem em território católico

Centenas de igrejas evangélicas desembarcam na Espanha com os imigrantes. A porcentagem de protestantes na América Latina já alcança 20% da população. Algumas organizações fazem negócios às custas da fé

Na América Latina se rompeu o monopólio da fé. O pluralismo e a concorrência dominam o cenário religioso; o proselitismo assume as leis do mercado - e as técnicas de comunicação multimídia - e parte de uma paróquia tradicional ou nominalmente católica passa para as igrejas evangélicas. Falar em transferência maciça não é exagerado: calcula-se que entre 10% e 20% da população sul-americana sejam protestantes, de 20% a 30% na América Central e mais de 31% na Guatemala. Exemplos do fenômeno do fundamentalismo cristão, as novas igrejas latinas arrastam massas populares e começam a exportar pastores. Também para a Espanha: os imigrantes reproduzem suas comunidades religiosas ou as criam novamente, o que os ajuda a salvar-se do isolamento da imigração. Surgem "como cogumelos" - nas palavras de um pastor protestante - igrejas livres, autônomas, informais, o que também representa um risco de penetração de seitas ou grupos de filiação duvidosa.

O Vaticano considera uma "sangria que não pode ser parada" a deserção dos católicos - no caso de que o fossem anteriormente - para as fileiras protestantes e a atribui a um "proselitismo agressivo" - os termos entre aspas são declarações do papa Bento 16 -, mas os evangélicos aproveitam a distância secular, na sua opinião, entre o clero e os fiéis católicos para ganhar terreno. São protagonistas desse fenômeno as igrejas pentecostais, que salientam a ação direta do Espírito Santo e seus dons - a cura, a profecia ou o dom das línguas -, o que na prática se substancia em cerimônias participativas, inclinadas ao êxtase coletivo. Pentecostais são os pregadores que, na América Latina e na Espanha, dominam as ondas ou as antenas de várias rádios e televisões locais. Pastoreiam comunidades formadas majoritariamente por fiéis de baixo nível social e, no caso dos imigrantes, de seres que regulam sua nova vida através da experiência religiosa. Mas por trás de algumas siglas ou nomes há interesses equívocos, quando não negócios - às vezes autênticas multinacionais - em nome da fé.

O que representa essa proliferação de novos movimentos religiosos na América Latina? E na Espanha, representa algum desafio? Há algum filtro, modos de garantir a idoneidade das novas igrejas? "Na Espanha há cerca de 2.600 igrejas evangélicas, e 2.100 estão registradas em nossa federação. O resto não se inscreve porque é muito recente, ou porque estão em processo de constituição ou porque não querem", afirma Mariano Blázquez, secretário-executivo da Federação de Entidades Religiosas Evangélicas da Espanha (Ferede), interlocutora diante do governo espanhol. À lista de igrejas oficiais somam-se centenas de igrejas espontâneas, às vezes efêmeras. "(No âmbito protestante) os grupos não precisam da aprovação de um bispo ou de uma hierarquia para funcionar. Qualquer um pode criar uma igreja, e essa é exatamente nossa grande fraqueza. Não podemos evitar excessos ao amparo da liberdade. O único que podemos fazer na Ferede é explicar qual é a realidade espanhola e acompanhá-los no processo de constituição. Os únicos limites são a legislação espanhola e o Evangelho", conclui Blázquez, que confirma um desembarque "difícil de controlar". Blázquez e os demais especialistas consultados franzem a testa quando se levanta o argumento das seitas. "Prefiro falar de atividades delituosas ou que possam afetar a personalidade. 'Seita' não tem uma conotação jurídica, mas por trás de algumas igrejas há atividades que podem ser perseguidas. É isso que é preciso denunciar, trate-se de uma igreja ou de um clube de futebol", afirma.

O representante da Ferede se refere concretamente à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), também denominada Pare de Sofrer em muitos países latino-americanos e investigada no Brasil e na República Dominicana por fraude fiscal, malversação de fundos e suposta lavagem de dinheiro do narcotráfico, cujo exemplo El País pôs na mesa discutir o problema das seitas. A alusão não é gratuita. Com outro nome - Comunidade Cristã do Espírito Santo -, a IURD está inscrita desde 1993 no Registro de Entidades Religiosas do Ministério da Justiça da Espanha. Mas não está na Ferede, embora Blázquez lembre que não é obrigatório.

A que se deve a rejeição de seus pares? "Ao mercantilismo, à perversão do Evangelho. Vendem a água do rio Jordão e cruzes bentas, tudo isso é alheio a nós. Mas foram eles que retiraram o pedido de registro. É claro que de nossa parte havia certa disposição a uma avaliação desfavorável, pois algumas de suas práticas são discordantes."

Por exemplo, o recurso à superfé, o evangelho da prosperidade, que se baseia em doações voluntárias como prova de fé. Por essa via a IURD arrecada bilhões de dólares por ano, segundo fontes fidedignas. Basta dar um clique na página da web da Comunidade Cristã do Espírito Santo para saltar para outra em que aparece um convite para realizar doações, seguida de um número de conta. Não se trata do dízimo - a contribuição de 10% do salário para a manutenção da igreja, uma forma de autofinanciamento nas igrejas protestantes. Vai muito além.

Mas a IURD, com a qual El País tentou entrar em contato sem resultado, não é a única "igreja" questionada. Também o são agrupamentos como Juventude Com Uma Missão (JCUM), a qual o Brasil acusa de manipular indígenas da Amazônia e que também está presente em uma dezena de cidades espanholas, assim como registrada na Ferede e na Justiça; o instituto Lingüístico de Verão, controversa associação americana de difusão da Bíblia arraigada em comunidades indígenas do Peru, México Colômbia ou Brasil, ou finalmente o grupo missionário americano Novas Tribos, que foi expulso da Venezuela em 2005 por ser, segundo Hugo Chávez, "agentes de penetração imperialista".

Exemplos como este último ano poderiam propiciar outra leitura: a perseguição por parte de regimes de esquerda ou populistas a organizações que disputam os favores das massas. Algo como um expurgo do populismo contra o povo.

Do povo procede a onda mais recente de fiéis e pastores que chega à Espanha. "Os recém-chegados têm um perfil discreto, vêm do Equador, de Honduras," explica Blázquez. "Nada a ver com a imigração maciça de profissionais de 15 anos atrás, coincidindo com a primeira crise grave da Argentina. Alguns já eram evangélicos, outros se converteram aqui", acrescenta o representante da Ferede.
Antonio González, doutor em filosofia e teologia, ex-colaborador do jesuíta Ignacio Ellacuría e bom conhecedor da realidade centro-americana - viveu sete anos na Guatemala e em El Salvador -, está de acordo: "Os pentecostais costumam ser de classe baixa ou mesmo de ambientes de extrema pobreza". O pentecostalismo se arraiga entre os mais desarraigados, embora também haja pentecostais de classe média e alta e inclusive políticos, como o direitista guatemalteco Efraín Ríos Montt.

"A proletarização nas grandes cidades provoca a necessidade de recriar uma nova identidade, e as igrejas evangélicas oferecem a oportunidade de forjar essa identidade alternativa", conclui. Para a maioria dos imigrantes, carentes de referências, o fato religioso é portanto uma tábua de salvação. "São muitos os latino-americanos que não eram protestantes antes de vir e que se tornam evangélicos precisamente na Espanha, pois é aqui que experimentam a proletarização e a anomia. Também não faltam crentes que, muito fervorosos em seus países de origem, na Espanha perdem seu fervor, talvez devido à prosperidade econômica ou pelo desejo de ser aceitos", continua González. "As igrejas evangélicas representam para muitos deles uma maneira de se integrar, mas também se corre o risco contrário, o da criação de igrejas étnicas, isoladas. Em nossa igreja, por exemplo, há oito latino-americanos", afirma Pedro Tarquis, porta-voz da Aliança Evangélica Espanhola. "Nosso maior seguro, o maior controle, é a convivência, e o ideal seria a interculturalidade, mesmo que sejam os filhos dos que chegam agora que realmente se integrarão. "Há costumes diferentes, é verdade, mas pelo menos temos um idioma comum, coisa que não ocorre com os emigrantes da Europa do Leste ou da Ásia", acrescenta Tarquis, que vê nessa incorporação seiva nova para as igrejas: "Assim como a realidade católica nos EUA se sustenta pela presença de imigrantes latinos, aqui na Espanha poderia se afirmar o mesmo do movimento evangélico". Não há cifras do número de imigrantes latino-americanos na Espanha que professam a religião evangélica, e os do subcontinente são aproximados, como vimos. Mas ninguém duvida do potencial evangelizador da América Latina.

Pela primeira vez a América do Sul não é uma terra de missão, mas um viveiro de pastores e fiéis. "As igrejas evangélicas cresceram e seus líderes são autóctones, não é verdade que sejam produto da penetração americana, não mais. A região do mundo que tem mais missionários é a América Latina, e os manda inclusive para a América do Norte", explica Mariano Blázquez.

"Estima-se que há mais de 9 mil missionários latino-americanos, enviados e sustentados pela América Latina, trabalhando em culturas diferentes da sua. Cerca de 4 mil o fazem na Ásia, África e Europa do Leste", relata Samuel Escobar, de origem peruana, catedrático emérito de Missionologia no Seminário Teológico Batista da Pensilvânia (EUA). "A religiosidade evangélica latino-americana é um fenômeno crescente e vigoroso", acrescenta. "É difícil estimar com precisão quantos protestantes há no continente, mas, por exemplo, no Peru, segundo o censo de outubro de 2007, a população protestante maior de 12 anos duplicou desde 1993 e hoje chega a 12,5%. No Chile se aproximaria de 20%."

E como é a vivência religiosa dos evangélicos? Exatamente isso, uma experiência pessoal, comunitária, vital, que traspassa os limites do culto para se enraizar no emocional e no cotidiano. Basta dar uma volta pelos bairros populares das grandes cidades para constatar a mobilização: são muitas as convocações de rua, de folheto na mão, para cultos e reuniões "de fraternidade" que pescam, sobretudo no calado dos jovens. Também proliferam os cartazes pregados em portais, bocas de metrô ou faróis com apelações ao "chamado do Evangelho". Os convocantes podem se chamar, por exemplo, Livres x Cristo, nome que aparece em um folheto apanhado ao acaso em um bairro de Madri com alta porcentagem de imigração latina. "Renovação juvenil", anuncia o papel; "música com uma mensagem de mudanças para sua vida." Remetente: Compañerismo La Puerta. A entrada ao ato, com músicas e obras de teatro, é grátis.

"A atração das igrejas pentecostais é a de uma fé pessoal, compreensível, fortemente vivencial, diante da experiência mais anódina, autoritária, fria, que costumam ter muitos latino-americanos na Igreja Católica. Inclusive quando o sacerdote procede de meios muito populares sua formação o distancia de suas origens mais que os pastores pentecostais, que permanecem mais próximos de suas raízes. E normalmente a Igreja Católica, quando se interessa pelos pobres, não pode deixar de adotar uma atitude paternalista devido à forte diferença de classes que há entre seus líderes e seus fiéis", salienta Antonio González, conhecedor do contexto católico, tentando explicar as razões do sucesso do protestantismo na América Latina.

"Uma estudiosa pentecostal americana afirma que os latino-americanos quando se tornam pentecostais deixam de ser psicologicamente pobres, embora na verdade continuem sendo", conclui González, professor de teologia no Seminário Evangélico Unido de El Escorial (Madri) e responsável por estudos e publicações da Fundação Zubiri.

Inclusive quando algumas dessas igrejas são às vezes "mais conservadoras que as européias", lembra Blázquez, em geral inoculam no crente "um estilo de vida mais disciplinado - sem álcool, etc. -, o sentimento de ajuda mútua, um apoio decidido a suas iniciativas vitais, a assumir riscos econômicos, etc.", conta González. "As populações que adotam o protestantismo são populações que prosperam, porque aprendem a ler, a respeitar suas mulheres e adotam uma ética de trabalho que os faz progredir", comenta Tarquis.

Assim que, radicalmente livres, refratárias ao poder, pois na estrutura evangélica não existe hierarquia - não há bispos que nomeiem nem cúria que proíba - e à margem das denominações tradicionais - batistas, presbiterianos, metodistas -, as novas igrejas latino-americanas são protagonistas de um fenômeno sociológico incipiente na Espanha. Sem controle, mas também sem pausa. Entre o culto conservador e a mensagem apocalíptica próxima do milenarismo, 99% das novas igrejas que brotam em nossos bairros também desempenham um trabalho social: proporcionam coesão, amparo, apoio econômico ou uma mão estendida na hora de cuidar das crianças. Umas poucas, porém, quase não conseguem mascarar traços suspeitos, da liderança onipotente ao som incessante da caixa registradora.

"As possibilidades de manipulação são limitadas. É verdade que na América Latina o pastor protestante pode adquirir os traços do velho caudilho, mas ao mesmo tempo tem de ganhar autoridade continuamente, não é sacerdote no sentido de pessoa sagrada", aponta Antonio González. Embora o protestantismo consagre a liberdade e a autonomia, não há nenhuma maneira de exercer certo controle, ou pelo menos uma supervisão de suas atividades e seus fins? Para González, a melhor salvaguarda diante de irregularidades é o "princípio bíblico: o pastor pode ser julgado à luz da Bíblia", embora também reconheça que os abusos mais freqüentes têm sido "do tipo econômico".

Pedro Tarquis propôs em sua época submeter a auditorias a atuação das igrejas da Aliança Evangélica Espanhola, "sobretudo as que já têm um volume de fiéis considerável". Não fizeram caso: sua iniciativa foi vista como uma veleidade de Torquemada, "como uma tentativa de impor uma hierarquia". Em consonância com Tarquis, Samuel Escobar, que passa por ser a autoridade máxima na matéria, não tem dúvidas sobre o método a seguir para abortar irregularidades. "É preciso um consenso social em relação aos limites da liberdade de que gozamos. Agora mesmo nos EUA o senador republicano por Iowa Chuck Grassley conduz uma investigação sobre as manipulações financeiras de seis corporações religiosas que cresceram de maneira notável e mantêm atividade comercial vigorosa. Quatro delas se negaram a responder à investigação", conta Escobar. Igrejas livres? Igrejas "abusivas", na definição do teólogo evangélico americano Pat Zukeran? Ou multinacionais da fé?

Já vai longe a época em que se via a penetração evangélica como um instrumento da CIA - outra teoria que ainda persiste a considera um contrapeso intencional à Teologia da Libertação -, parece que as igrejas, evangélicas ou não, se rendem aos métodos e às vezes aos fins do mercado. Do outro lado do charco e sem ir tão longe, como lembra o teólogo Escobar: "Como seu próprio jornal informa, o deputado socialista José Camarasa está tentando nos esclarecer os relatórios financeiros relativos à visita do papa a Valência em 2006". Por alusões evangélicas, quem não tiver culpa...

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Iniciativa das Religiões Unidas (URI)


A URI - Iniciativa das Religiões Unidas é uma organização fundada em valores humanos universais e dedicada a promover o diálogo e a ação inter-religiosa. A URI está presente em cerca de 50 países desenvolvendo ações comunitárias com a participação de mais de 80 tradições espirituais. A agenda da URI compreende direitos humanos, ecologia, economia justa, Cultura da Paz e a prática do diálogo inter-religioso.

Liberdade religiosa

Liberdade religiosa
A discriminação religiosa é mais comum do que se imagina no Brasil, sobretudo contra religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda. Seja no asfalto ou na favela não faltam relatos de adeptos que sofrem com a situação.

Jesus vai à escola

Jesus vai à escola
O ensino religioso está ganhando espaço nas escolas da rede pública. Como trazer Deus para as salas de aula de forma respeitosa para todas as linhas religiosas? >>> Confira a seguir um trecho dessa reportagem que pode ser lida na íntegra na edição da revista Época de 01/Setembro/2008.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Tudo muda na Índia, menos a forma como são tratados os pobres


Aqui, no Taj Mahal Palace and Tower, o decano dos hotéis da cidade, o que você pensa a respeito da nova Índia pode depender de sua situação - você pode ser a pessoa que tem o sabonete sendo esguichado em suas mãos, ou a pessoa que está esguichando o sabonete.

Em todos os toaletes masculinos do Taj há um ajudante. Assim que você se aproxima da pia, ele o cumprimenta. Antes que você abra a torneira, ele a abre para você. Antes que você passe o sabão, ele pressiona o dispenser. Antes que você alcance a toalha, ele lhe estende uma. Ao sair, ele o cumprimenta de novo e murmura: "Certo Senhor. Sim Senhor. Obrigado, Senhor".

Ao sair, você sentirá a atmosfera exalando a nova riqueza, pelos automóveis. Dentro dormem os motoristas, muitos deles caindo no sono por trabalhar em turnos de 20 horas, acordando às 6h00 para pegar o trem, levar seus patrões para o trabalho e do trabalho, em seguida para os seus jantares, depois para os drinques, deixando-os em casa à 1 da madrugada e pegando um táxi para voltar para suas habitações.

É 1 da madrugada, e no prédio onde mora o patrão, os saguões de entrada estão cheios de pessoas deitadas. São os servidores e varredores que trabalham dentro durante o dia, mas dormem fora à noite; que limpam os toaletes, mas não se atrevem a usá-las. Eles aprenderam a dormir sobre as frias lajotas, com os moradores do prédio passando por cima deles ao retornar das noitadas regadas a champagne.

A Índia está mudando tão depressa que começa a se parecer com qualquer outro lugar. Os arranha-céus brotam. Cidades incham. Os jovens namoram, bebem, fumam livremente. Mas muitas das pessoas que estão tornando nova a nova Índia - dos corretores de ações às engalanadas socialites- são responsáveis pela preservação de um elemento de certa forma lúgubre do passado indiano: uma tendência a tratar os funcionários contratados como sua propriedade, insultá-los e humilhá-los e ser condescendente com eles, comportar-se como se alguns seres humanos tivessem nascido para servir e outros para serem servidos.

"Os indianos são provavelmente as pessoas menos democráticas, morando na maior e mais plural democracia do mundo," como afirmam Sudir Katar e Katharina Kakar, dois conhecidos estudiosos da cultura indiana, em um livro publicado recentemente, "The Indians: Portrait of a People" ("Os Indianos: Retrato de um Povo").

É compreensível que, em épocas de abundância, os indianos prefiram falar de outras coisas.

Mas se um diretor de cinema em Mumbai se impuser, em breve ele estará falando sobre empregados domésticos. Em uma tentativa de expor as relações entre empregados e servidores na Índia, da mesma forma que "A Cabana do Pai Tomás" mostrou a escravidão americana, Raja Menon fez um novo filme provocativo, retratando a Índia a partir do ponto de vista de um serviçal.

O filme, "Barah Ana", que pode ser traduzido toscamente como "dar troco a menos" está atualmente sendo julgado por júris de festivas em Toronto e Veneza.

Ele conta a história de três pessoas que migram para Mumbai, dos miseráveis lugarejos do norte da Índia. Trabalham como chofer, garçom e guarda de segurança, mandando a maior parte de seus ganhos para casa.

São heróis em suas cidades; mas em Mumbai, são pessoas invisíveis, enfrentando a dureza que é ser um subordinado de outras pessoas em épocas de prosperidade.

Em uma das cenas, uma rica dona de casa, rechonchuda e toda cheia de acessórios Louis Vuiton, circula pela cidade no banco de trás de seu utilitário negro, tagarelando no celular. De repente, o chofer pisa no freio, fazendo a mulher balançar e interromper a conversa.

"A criança que estava mendigando ficou na frente do meu carro," ela explica indignada à sua amiga, em inglês, depois de retomar o telefonema. "E aquele idiota do chofer simplesmente brecou."

Em outra passagem, um guarda de segurança descobre que seu filho está doente e que sem um tratamento que custa US$ 150, ele morrerá. Yadav circula o prédio onde mora pedindo empréstimos de locatários que costumam gastar US$ 40 em pizzas.

Os moradores, grudados em suas televisões, o tratam como um cachorrinho que deve ser enxotado.

Naquela noite, ao se sentar para beber com amigos, ele se vê diante do que significara enterrar um filho. "Por que será", ele se queixa, "que uma pessoa só consegue sentir a própria dor e não a de outros?"

A resposta do diretor é que a Índia tem algo mais profundo que um problema de pobreza.

O país tem, em sua opinião, um problema de "desumanização". Em uma entrevista, ele descreve os empregados e servos da Índia como se fossem "duas espécies diferentes".

A primeira parte do filme faz uma crônica das pequenas humilhações na Índia com um realismo de dar calafrios. A segunda parte prevê a explosão de violentas revoltas em um país cuja elite há muito se tranqüiliza com a idéia de que os pobres irão aceitar estoicamente sua condição.

Menon acredita que tal estoicismo está minguando, em uma época na qual os ricos estão mais visivelmente ricos e os excluídos estão cada vez mais conscientes de sua condição de privações.

Há muito se diz aos pobres que a pobreza é merecida, diz ele. Mas agora eles vêm a riqueza por toda parte, e estão começando a acreditar que a pobreza é circunstancial e pode ser revertida.

"É a aí que os diques se rompem", ele diz, "no momento em que a pessoa sente: 'Não é verdade que o meu lugar é esse'. Um momento desses parece ter ocorrido recentemente, há algumas noites. O filme foi apresentado a um público de indianos jovens, de classe média, representantes da nova prosperidade do país.

Mas um deles, Mitesh Thakkar, um gerente de marketing de 30 anos, chegou com o motorista de táxi que ele costuma contratar, e trouxe diversidade, ao convidar o motorista para assistir ao filme.

Thakkar reagiu como qualquer um reagiria se sua classe social fosse acusada. O filme é bom, "mas toma partido", ele disse: "Talvez existam 70% de pessoas que os tratam mal, mas existem 30% que os tratam bem."

Mas para o motorista do táxi, Javed Ali, o filme tornou-se um clássico no mesmo instante.

"Essa história é a verdade," ele disse. "Mostra tudo que eu penso".

Ali é um trabalhador migrante, de 20 anos, e conhece de perto as humilhações mostradas no filme. Às vezes pessoas tomam seu táxi e recusam-se a pagar; às vezes estão bêbadas e o maltratam; às vezes gritam para ele: "Você não presta."
Depois da projeção, algumas pessoas do público, incluindo Thakkar e Ali, foram jantar. (Pode ter sido influência do filme: jantar com um motorista de táxi na Índia é atravessar uma linha raramente cruzada.)

Os outros participantes do jantar quiseram saber o que Ali, o único pertencente à classe trabalhadora na mesa, achou do filme. Ali respondeu, de forma casual, que sabia de onde vinham os personagens, que compreendeu a ânsia deles por vingança, depois de tantos anos de humilhação.

"Ele disse que quando o motorista seqüestra sua patroa - ele fez a coisa certa," contou Thakkar mais tarde, lembrando-se dos comentários de Ali. "Mesmo que ele tenha sido pego, precisava daquele seqüestro."

Naquela noite, naquela mesa ocupada de forma tão incomum, com parte próspera e a pobre lado a lado, as realidades paralelas da Índia se colidiram de forma uma efêmera e ameaçadora.
Tradução: Claudia Dall'Antonia

Grupo egípcio pode proibir transplante de órgãos entre muçulmanos e cristãos


Há anos a Confraria dos Irmãos Muçulmanos, poderosa organização político-religiosa sunita do Egito, através da eleição de seus candidatos, domina os mais importantes colégios profissionais, como o dos médicos. Agora essa entidade acaba de adotar uma grave medida que pode atiçar ainda mais as dissidências religiosas entre a maioria da população islâmica e a minoria cristã, ao proibir o transplante de órgãos entre muçulmanos e cristãos.

Argumentam que se trata de proteger os muçulmanos pobres dos cristãos que compram seus órgãos, de defender os doentes vulneráveis dos que tentam lhes roubar partes vitais de seu corpo. A direção dessa entidade profissional adverte que os médicos que descumprirem a ordem serão punidos.

A reação das autoridades religiosas da comunidade copta, formada pelos descendentes dos antigos egípcios, e que segundo estimativas oficiais constitui cerca de 10% da população de 76 milhões de egípcios, foi de indignação. "Todos temos o mesmo sangue egípcio", declarou um bispo do Cairo, "e se o motivo dessa medida é proibir o tráfico de órgãos a rejeitamos porque também pode ser efetuado entre crentes da mesma fé. É uma decisão perigosa, que pode levar à proibição de doações de sangue entre cristãos e muçulmanos, ou mesmo que se impeça um médico de examinar ou tratar um doente de outra religião".

Diante dessa grave situação, a instância religiosa máxima sunita do Egito, Al Azhar, se pronunciou contra a medida, afirmando que provocará divisões e discriminações religiosas. A direção da Al Azhar lamenta não ter sido consultada e pediu ao Colégio de Médicos que retifique. Algumas ONGs egípcias apresentaram denúncias à justiça, insistindo que viola os direitos humanos, a Constituição do Estado e a união nacional.

Nos últimos meses endureceram os incidentes religiosos periódicos no Egito.

Em maio foram assaltados os mosteiros de Malaui e Abu Fena, no alto Egito, e antes no povoado de Isna, no sul, incendiaram uma dúzia de lojas de proprietários coptas. Em Abu Fena muçulmanos e coptas se enfrentaram depois do seqüestro de três monges. Segundo testemunhas, o incidente foi causado porque haviam recomeçado a construção de um muro ao redor do mosteiro, aprovado pelas autoridades, sobre terrenos de muçulmanos que se opuseram à força.

A igreja copta, dirigida pelo papa Shenuda III, exortou vivamente o presidente Hosni Mubarak a garantir a segurança dos cristãos, rogando que impedisse novos ataques contra os monges. Em uma manifestação, centenas de pessoas clamaram: "Com nosso sangue e com nossa alma defenderemos nossa cruz". Os coptas denunciam a passividade das forças de segurança diante das agressões contra suas propriedades.

Na década de 1990 o Egito sofreu ondas de atentados cometidos pela organização Gamaa Islamiya que visavam principalmente os coptas, turistas ocidentais e dignitários do regime autoritário de Mubarak. Nos tempos de Nasser e de Sadat, os coptas sofreram discriminações impostas pelo poder.

Pouco antes de seu assassinato, Sadat havia mandado deter o papa Shenuda III e outros 20 sacerdotes, acusados de animar desordens religiosas e fomentar a hostilidade contra o governo. Mubarak ordenou em 1982 o fim de sua detenção domiciliar. O papa cumpriu sua pena em um dos antigos mosteiros coptas do Egito. Como tantas minorias afastadas do poder no Oriente, os coptas se refugiaram em sua religião.

Hoje está em exibição nas salas de cinema árabes um filme ousado, "Hassan e Marcos", protagonizado pelos populares atores egípcios Omar Sharif e Adel Iman. Este interpreta o personagem de Hassan, um cristão que para escapar das ameaças dos extremistas de sua religião se faz passar por um xeque árabe, e Sharif encarna um muçulmano moderado que pelo mesmo motivo adota a aparência de um pensador cristão liberal. O filme polêmico tenta afirmar a união nacional do Egito, ameaçada pelas dissidências religiosas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

III Simpósio Internacional sobre Religiosidades, Diálogos Culturais e Hibridações

O III Simpósio Internacional sobre Religiosidades, Diálogos Culturais e Hibridações será realizado em Campo Grande (Mato Grosso do Sul), entre os dias 21 e 24 de abril de 2009, no Teatro Glauce Rocha (Cidade Universitária/UFMS) e nas dependências da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS.

O III Simpósio Internacional sobre Religiosidades, Diálogos Culturais e Hibridações vem responder ao crescente interesse pelos estudos relacionados às religiosidades, aos diálogos culturais, às hibridações, que têm contado com um significativo aumento das produções humanísticas voltadas a essas temáticas. Com os temas propostos, objetiva-se analisar as práticas e os diferentes diálogos culturais construídas pelas mais diversas representações. Nesse sentido, a proposta contempla questões teóricas e metodológicas importantes para o avanço dos estudos interdisciplinares.

Informações e prazos de inscrições, clique aqui.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O poder da maçonaria – A história de uma sociedade secreta no Brasil

O poder da maçonaria – A história de uma sociedade secreta no Brasil

Historiadores publicam um levantamento inédito das origens e da trajetória política da maçonaria no Brasil, país que só fica atrás dos EUA e da Inglaterra em número de iniciados.

Autores: Marco Morel e Françoise Jean de Oliveira Souza
Editora: Nova Fronteira
Sinopse: A história do Brasil está tão marcada por personagens de uma forma ou outra ligados à maçonaria que não deixa de ser uma surpresa que só agora, dois séculos depois da instalação das primeiras lojas regulares no país, dois historiadores não-maçons tenham se debruçado de forma abrangente sobre o tema. Seja para aplacar a curiosidade dos leigos, seja para surpreender os iniciados, não faltam neste revelações sobre as origens históricas e a grande influência desta organização hermética nos bastidores da política brasileira.
O poder da maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil traz à luz fatos inéditos, descortinados pelo olhar apurado e imparcial de dois renomados historiadores que, embora não pertençam à Maçonaria, reconhecem a sua importância para a sociedade como um todo.
Fatos históricos como a Conjuração Mineira, as lutas pela Independência, a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, entre outros, ganham nova vida quando observados nos bastidores das lojas maçônicas. No entanto, como explicam os autores, não existiu uma maçonaria, um “centro possante, aglutinador e atemporal”, mas diversas organizações maçônicas ao longo do tempo. Fraternidades que apoiaram as mais diversas ideologias. E que, como os homens que as integraram, nunca estiveram livres de contradições.

Sobre os Autores:
Marco Morel
é jornalista, professor do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mestre em História do Brasil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutor em História pela Universidade de Paris I e pós-doutor pela Universidade de São Paulo (USP). É autor dos livros: Frei Caneca, entre Marília e a Pátria; Cipriano Barata na Sentinela da Liberdade; Palavra, Imagem e Poder: o surgimento da imprensa no Brasil do século XIX; O Período das Regências e As Transformações dos Espaços Públicos: Imprensa, Atores Políticos e Sociabilidades na Cidade Imperial.

Françoise Jean de Oliveira Souza é historiadora da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, onde atua na área de patrimônio histórico e é mestre em História do Brasil pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tendo defendido a dissertação Vozes Maçônicas na Província Mineira (1869-1889). Atualmente, é doutoranda em História do Brasil pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

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segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Reconstruindo Jesus: pesquisadores brevelam novas teorias sobre sua vida e seus mistérios





CSI: Jesus – Novas descobertas trazem à tona um homem simples, talvez analfabeto, difícil de ser rastreado e longe de se sentir uma entidade poderosa e onisciente. Como ficam as crenças cristãs diante desse Jesus Histórico?

Reinaldo José Lopes

Páginas 42-55. - Ilustrações – Bibliografia.Colaboração de pesquisadores e historiadores brasileiros, entre eles o Prof. Dr. André L. Chevitarese (UFRJ) e estrangeiros (Israel Knohl, Jon Dominic Crossan, John P.Meier).

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sábado, 23 de agosto de 2008

A religião, uma revolução silenciosa na China


O crucifixo preto destaca-se sobre o branco da parede. Predomina na sala uma claridade intensa, como que irradiada pela luz que penetra através dos vidros deste apartamento empoleirado no topo de uma torre situada num conjunto habitacional de Pequim, não longe da vila olímpica. Atrás do seu púlpito improvisado, o pastor Li, segurando um livro de salmos, canta às bandeiras despregadas. Ao lado dele, uma adepta o acompanha no piano. Na sua frente, cerca de vinte crentes entoam, por sua vez, as louvações evangélicas. Eles estão sentados em cadeiras metálicas de encosto acolchoado. Em sua maioria, são trintões e quadragenários. Eles correspondem a perfis variados, entre os quais se misturam donas de casa, intelectuais de óculos, jovens mulheres antenadas trajando blusas regatas ou rapazes com cabelos cortados no estilo "ouriço".

Yu Jie está em pé, ligeiramente afastado da platéia. Ele está mergulhado no recolhimento. Este rapaz de tez pálida e rosto arredondado segura uma Bíblia entreaberta nas palmas das suas mãos. Ele a folheia quando o pastor prega "o amor de Deus". A sua discrição é enganadora: de fato, Yu Jie é uma personalidade de peso nesta igreja não-oficial que celebra o culto nesta tarde de domingo de julho. A igreja da Arca, que nasceu por obra de um grupo de orações organizado pela sua mulher, deve muito à sua abnegação, e também ao seu prestígio pessoal.

Yu Jie é o que costumam chamar de "dissidente". Um ensaísta liberal, admirador da democracia americana - e, a esse título, um inimigo declarado dos nacionalistas chineses mais extremistas -, ele é vigiado de muito perto pela Segurança de Estado, que, contudo, o deixa livre de restrições, controles ou limitações. Em decorrência de uma extensa reflexão política e espiritual, ele abraçou a fé cristã em 2003. Um expoente da vertente pequinesa das "igrejas em domicílio" - as quais são estruturas não-oficiais toleradas, mas que evoluem em meio a um contexto precário -, ele é atualmente um dos intelectuais protestantes mais destacados da capital. Junto com dois dos seus correligionários, ele foi até mesmo recebido em 2006 em Washington por George W. Bush, o que provocou o furor do regime chinês.

Fé e política intimamente ligadas
Yu Jie é apenas um exemplo entre tantos outros. Ele encarna uma pequena revolução silenciosa: no decorrer dos últimos anos, um número crescente de intelectuais liberais na China urbana vem aderindo ao protestantismo. Além de Yu Jie, os mais conhecidos são Wang Yi, Li Baiguang, Gao Zhisheng, Jiao Guobiao, Li Heping, Li Jinsong, Ai Xiaoming. Quase todos eles são professores e juristas envolvidos na defesa dos direitos cívicos. Eles representam a parte visível de um fenômeno mais amplo.

Após ter tomado conta das regiões rurais durante os anos 1980, o fervor religioso - entre outros, o da confissão cristã - vem conquistando espaços nas grandes cidades, em particular no âmbito de uma classe média à procura de valores espirituais como forma de reação ao materialismo dominante. As estatísticas oficiais menosprezam a real importância deste ressurgimento da fé. Segundo as estimativas mais confiáveis de alguns especialistas, a China contaria atualmente entre 40 e 50 milhões de protestantes, além de 10 a 12 milhões de católicos, ou seja, comunidades cristãs que representam cerca de 5% da população. Trata-se de uma parcela ainda muito minoritária, mas que está em processo de expansão.

No caso de Yu Jie, a fé e a política estão intimamente ligadas. Com 35 anos, ele é jovem demais para ter participado da primavera estudantil de 1989 na Praça Tiananmen. Mas o esmagamento, sob as lagartas dos tanques, do sonho democrático nunca parou de assombrá-lo. No decorrer da sua reflexão, a religião foi se impondo como um substituto para um ideal político inacessível. E no contexto desta busca, o cristianismo despontou com a mais sedutora das tentações. "Os valores liberais encontram a sua fonte no cristianismo", analisa. "A tradição chinesa não me satisfaz deste ponto de vista: não é possível encontrar referências à liberdade e aos direitos humanos no confucionismo"*.

Yu Jie leu muito, mergulhou na história da evangelização em terra chinesa, refletiu a respeito dos vínculos entre o cristianismo e a modernidade. Ele conseguiu dimensionar o papel do protestantismo na formação das elites reformistas na China, no início do século 20, a partir dos conhecimentos que ele encontrou, em particular, na obra de Sun Yat-sen (1866-1925), o fundador da República. "Quanto mais eu fui lendo, quanto mais fui descobrindo que a religião cristã havia contribuído para a modernização da sociedade chinesa antes da revolução de 1949", prossegue. "Ora, esta contribuição é totalmente ocultada pelos nossos manuais de história oficiais, que apresentam o cristianismo como o instrumento do imperialismo ocidental".

"Eu acabei alimentando um ódio pela sociedade"
Wang Guangze é um outro representante desses intelectuais neoprotestantes. Um jornalista dissidente, antigo funcionário do "Diário da Lei" e de "Reportagem Econômica do Século 21" - publicações das quais ele foi excluído por conta das suas opiniões democratas -, ele tem a mesma idade que Yu Jie. Da mesma forma que para este último, o trauma de Tiananmen exerceu um papel considerável em sua evolução espiritual. Em maio de 1989, ou seja, antes da repressão do movimento, ele era apenas um colegial na província do Henan, mas havia participado das manifestações de apoio que então haviam tomado conta como uma febre da juventude pelo país afora. A intervenção sangrenta dos tanques na Praça Tiananmen o deixou totalmente "desesperado".

"Eu estava tão desiludido", recorda-se, "que acabei alimentando um ódio pela sociedade, esta sociedade que se tornara a escrava do poder". Após ter concluído seus estudos de direito, ele procura curar-se dessa raiva. As tradições chinesas, como para Yu Jie, não lhe proporcionam o auxílio de que precisa. "O confucionismo se caracteriza por ser um pensamento da elite", critica Wang Guangze, "enquanto o budismo não aponta outra meta senão a de tornar-se um santo". Mas ele segue procurando, lendo, discutindo a respeito dos caminhos da salvação com os seus amigos. O que transforma o cristianismo numa revelação repentina para ele, explica, é a "noção de pecado". Nisso ele descobre - finalmente! - a chave que lhe permite livrar-se da sua execração para com o mundo. "Nós todos somos pecadores", diz. "Não existem pessoas mais nobres do que outras". "Foi assim que apazigüei a minha cólera contra o Partido Comunista", prossegue. "Os comunistas são pecadores assim como eu, mesmo se eles estão a serviço de um sistema que oprime".

Com isso, Wang Guangze torna-se então "tolerante", "moderado", e ele avalia ainda que "é preciso ajudar uns aos outros entre pecadores". Ele fundou uma associação que preconiza a "reconciliação" na China, inspirada no modelo sul-africano.

Fan Yafeng é outro que reencontrou a paz da alma graças a Deus. Um jurista na Academia das Ciências Sociais, ele tinha 20 anos em 1989. Ele havia viajado da sua província do Anhui para Pequim com o objetivo de acompanhar de muito perto a rebelião estudantil. "Depois da repressão, eu acabei ficando totalmente deprimido", recorda-se. "Ao longo de muitos anos, senti-me fraco, frágil, vazio". Ele tenta então aproximar-se do budismo, mas este não oferece respostas para as suas "interrogações a respeito do sentido da vida". No inverno de 1996, surge finalmente a revelação. Um amigo pastor que, por sua vez, havia passado do hinduismo para o protestantismo o convida para assistir ao culto de uma "igreja em domicílio". "Na ocasião, vi pessoas irradiando felicidade, pessoas muito simples, uma cabeleireira, uma empregada de uma companhia de seguros", recorda-se. "O rosto de todas elas estava iluminado". Alguns meses mais tarde, Fan Yafeng é batizado. Enquanto os eventos de 1989 haviam precipitado seus tormentos passados, hoje ele se nega, contudo, a politizar excessivamente sua descoberta da fé: "As nossas igrejas permitem salvar as almas, não a sociedade".

Nem todos os neoprotestantes de Pequim estão imbuídos de uma tão grande beatitude. Um homem de cabelos compridos com madeixas ruivas, Wang Wangwang, é um artista pintor e um célebre criador de cartazes muito requisitado pela vanguarda da capital. Ele converteu-se em 2004 porque, apesar dos seus sucessos e da sua boa situação financeira, ele sentia "um vazio espiritual". Quatro anos mais tarde, ele optou por tomar certa distância em relação ao culto. "Eu senti em mim", diz, "uma contradição, um conflito entre certos valores ocidentais vinculados ao cristianismo e os valores chineses dos quais sou portador". Desde então, ele vem se esforçando para "harmonizá-los" entre si. Wang Wangwang sublinha que ele acabou conseguindo alcançar uma "síntese satisfatória". Mas, o preço que ele teve de pagar para tanto foi um processo de desengajamento em relação à "igreja em domicílio" à qual ele havia aderido. Ele prefere "praticar" sozinho, em sua casa, no meio da mais completa bagunça dos seus quadros, nos quais o Cristo é visto disputando espaços com Mao Tse-Tung.

*Nota do tradutor - Confúcio (551 a.C. - 479 a.C.) é considerado como o primeiro "educador" da China; os seus ensinamentos deram origem a uma doutrina política e social.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

A redefinição do humano


O Globo, Caderno Prosa e Verso, páginas 1 e 2, em 23/08/2008.

Pensadores humano discutem como o avanço da tecnociência está mudando a noção de humanidade

Miguel Conde e Rachel Bertol

Mais do que um clichê das transmissões esportivas, a superação de limites é de fato uma síntese feliz do que uma competição como os Jogos Olímpicos significa — ou deveria significar. De certa maneira, cada recorde quebrado em Pequim (e não foram poucos) redefine nossas idéias a respeito do que o ser humano é capaz de realizar, por meio não apenas do treinamento físico, mas também da utilização de novas tecnologias. Um atleta vitorioso, afinal, hoje em dia não deixa de ser um grande produto científico.

Enquanto milhões de pessoas no mundo se assombram com as performances olímpicas e tentam adivinhar a velocidade de seus próximos saltos, o filósofo Adauto Novaes propõe uma discussão mais ampla sobre essa relação entre o humano e a tecnociência, que segundo ele transforma a própria noção de humanidade. Para discutir o assunto, ele organizou, com apoio do Ministério da Cultura, o ciclo de palestras “Mutações — A condição humana”, que reunirá intelectuais como Slavoj Zizek, Sérgio Paulo Rouanet e Antonio Cicero em debates no Rio (onde a série começará dia 1ode setembro, na Academia Brasileira de Letras), Belo Horizonte, Brasília e São Paulo.

Uma das participantes, a filósofa francesa Joëlle Proust, diz em entrevista ao GLOBO que o atual conhecimento sobre o funcionamento do cérebro “já nos obriga a rever categorias tradicionais de pensamento”. Outros debatedores, como Newton Bignotto, contam o esvaziamento da política entre as conseqüências sociais do desenvolvimento técnico da Humanidade.

Embora seja uma tentativa de se buscar novas maneiras para pensar um mundo que, puxado pela ciência, se transforma cada vez mais rapidamente, o encontro presta homenagem a um livro publicado há cinco décadas. O clássico “A condição humana”, de Hannah Arendt, serve de inspiração para muitos dos conferencistas. Em 1958, a filósofa já previa: “Recentemente a ciência vem se esforçando por tornar ‘artificial’ a própria vida, por cortar o último laço que faz do próprio homem um filho da natureza. (…) Esse homem futuro, que segundo os cientistas será produzido em menos de um século, parece motivado por uma rebelião contra a existência humana tal como nos foi dada — um dom gratuito vindo do nada (secularmente falando), que ele deseja trocar, por assim dizer, por algo produzido por ele mesmo”. Continua na página 2

Tentativas de pensar o presente
Desafio é dar conta de um mundo que se transforma de maneira bem mais rápida do que as interpretações


O organizador dos debates , Adauto Novaes diz que procurou dar conta de uma preocupação fundamental sua: a da necessidade de criar novas ferramentas teóricas para pensar o tempo presente: — O mundo está se transformando numa velocidade que supera a capacidade dos intelectuais de refletirem sobre essas mudanças. As categorias tradicionais já não são suficientes para entendermos o que está acontecendo, e ainda não fomos capazes de desenvolver categorias novas. Diante dessa tarefa nada modesta de atualização do próprio pensamento, os debatedores levantam linhas diversas de abordagem do contemporâneo, todas articuladas pela idéia da emergência de uma nova noção de humanidade.

Atributos associados ao humanismo em xeque
Alguns dos temas que serão abordados são a invenção do pós-humano, por Franklin Leopoldo e Silva; a delicadeza, por Maria Rita Kehl; condições humanas num planeta mestiço, por Serge Gruzinski; as utopias (ou o não-lugar) do humano, por João Camillo Penna.

A diversidade de abordagens exprime uma perplexidade, diz Adauto. Transformado em enigma, o presente demanda um esforço interpretativo de resultados incertos, enquanto o futuro alimenta previsões que (algumas coisas nunca mudam) vão do apocalíptico ao utópico.

Entre os profetas dos novos tempos, os que ocupam o pólo mais extremo do otimismo são os “transumanistas”, tema da palestra do francês Jean-Pierre Dupuy, professor de filosofia na Escola Politécnica de Paris e na Universidade de Stanford. Reunidos na World Transhumanist Association, parecem reeditar, mais de um século depois, a velha crença oitocentista no potencial civilizador do progresso científico.

O avanço industrial vai trazer nossa redenção? Já não é bem isso, como se vê pelo texto de Dupuy. A fronteira da utopia foi deslocada das grandes fábricas para células, moléculas e átomos. A manipulação genética e a nanotecnologia permitiriam “o projeto de uma autofabricação completa e permanente do homem por si mesmo, no seu corpo assim como em seu espírito”. Liberados dos azares do destino, engenheiros de si mesmo, os novos homens imaginados pelos transumanistas seriam “livres de todos os males que fazem parecer nossa vida na terra a um vale de lágrimas, como eles serão capazes de refabricar à vontade, fazendo escolhas a todo momento, em função de seus desejos, seu corpo, sua psicologia e suas emoções”, explica Dupuy.Outro conferencista, o professor de filosofia da USP Vladimir Safatle, que falará sobre a necessidade de se fazer a crítica ao humanismo, diz que é importante aprofundar o debate político sobre a tecnociência.

— A biotecnologia não é só resultado da ciência, mas de valores. O desenvolvimento científico é a tentativa de normatizar valores. Que concepção de vida direciona o desenvolvimento da ciência? — pergunta Safatle, que acaba de lançar “Cinismo e falência da crítica” (Boitempo).

Segundo Safatle, os atributos básicos associados à idéia de humanidade encontram-se em xeque. Seriam eles: a autonomia (o sujeito visto como ser autônomo); a autodeterminação (a norma de conduta só é aceita quando aceita por si próprio); a liberdade (o homem como portador de uma vontade livre); e a individualidade (o sujeito como figura singular). São todas elas idéias que advêm da modernidade.

— Sempre que se faz a denúncia da crise do homem discutese como guardar esses quatro elementos. Mas eu insistiria que talvez a gente não devesse mais guardá-los. Por mais paradoxal que possa parecer, para salvar o homem precisaríamos abandonar justamente os valores com que costumamos definir o humanismo — afirma.

Mas antes de responder sobre o que pôr no lugar desses valores, o filósofo diz que seria necessário ter clareza sobre “a natureza restritiva dessas idéias”.

— Longe de serem os guardiões do humanismo, os intérpretes deveriam pensar novas formas de subjetividade. Por exemplo, poderíamos pensar modos de organização psíquica que não fossem mais tanto dependentes da figura de um “eu”, o cerne da idéia de individualidade — explica ele.

Como o nome do ciclo já indica, a idéia é que, em vez de ser definido como tempo de crise, o presente seja pensado como momento de mutação. O fundamental, diz o professor da UFMG Newton Bignotto, que participa do ciclo, é não esquecer que esse novo, embora seja avassalador, é também contingente.

Quer dizer, que o futuro, seja qual for, não será necessário e irrevogável, mas passará pelas escolhas do ser humano.

— Existem riscos inscritos na modernidade, entre eles o da morte da política, que hoje parecem exacerbados. Mas nosso primeiro desafio, diante dos problemas atuais, é sermos capazes de formulá-los.
Um ser humano mais maleável e plástico
JOËLLE PROUST

A filósofa francesa Joëlle Proust, da Escola Normal Superior de Paris, participará do ciclo com palestra sobre “o controle de si” e a possibilidade de “um homem novo”. Nesta entrevista por telefone, da França, diz que a filosofia deve abandonar categorias tradicionais para poder entender o ser humano.

Rachel Bertol

O GLOBO: Explique-nos como se dá a interface cérebro-corpo de que falará em sua palestra.
JOËLLE PROUST:
Falarei sobre a capacidade de intervenção tecnológica no caso de patologias e lesões como Parkinson, epilepsia, paralisias em geral. Sobre isso, há um interessante campo de pesquisa de interface cérebromáquinas, com muitos métodos em teste, seja com a implantação de eletrodos no cérebro ou o uso de capacetes não invasivos para prever as intenções motoras da pessoa por meio de suas ondas cerebrais. A eficácia depende do tempo da patologia: nos dois anos posteriores a um acidente, a pessoa ainda tem viva a memória dos movimentos. Os sinais que dá são transferidos a um computador que traduz a informação, como um robô.

Quais são as perspectivas filosóficas?
JOËLLE:
É muito interessante. Faz voltar à questão sobre o que é o corpo. A noção de feedback se torna capital no plano filosófico, na medida em que somos o que somos porque o corpo é o que é por ser reconhecido e usado pelo cérebro. As neurociências mostram como o homem usa ferramentas como prolongamento do corpo. Se há técnicas que nos dão feedback sobre a qualidade de nossas ações, e sobre os objetivos que buscamos, elas se tornam parte do corpo.

Nas Olimpíadas temos outro extremo, o dos supercorpos saudáveis. São técnicas que poderiam ser usadas no esporte?
JOËLLE:
Este já é o campo da bioética. Hoje os atletas rejeitam o uso de drogas, pelo menos normativamente, e espero que rejeitem técnicas como manipulação genética ou implantações cerebrais de células nervosas para melhorar performances. Se num doente restauram-se conexões cerebrais, essas técnicas poderiam se aplicar a atletas ou cientistas a fim de melhorar a conectividade cerebral numa determinada tarefa. Mas espero que tenham a sabedoria de não fazer isso. Há técnicas relacionadas ao feedback, não-invasivas, só com exercícios, que podem ser bem mais exploradas. Há a possibilidade de melhorar a performance dos adultos se ajudamos as crianças, por exemplo, a desenvolver a concentração. E isso somente com jogos eletrônicos, ainda em teste.

Como o caso das Olimpíadas ilustra, não há um ambiente natural de desenvolvimento...
JOËLLE: A noção de natureza não tem sentido para nós porque sempre copiamos as representações de outro, as maneiras de fazer do outro. Trata-se, sim, de achar as maneiras de fazer mais interessantes para nós. Não as mais eficazes, que podem ser as mais nocivas. Surgem dilemas na relação entre custo e benefício. Há implantações em pessoas com Parkinson que necessitariam de oito embriões humanos. Para decidir sobre algo tão delicado — obviamente a partir de embriões inviáveis, nunca sacrificados — não basta uma pessoa, mas um comitê de ética. É algo incômodo, ainda mais quando imaginamos os embriões que poderiam ser concebidos só para a pesquisa. Mas o que sabemos sobre o cérebro já nos obriga a rever categorias tradicionais de pensamento. Não basta ver o homem como um conjunto de desejos e crenças que racionalizamos para tirar uma explicação. Vemos que o feedback tem papel considerável e o ser humano é muito mais aberto e dependente do entorno do que pensávamos — um ser mais maleável, cambiante, plástico. Falarei sobre como desenvolver a plasticidade mental e os conceitos adaptados a essa plasticidade.

É preciso aprofundar o debate ético?
JOËLLE:
Serão necessárias diretrizes gerais. Será preciso fazer uma escolha para saber se vamos querer o desenvolvimento de uma elite com capacidades extraordinárias ou se consideramos que a Humanidade deverá avançar toda no mesmo passo. Não podemos frear a pesquisa, mas o normal seria democratizar.
Um futuro de drogas e genes manipulados
HANS GUMBRECHT

Em “Elogio da beleza atlética” (Companhia das Letras, tradução de Fernanda Ravagnani), Hans Gumbrecht escreveu sobre a estética do esporte. O professor de Stanford, que está no Rio dando um curso a convite do Instituto de Estudos Avançados em Humanidades da PUC, falou com O GLOBO sobre as Olimpíadas.

Miguel Conde

O GLOBO:
Um clichê das transmissões esportivas é a necessidade de o atleta “superar seus limites”. Se pensarmos as Olimpíadas como um momento em que o homem confronta seus limites, é possível também enxergar nelas caminho de redefinição desses limites?
HANS GUMBRECHT:
Ao contrário da transformação cultural e social, a física é relativamente limitada. O Usain Bolt sem dúvida é fantástico, o recorde dos 100 metros foi quebrados, mas é difícil imaginar que sem uma transformação física artificial o homem vá um dia chegar a correr os 100 metros em 9 segundos.

A partir de um certo momento, as possibilidades de evolução nas performances passam logicamente pelas drogas. É um caminho inevitável?
GUMBRECHT:
Se alguém tem dor de cabeça, toma uma aspirina. Se quer ter filhos com sua mulher e não consegue, faz tratamento farmacológico. O único grupo de humanos excluídos dessa possibilidade são aqueles de quem esperamos uma performance de alto nível. É um absurdo. Eu acho que a única solução — não muito positiva, mas a possível — , seria uma liberalização. Falando meio ironicamente, mas não por inteiro, uma visão possível do futuro da corrida de 100 metros seria como a Fórmula-1. Um campeonato de pilotos, ou de atletas, e outro para a farmacologia.

Os jogos também apontam a possibilidade de criação de superatletas, inclusive por meio da manipulação genética. Pensando de modo mais amplo, na sociedade em geral, como o senhor vê essa possibilidade?
GUMBRECHT:
A manipulação genética dá mais poder de decisão ao ser humano. Pode ser usada para produzir um homem mais pacífico, ou mais inclinado ao conhecimento. Por outro, pode haver a tentação inversa. Não existe a garantia de um desenvolvimento positivo da tecnologia. Calcula-se que os nazistas, quando foram derrotados, estavam a meses de desenvolver a bomba atômica. E a intenção, parece que tanto de Hitler quanto de Göbbels, era um suicídio coletivo da Humanidade, por razões quase estéticas. Então, essa também é uma possibilidade, que ninguém pode negar.

O que os Jogos dizem sobre nosso tempo?
GUMBRECHT:
Penso em como o lazer, e aí se incluem as muitas formas de diversão corporal, é algo cada vez mais central na vida das pessoas. A ponta da transformação, nesse caso, é a União Européia. A vida profissional masculina num país como a Itália começa em média aos 33 anos e termina aos 60 anos, e as horas de trabalho na semana são 35. É a realização de promessas utópicas, formuladas pela primeira vez no século XIX, mas tenho impressão também de que é uma vida cada vez mais chata, sem drama, sem tragédia. Esse tipo de vida que parece só ganhar interesse quando se articula num contexto de competição extrema como os Jogos Olímpicos.

Em “Elogio da beleza atlética”, o senhor diz que o esporte admite uma contemplação desinteressada, como a arte. Mas o senhor é de fato um espectador tão sereno assim? Ou tem seus momentos de torcedor fanático?
GUMBRECHT:
Dou aula numa universidade que é muito forte nos esportes, então vários alunos meus viajaram para competir. Tenho feito também uma torcida negativa, para que a União Européia ganhe poucas medalhas. Não é que eu ache os europeus pessoas ruins, mas acho que precisa ficar claro que a forma de vida que prevalece lá não é positiva para produzir boas performances.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Expressões do Sagrado: Reflexões sobre o Fenômeno Religioso

Expressões do Sagrado: Reflexões sobre o Fenômeno Religioso
Antonio Magalhães e Rodrigo Portella
Editora Santuário, 1ª edição, 2008.
Sinopse:
Embarcar no conhecimento das religiões pode tornar-se uma aventura prazerosa. O aprofundamento no tema, certamente, possibilitará que vejamos a nós mesmos dentro de um contexto muito maior que nos fará compreender os significados das religiões na vida humana e social.
Assim, a Editora Santuário apresenta Expressões do Sagrado – Reflexões sobre o fenômeno religioso, o primeiro volume da coleção Cultura e Religião. Nessa obra, os autores Antonio Magalhães e Rodrigo Portella perpassam através de ensaios e reflexões elementos básicos do universo religioso descrevendo o caráter simbólico, antropológico e social da religião, além de tecerem considerações sobre identidades religiosas do povo brasileiro.
Ao fazer uma abordagem básica sobre o fenômeno religioso e introduzir reflexões sobre a religião, a obra objetiva aguçar o interesse pelo tema junto ao meios acadêmicos nas áreas de antropologia, sociologia, teologia, filosofia e aos demais interessados.


Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso: A arte do possível

Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso: A arte do possível
Faustino Teixeira e Zwinglio Mota Dias
Editora Santuário, 1ª edição, 2008.
Sinopse:
A comunidade humana almeja a paz. E as religiões podem atuar como importantes instrumentos, a partir do diálogo, para o alcance desse nobre objetivo. Por isso, Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso – a arte do possível é uma excelente obra para o aprofundamento dos dois temas que, apesar de estarem unidos no título, apresentam características distintas. O Ecumenismo diz respeito à busca da unidade entre os cristãos. No diálogo inter-religioso, o distintivo é a ética permitindo realizações solidárias.
Para os autores, Faustino Teixeira e Zwinglio Mota Dias, a paz depende da arte de dialogar e celebrar com as mais variadas expressões religiosas, sensíveis para um aprendizado recíproco. Num tempo marcado pela sedução fundamentalista e pela afirmação das identidades egocentradas, nada mais essencial que o exercício de sensibilização ao mundo do outro e a busca comum de caminhos de atuação solidária em favor da paz mundial, define Faustino Teixeira na introdução.


quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Meios reestruturam mundo religioso, diz professor Stewart Hoover

O coordenador da 6. Conferência sobre Meios, Religião e Cultura, reunida de 11 a 14 de agosto em São Paulo, e professor da Universidade de Colorado, Estados Unidos, Stewart Hoover, sustentou que a religião midiatizada está gerando não só um maior nível de visibilidade das diversas expressões religiosas, mas propiciando profunda reestruturação no modo de administrar o poder, de viver a espiritualidade e de posicionar-se na esfera pública.

Rolando Pérez
ALC - São Paulo, terça-feira, 19 de agosto de 2008


Um dos pioneiros na pesquisa sobre tele-evangelismo e o impacto midiático das igrejas, Hoover mencionou duas tendências da religião contemporânea sobre as quais os meios desempenham um papel importante. O pesquisador observou, em primeiro lugar, uma forte tendência às buscas autônomas e encontros des-institucionalizados com o mundo da espiritualidade. “As pessoas constroem hoje sua religiosidade sem depender de nenhuma regulação orgânica”, sublinhou.

Hoover destacou que os meios se converteram em espaços através dos quais se constrói o mercado que permite com que uma demanda religiosa diversificada chegue às pessoas com maior fluidez e sem a formalidade das mediações tradicionais.

“Neste contexto, os sujeitos sociais modernos atuam de maneira cada vez mais autônoma e pragmática em contraste com aquelas expressões e práticas culturais ‘místicas’ ou efervescentes”, afirmou.

Segundo a análise do professor estadunidense, isso não significa que as manifestações religiosas contemporâneas sejam mais triviais ou inconsistentes na atualidade. Ao contrário, isso implica que as pessoas hoje se percebam como consumidores ativos ou fiéis religiosos pró-ativos dos recursos disponíveis no mercado religioso global. Ao mesmo tempo, o “crente” de hoje tornou-se um produtor dos novos discursos religiosos des-institucionalizados.

Em relação ao fenômeno da igreja eletrônica, Hoover identificou uma nova tendência. “No passado, os movimentos e grupos religiosos, especialmente o setor evangélico, construíam seu poder a partir da apropriação comercial dos meios. No entanto, hoje a emergência religiosa nos meios gera sua própria lógica de legitimidade para além do poder daqueles que administram estes meios”.

Nesse sentido, Hoover sustentou que os meios alternativos, não comerciais, estão expandindo-se de maneira acelerada e gerando novos apoderamentos locais. “Hoje é possível, por isso, falar de uma configuração ‘glocalizada’ da religião contemporânea”, pontuou.

Ao término do encontro, os participantes reconheceram que este fórum tem evidenciado o crescente interesse por parte dos pesquisadores sociais de todo o mundo em relação às implicações midiáticas do fenômeno religioso contemporâneo.

A emergência dos denominados “blogs” da fé em países como a Austrália, o crescimento acelerado da indústria musical midiática na América Latina, o massivo consumo global de sites religiosos na Internet, a luta dos pentecostais para se apropriar de meios comerciais na Nigéria, a “hibridização” dos rituais religiosos midiáticos em comunidades rurais italianas, as transições do tele-evangelismo norte-americano, e as resignificações da cultura oral em espaços digitais na Índia representam apenas alguns dos exemplos mencionados neste fórum e que configuram o novo mapa midiático da religião contemporânea global.

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Dica Dr Jim West.

domingo, 17 de agosto de 2008

Somos secularizados, mas nos interessamos por Deus

IHU, em 16/08/2008 - Experimenta-se na Espanha um verdadeiro boom editorial que incursiona na literatura religiosa. Por trás desse fenômeno está a busca de versões da religião diferentes da oficial. Segue a íntegra do artigo de Gabriela Cañas publicado no El País, 6-08-2008. A tradução é do Cepat.

Na última década, foram publicados na Espanha 463 livros em cujos títulos aparece a palavra “evangelho”. É quase o dobro do que na década anterior. Também aumentaram os livros dedicados à Virgem Maria ou a Jesus de Nazaré. É verdade que cada vez se publicam mais livros na Espanha, o que indica que numa sociedade cada dia mais laica não decai o interesse pelo sagrado.

A Bíblia, O nome da Rosa ou O Código da Vinci são best-sellers indiscutíveis, mas o fenômeno da literatura religiosa (ou que utiliza referenciais religiosos para suas tramas) é um fenômeno que, na Espanha, goza de muito boa saúde. Novos títulos ocupam as listas dos livros mais vendidos. Romancistas, historiadores e teólogos encontram nos evangelhos apócrifos, na figura de Maria Madalena, na Inquisição ou na imprecisão dos textos sagrados uma fonte inesgotável de inspiração que conta com a maior receptividade da história por parte dos leitores. A que se deve tanto interesse?

Se alguém procura leituras de verão, é difícil resistir a um tomo volumoso que propõe descobrir como uma agente do FBI, com a ajuda de um exorcista, chega até manuscritos da cristandade proibidos na Idade Média e à causa oculta da morte de várias monjas recoletas de Bolzano (Itália). Também não é fácil abandonar a leitura de um extenso romance que começa assim: “Languedoc. Metade do Século XIII. Sou espiã e tenho medo. Tenho medo de Deus porque em seu nome fiz coisas terríveis”.

E junto com ganchos tão indiscutíveis, como é possível que um sisudo ensaio de 500 páginas intitulado Jesus. Aproximação histórica tenha vendido 50.000 exemplares em sete meses?

A história deste último livro poderia ser a base adequada para uma nova novela do gênero histórico-religioso. Seu autor, José Antonio Pagola, vigário da diocese de San Sebastián, que dedicou sete anos de pesquisa ao seu texto, vive talvez os momentos mais amargos de sua vida uma vez que foi condenado pela Inquisição espanhola, hoje chamada de Comissão Episcopal para a Doutrina de Fé. Seu pecado? Chegar a “colocações e conclusões nem sempre compatíveis com a imagem de Jesus apresentado nos Evangelhos, e que foi guardada e transmitida com fidelidade pela Igreja”, segundo a nota da Conferência Episcopal de 27 de junho passado. Esta história exibe, enfim, uma das chaves do atual sucesso de tudo o que se relaciona com a religião: o gosto pela heterodoxia.

No século XXI, são muitos os espanhóis, crentes e agnósticos, que rechaçam a ortodoxia, o pensamento único, o dogmatismo, o fundamentalismo. “O livro de Pagola é um sucesso de vendas porque é uma versão moderna e próxima, e porque as pessoas procuram interpretações múltiplas para tudo. Negam-se a aceitar uma leitura única, uma interpretação única”, explica a teóloga Margarita Pintos, analista do papel da mulher na Igreja.

Com efeito, o texto de Pagola foi um boom antes que a Inquisição espanhola o condenasse simbolicamente à fogueira. “Quando começaram a se difundir as críticas ao livro já haviam sido realizadas 12 apresentações em diferentes lugares do país, com uma participação média de 400 pessoas por apresentação”, assegura Luis Aranguren, chefe da editora marianista PPC.

O jornalista e ex-sacerdote Juan Arias vendeu 24 edições de seu livro Jesus, esse grande desconhecido. O título em si já assinala que, apesar das aparências, não sabemos tanto de Jesus de Nazaré como cremos. Ou não sabemos toda a verdade. Inclusive os textos mais ortodoxos convidam a leituras com invocações similares às que qualquer texto crítico com a doutrina oficial utilizaria, anunciando esse outro traço que explica o interesse por este tipo de literatura: a transgressão, a recusa da ordem preestabelecida. Assim, o jesuíta Francesc Riera publicava, no final de 2007, um estudo intitulado Jesus de Nazaré: o evangelho de Lucas, escola de justiça e misericórdia: uma história subversiva e fascinante.

Parte do fascínio provocado por Jesus de Nazaré estriba, segundo o teólogo
Juan José Tamayo, que publicou vários livros sobre sua figura, em que todo o mundo fala bem dele, resistiu a todas as análises. “É o paradigma da coerência”, disse dele Tamayo. Isso não impediu que, como o de Pagola, muitos dos trabalhos sobre Jesus tenham merecido o desprezo dos conservadores. Isso aconteceu com o livro Última notícia de Jesus, o Nazareno, de Lluís Busquets, apesar de ser um compêndio rigoroso das contribuições feitas até o momento.

A partir daí, os níveis de transgressão da doutrina oficial dispararam. Os historiadores mais rigorosos se negam a limitar suas fontes aos evangelhos canônicos e lançam mão dos apócrifos para reconstruir a história de Judas, devolver sua relevância e sua humanidade a Maria, cuja virgindade é questionada, e, evidentemente, para resgatar do prostíbulo em que a Igreja oficial meteu Maria Madalena, uma mulher que os teólogos e, sobretudo, as teólogas definem como uma mulher culta, talvez o apóstolo mais inteligente de Jesus e, por que não?, a companheira sentimental de sua vida. “A impressão geral é que a maioria das pessoas nos enganou quando aprendemos a religião”, disse Margarita Pintos. “Não nos contaram a verdade sobre Maria Madalena. Foi nos imposto o patriarcado institucionalizado em todas as religiões. E sobre a virgindade de Maria, o que não cola mais”.

Heterodoxia, transgressão, mistério, ocultação da realidade... Vimes perfeitos para um romance de ação, temperado de suspense, esoterismo e história. “Creio que o sucesso se deve a que as pessoas têm a sensação de não ter tempo para ler tudo o que gostariam e, ao mesmo tempo, querem divertir-se. Este tipo de livro mata dois pássaros com um tiro: diverte e ensina”, explica Angeles Aguilera, diretora de Comunicação das Edições Generales Santillana.

A história, a recreação da sociedade num determinado tempo (como fez Pagola para reescrever Jesus) é a base da obra da jornalista Julia Navarro. Seus três romances, de conotações histórico-religiosas, venderam cerca de 1,5 milhão de exemplares. Arqueólogos, catedrais, templários, enigmas... “Meras desculpas para tratar de problemas que me preocupam, como o nazismo ou o fanatismo”, explica a própria autora, através, isso sim, do fato religioso. Mas acrescenta: “Não me interessa tanto a religião em si, mas sua influência. Sem a religião não se pode explicar parte da nossa história nem se pode entender, para dar um exemplo muito próximo, a manifestação dos bispos, no ano passado, contra o governo de Rodríguez Zapatero. Não há um período da história em que a religião não tenha exercido um papel preponderante”.

Entre os últimos estouros de ficção com referenciais histórico-religiosas se conta O labirinto da rosa, de Titania Hardie (Suma de Letras) que na Espanha vendeu 100.000 exemplares. O evangelho do mal, de Patrick Graham (Editorial Grijalbo), foi publicado em maio e já vendeu 20.000 exemplares. E os três romances de Julia Navarro.

“Se não se ensinar a história das religiões a uma criança, entrará no Museu do Prado e não entenderá nada”, diz Juan Arias. “Nosso laicismo, além disso, é pura aparência. Nossa cultura de séculos é católica, religiosa. E é uma necessidade do ser humano porque a função da religião é desenterrar medos e dar felicidade, ainda que as igrejas tenham invertido os termos”.

Nuria Tey, diretora editorial de Plaza & Janés, acredita que o nosso interesse por este tipo de leitura aumentou na medida em que a sociedade espanhola foi se abrindo mentalmente. Tey não tem nenhuma objeção em catalogar muitos destes textos na categoria de “livros de auto-ajuda”, na permanente busca de referenciais para as nossas vidas. Enquanto fugimos do dogma, enquanto, como disse Tamayo, “nos libertamos de um sistema rígido de crenças”, buscamos novos pilares sobre os quais crescemos como pessoas na busca de encontrar um sentido para a existência.

“A qualquer ser humano, crente ou não, os temas da transcendência e do sofrimento dizem respeito”, explica também Raquel Mallavibarrena, porta-voz da corrente Somos Igreja. “Por isso, as manifestações artísticas, e concretamente a literatura, que abordam esses aspectos, sempre interessam por sua conexão com essas regiões mais íntimas e profundas das pessoas, com as perguntas e incertezas que todos carregamos dentro de nós”.

Temos dúvidas, questionamos mais coisas e não nos contentamos com uma interpretação única. O fenômeno não diz respeito só aos cristãos. Esta corrente revisionista também está se produzindo, por exemplo, no islamismo, ali onde se dão as condições políticas e sociais adequadas: laicismo e liberdade de expressão. É o caso da Espanha. Ainda não há muitos livros sobre o assunto, mas uma clara corrente ideológica e um feminismo islâmico que está surgindo. Quem garante isso é o presidente da Junta Islâmica da Espanha, Mansur Escudero. “Na Europa e na Espanha está se oferecendo uma releitura de livre interpretação que converge com o Islã autêntico. E isso acontece de modo especial entre os convertidos”.

Mas esta já é outra história. Ainda que seja a mesma.